Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Prejuízo de US$ 80 bilhões da Anthropic é em grande parte contábil, mas capex de US$ 750 bilhões é real; entenda
Publicado 21/10/2026 • 12:30 | Atualizado há 18 minutos
Boeing obtém aprovação da FAA para o 737 Max após anos de atrasos
Elon Musk ordenou redução da velocidade do Starlink na Ucrânia
Carrefour corta previsão de lucro para 2026 e ações despencam 14% em meio a protestos na França
OpenAI revela que agentes de IA enfraqueceram seus próprios sistemas de monitoramento
Nvidia lança sistema de IA em contêiner que pode ser instalado em 14 dias
Publicado 21/10/2026 • 12:30 | Atualizado há 18 minutos
Quem leu a reportagen do Wall Street Journal na manhã desta quarta-feira (21) ficou um tanto boquiaberto. O rascunho de prospecto que a Anthropic prepara para abrir capital nos Estados Unidos, mostrou um prejuízo acumulado de US$ 80,7 bilhões (R$ 407,5 bilhões, pelo câmbio de 21/10) em apenas seis meses, contra uma receita de US$ 16,3 bilhões no mesmo período.
A conta de padeiro - com todo o respeito aos padeiros - diz que quem fatura dezesseis e perde oitenta já devia estar baixando as portas, a menos que o contador tenha deixado uma pegadinha escondida num canto da planilha.
A pegadinha existe e tem nome de nota conversível, um papel que funciona mais ou menos como o empréstimo que o dono da padaria toma do primo, com a promessa de devolver o dinheiro ou entregar um pedaço do negócio, à escolha do primo, por um preço combinado de antemão. Quando a padaria passa a valer dez vezes mais, a promessa também passa a valer dez vezes mais, e o contador, obrigado a registrar essa obrigação pelo valor justo, lança a diferença como perda.
Foi o que ocorreu na Anthropic, onde cerca de US$ 72 bilhões do prejuízo vêm da reavaliação de notas conversíveis e outros instrumentos de captação, sem que um dólar tenha saído do caixa.
O caso tem um espelho no balanço de quem emprestou. A Amazon, que aplicou US$ 8 bilhões em notas conversíveis da Anthropic entre 2023 e 2025, informou à SEC, no balanço do primeiro trimestre, que esses papéis valiam US$ 42,2 bilhões em 31 de março, depois de US$ 45,8 bilhões em dezembro, com ganhos ainda não realizados de US$ 36,3 bilhões.
O que pesa como perda na contabilidade da devedora aparece como valorização na contabilidade da credora, e os dois balanços estão certos ao mesmo tempo.
Tirado o ajuste, sobra uma perda de cerca de US$ 8,7 bilhões, conta que fiz subtraindo os dois números divulgados e que o prospecto detalhará quando for público.
É ordem de grandeza parecida com a de computação e infraestrutura, que consumiu quase US$ 9 bilhões no semestre, mais que os US$ 7,3 bilhões de todo o ano de 2025. Em contrapartida, a receita saiu de US$ 1,1 bilhão para US$ 16,3 bilhões em um ano, e a empresa contou a investidores, na quarta-feira (14), que o terceiro trimestre fechou em US$ 16,8 bilhões, com lucro ajustado, margem operacional ajustada de 11% e US$ 1,70 de receita para cada dólar gasto em computação, sem que se saiba como a empresa define lucro ajustado.
Na outra ponta da folha, a Anthropic pode comprometer até US$ 750 bilhões (R$ 3,79 trilhões) em computação nos próximos anos, número que inclui negociações ainda em curso, como a com a britânica Nscale, e que se soma a contratos já firmados com Google Cloud (US$ 111 bilhões), Amazon Web Services (US$ 110 bilhões) e Microsoft (US$ 31 bilhões).
Em setembro, a Reuters havia contado ao menos US$ 518 bilhões em compromissos assinados, e boa parte dessas obrigações vale mesmo que a demanda por Claude murche, porque não pode ser cancelada.
Para medir o tamanho do compromisso, US$ 750 bilhões equivalem a mais de 45 vezes a receita do semestre e a pouco mais de onze anos de faturamento, se o ritmo do terceiro trimestre, de US$ 67 bilhões ao ano, for mantido.
À empresa basta que a receita cresça mais depressa do que as parcelas vencem, e é nessa corrida que os investidores se dividem, pois parte deles já se decepcionou com a desaceleração entre o segundo e o terceiro trimestres, de um salto de 147% para 45%.
A estreia em bolsa, com valor-alvo acima de US$ 2 trilhões, deve ser apresentada a investidores a partir da semana de segunda-feira (9), em novembro, de olho em negociar antes do feriado de Ação de Graças, na quinta-feira (26).
Em agosto, quando esta coluna levou aos leitores a conta da Fortune sobre o lucro que um valor desses exigiria, o debate era quanto a Anthropic precisaria ganhar para merecer o preço. O prospecto acrescenta a outra metade da folha, o quanto ela já prometeu pagar.
O rascunho, aliás, reserva 80 de suas 261 páginas a fatores de risco e apenas 48 à descrição do negócio, proporção que ajuda a entender por que o prejuízo de papel, ao menos esse, é o menor dos assuntos que a empresa terá de explicar a Wall Street.
Para não perdermos o senso de realidade: Empresas de inteligência artificial falam em investimento da ordem de bilhões e trilhões, que quando repetidos muitas vezes, acabam sendo naturalizado. Mas para se ter uma ideia, se o investimento de US$ 750 bilhões for realidade, ele se equivaleria ao PIB da Argentina, o 23º maior do mundo. Além disso, se o desejo de Amodei se converter em realidade e a empresa for avaliada em US$ 2 trilhões, ficaria no mesmo patamar da Espanha.
Leia todas as colunas em AI-451.
Maiores Audiências
1
GERP: Flávio tem 53 pontos e Lula, 47; distância aumenta a cinco dias das eleições
2
Lula promete tarifa zero a cinco dias do 2º turno, mas não detalha como bancar custo bilionário
3
DECISÃO 2026: Lula preparou reajuste do Bolsa Família em sigilo um dia antes do anúncio; veja documento
4
DECISÃO 2026: Orçamento do governo Lula aponta falta de R$ 53,7 bilhões para manter políticas atuais entre 2028 e 2030, diz documento
5
DECISÃO 2026: Flávio Bolsonaro tem 48,8% e Lula, 45,9%, aponta pesquisa Alfa Inteligência
Huawei desenha próximos chips de IA com a DeepSeek e mira superar o muro de software que protege a Nvidia
Anthropic alerta que modelos menores de IA podem se espalhar por TV boxes baratos em meses; gatonet brasileira é terreno fértil