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Obra desaparecida de Tarsila do Amaral foi oferecida a Vorcaro por R$ 120 milhões, menos da metade do preço

Publicado 22/10/2026 • 22:52 | Atualizado há 11 minutos

KEY POINTS

  • “O Sol Poente” foi oferecido a Daniel Vorcaro em abril de 2024 por R$ 120 milhões, menos da metade da avaliação de R$ 250 milhões atribuída à obra.
  • Proposta previa que uma eventual compra fosse mantida em sigilo por pelo menos cinco anos, apesar de o quadro integrar um espólio cujo inventário ainda não havia sido concluído.
  • Vorcaro não comprou a pintura; meses depois, a obra apareceu na casa de Roberto Setúbal, que também desistiu da aquisição diante dos impedimentos jurídicos.

Dilvulgação

Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master; mensagens reveladas pelo Valor Econômico indicam negociações envolvendo a financeira BRK, liquidada em 2023.

“O Sol Poente”, uma das obras mais conhecidas de Tarsila do Amaral e atualmente considerado desaparecido pela Justiça, foi oferecido ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro por R$ 120 milhões em abril de 2024.

O valor era menos da metade dos R$ 250 milhões pelos quais a pintura havia sido avaliada. A proposta tinha ainda uma condição: caso concluísse a compra, Vorcaro deveria manter a negociação em sigilo por pelo menos cinco anos. O ex-banqueiro não adquiriu a obra.

A oferta aparece em mensagens extraídas pela Polícia Federal do WhatsApp de Vorcaro e obtidas pela BBC News Brasil nesta quinta-feira (22).

A negociação chama atenção porque “O Sol Poente” integra o espólio do marchand e colecionador Jean Boghici, morto em 2015. Como o inventário ainda não foi concluído, os bens não podem ser vendidos sem autorização judicial.

Oferta tratava quadro como “superinvestimento”

A proposta chegou a Vorcaro em 8 de abril de 2024 por meio da designer de interiores Luciana Gontijo, que auxiliava o ex-banqueiro em projetos residenciais e fazia a interlocução com artistas e galerias.

Na mensagem, Gontijo apresentou a obra como um “superinvestimento”, informou a avaliação de R$ 250 milhões e disse que a proprietária pretendia vendê-la por R$ 120 milhões.

A designer também afirmou que apenas Vorcaro e outra pessoa no Brasil teriam recebido autorização para conhecer a oferta. Segundo a mensagem, esse outro interessado teria oferecido R$ 80 milhões.

A mulher apontada como interessada na venda é Geneviève Boghici, viúva de Jean Boghici.

Quadro apareceu na casa de Roberto Setúbal

Poucos meses depois da oferta a Vorcaro, ‘O Sol Poente’ apareceu na residência de Roberto Setúbal, ex-CEO do Itaú. O episódio foi revelado pela Folha de S.Paulo no fim de 2025.

O caso veio a público no fim de 2025, depois que Daniela Fagundes, ex-mulher de Setúbal, publicou um vídeo no Instagram no qual a pintura podia ser vista emoldurada e apoiada no chão. A publicação foi apagada.

Setúbal não concluiu a aquisição. Ele afirmou ter devolvido a obra à pessoa que a havia oferecido, mas não revelou sua identidade.

Fagundes disse na ocasião que o quadro havia chegado à residência por intermédio da galeria Almeida & Dale. A galeria negou qualquer participação na operação.

Atualmente, não há informação sobre onde “O Sol Poente” está.

Justiça considera obras desaparecidas

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A pintura faz parte de um conjunto de obras valiosas de Tarsila pertencentes ao espólio de Jean Boghici.

Também estão desaparecidos “O Sono”, avaliado pela Justiça em R$ 300 milhões, e “Pont Neuf”, cujo valor pode chegar a R$ 150 milhões.

As obras já haviam sido alvo de um caso criminal envolvendo a família Boghici.

Após a morte do marchand, o acervo ficou com sua mulher, Geneviève, e as filhas Sabine e Muriel. Anos depois, Geneviève foi vítima de um esquema que envolveu a própria filha Sabine e Rosa Stanesco, que se apresentava como cartomante.

Segundo os processos judiciais, obras da coleção foram retiradas da residência de Geneviève sob o argumento de que precisavam ser benzidas. Parte do acervo, incluindo trabalhos de Tarsila, foi recuperada pela polícia em 2022.

O prejuízo relacionado ao caso foi estimado à época em R$ 725 milhões.

Inventário passou a ter administração independente

A situação do espólio voltou à Justiça em 2025. Em junho daquele ano, a juíza Marisa Simões Mattos Passos apontou indícios de má gestão patrimonial, venda de obras sem autorização, movimentações financeiras consideradas suspeitas e existência de bens que não teriam sido incluídos no inventário.

A decisão também determinou o bloqueio das contas bancárias e aplicações financeiras de Geneviève. Naquele momento, havia R$ 10.185,52 disponíveis.

A Justiça nomeou então o advogado Fábio Picanço como inventariante independente para administrar o patrimônio.

Em agosto de 2025, oficiais de Justiça fizeram diligências em oito endereços ligados à família, mas não localizaram as obras, Geneviève ou Muriel.

“O Sol Poente” está entre as obras mais valorizadas de Tarsila

Pintado em 1929, “O Sol Poente” pertence à fase antropofágica de Tarsila do Amaral, período que concentra algumas das obras mais reconhecidas e valorizadas da artista.

A pintura chegou a ser exibida no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, durante uma retrospectiva dedicada a Tarsila em 2018.

O interesse internacional pela artista aumentou nos últimos anos. Em 2019, o MoMA anunciou a aquisição de “A Lua”, de 1928. O preço não foi divulgado oficialmente, embora à época tenha circulado no mercado uma estimativa de US$ 20 milhões.

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