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Allan Ravagnani AI-451

Huawei desenha próximos chips de IA com a DeepSeek e mira superar o muro de software que protege a Nvidia

Publicado 20/10/2026 • 11:08 | Atualizado há 56 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter Especial

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter especial do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

Huawei

Quem já passou uma tarde numa alfaiataria antiga de São Paulo, dessas com fita métrica no pescoço do mestre, giz azul atrás da orelha e um espelho de três faces, sabe que o terno bem cortado nasce de uma longa conversa em que o freguês reclama do ombro que repuxa, avisa que carrega o celular no bolso esquerdo e passa o dia sentado, enquanto o alfaiate anota tudo no caderno antes de encostar a tesoura no tecido.

Nenhuma loja de departamento entrega esse ajuste, porque vende uma única medida para todo mundo. Foi uma cena parecida, com o silício no lugar do tecido e o código no lugar da fita métrica, que o The Information descreveu na segunda-feira (19) ao contar que a DeepSeek trabalha de perto com a Huawei para moldar o desenho dos futuros chips de inteligência artificial da fabricante, o que irá ajudar a China a construir modelos de ponta sem a tecnologia da Nvidia.

A reportagem, assinada por Qianer Liu e Juro Osawa, se apoia em duas pessoas familiarizadas com o assunto e diz que a relação vai além do tipo de conversa que as empresas costumam ter entre si. Segundo o texto, a Huawei dá prioridade à DeepSeek no fornecimento do Ascend 960DT, chip de treinamento da próxima geração, e os projetos desenhados em conjunto miram o ano que vem. O calendário combina com o que a fabricante anunciou na quinta-feira (17) de setembro, no Huawei Connect, em Xangai, quando puxou o 960DT para o primeiro trimestre de 2027, três trimestres antes do previsto.

Em junho, contei por aqui como a DeepSeek extraiu quase o dobro de trabalho dos mesmos chips, e como a Huawei apareceu no dia do lançamento do V4 para rodá-lo. Ali a empresa espremia o hardware que existia, e agora, pelo que o The Information apurou, opina sobre o hardware que ainda vai existir.

Linguagem de programação para furar o muro do CUDA

A prova de que a conversa começa pelo software veio em 30 de setembro, quando a DeepSeek abriu o código de seis módulos feitos para os chips Ascend, entre eles o TileLang, linguagem que a empresa descreve como mais simples de programar do que o CUDA. A Huawei, segundo a DeepSeek, deu apoio total, e as duas avançaram juntas num bloco de 128 chips Ascend 950. O objetivo declarado, em post no WeChat, é erguer um ecossistema de software "independente e controlável" para processadores gráficos.

🔍 CUDA é o conjunto de ferramentas de programação que a Nvidia mantém há quase 20 anos e que a maioria dos desenvolvedores de inteligência artificial aprendeu a usar. Trocar de chip obriga a reescrever esse código.

A muralha que protege a Nvidia sempre foi feita de hábito, de milhões de linhas de código que ninguém quer reescrever, e quem escreve o código e ainda opina sobre o chip ataca essa muralha pelos dois lados.

Fábrica da Huawei ainda não dá conta da fila

Desenhar é uma coisa e produzir é outra. A DeepSeek planeja instalar pelo menos 160 mil chips Ascend 950DT num data center na Mongólia Interior, mas o cronograma depende da produção da Huawei, limitada pela falta de componentes como memória de alta velocidade. A startup pediu ajuda a Pequim para convencer a fabricante a entregar mais, e mais depressa. Esses chips operariam os modelos, não os treinariam, etapa em que a DeepSeek segue dependendo da Nvidia.

Os prazos são metas da própria Huawei, sem teste independente contra o hardware americano.

Nvidia perde terreno e a Huawei ocupa a vaga na China

A IDC calculou, em relatório, que a Nvidia detinha 34% do mercado chinês de chips de inteligência artificial para data centers no primeiro semestre, com 678 mil aceleradores entregues, queda de 44% em um ano.

A Huawei entregou 572 mil, contra pouco mais de 300 mil um ano antes, e chegou a 28%. Em abril, quando a DeepSeek lançou o V4 adaptado aos chips Ascend, Jensen Huang disse em podcast que o dia em que a DeepSeek saísse primeiro na Huawei seria "um resultado horrível para a nossa nação".

O fundador da DeepSeek, Liang Wenfeng, disse a investidores que treinar com chips chineses é uma das maiores apostas da empresa e precisa dar certo, e previu que a Huawei alcançará a Nvidia em desempenho em poucos anos. A empresa treina um modelo de 2 trilhões de parâmetros, que o mercado supõe ser o V4.1 Pro, esperado entre meados e o fim de outubro. Se o palpite estiver certo, a pergunta que vai acompanhar o lançamento é qual chip estava ligado na tomada durante o treinamento.

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