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Quando o rio é a estrada
Publicado 30/09/2026 • 20:30 | Atualizado há 47 minutos
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Publicado 30/09/2026 • 20:30 | Atualizado há 47 minutos
Foto: Rede Amazônica
Por Edme Tavares de Albuquerque Filho, Diretor de Infraestrutura Aquaviária no DNIT
Quem vive em regiões onde estradas e aeroportos fazem parte da rotina dificilmente percebe o quanto a infraestrutura de transporte interfere na vida das pessoas. Na Amazônia, essa realidade é diferente: ali, os rios são, literalmente, as estradas da vida. É por eles que milhões de pessoas se deslocam, recebem alimentos e medicamentos, escoam sua produção, acessam serviços públicos e mantêm vínculos com outras cidades e comunidades. Os terminais hidroviários são fundamentais para tornar essa conexão possível.
A Região Norte conta atualmente com 60 terminais hidroviários, localizados no Pará, em Rondônia, Roraima, no Amapá e, principalmente, no Amazonas. Somente entre os meses de janeiro e agosto de 2026, esses portos receberam cerca de 3 milhões de passageiros, movimentaram mais de 600 mil toneladas de cargas e ultrapassaram a marca de 80 mil embarcações. Os números dimensionam a importância da navegação em uma área onde o transporte fluvial é parte essencial da rotina e da integração entre cidades e comunidades.
Essa realidade amazônica também evidencia um potencial que vai muito além da região. O Brasil possui mais de 20 mil quilômetros de rios naturalmente navegáveis e a maior rede hidrográfica do mundo. Ainda assim, as hidrovias permanecem subaproveitadas na matriz nacional de transporte. Ampliar o uso desse modal significa criar novas alternativas logísticas, reduzir custos e aproveitar melhor uma característica natural do território brasileiro. Na Amazônia, essa vocação já é uma necessidade cotidiana.
Para que essa rede funcione adequadamente, não basta investir apenas nos locais de embarque e desembarque. É igualmente necessário garantir que os canais de navegação estejam em condições seguras e eficientes ao longo de todo o ano. Serviços de dragagem, sinalização, monitoramento e manutenção das hidrovias são tão essenciais quanto a construção e a modernização das instalações portuárias, pois asseguram que passageiros, mercadorias e embarcações possam circular com regularidade.
Nesse contexto, os investimentos realizados em 2026 assumem papel estratégico. Cerca de R$ 150 milhões estão sendo destinados à construção de novas estruturas, com destaque para o Novo Porto da Manaus Moderna, que concentra grande parte desse valor, e à recuperação de outras instalações. Além disso, cerca de R$ 330 milhões vêm sendo empregados na operação dos terminais, garantindo o funcionamento contínuo de uma rede essencial que atende milhões de pessoas.
No Amazonas, o ano foi marcado por entregas e avanços importantes. Entre os principais destaques está o Novo Porto da Manaus Moderna, uma das maiores obras do setor hidroviário já realizadas no país, com investimento total de R$ 876 milhões. A nova estrutura terá capacidade para movimentar 3,5 milhões de passageiros por ano, atender diretamente 61 municípios ribeirinhos e beneficiar cerca de 4,5 milhões de habitantes.
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Siga o Times | CNBCMais do que ampliar a capacidade portuária, o empreendimento busca reorganizar um dos principais pontos de circulação de pessoas e mercadorias de Manaus. Cais flutuantes, terminais de passageiros e cargas, áreas de apoio e soluções de acessibilidade serão integrados a um complexo capaz de atender às necessidades atuais da capital amazonense sem abrir mão de sua identidade. Um exemplo disso é a incorporação da tradicional Feira da Banana ao projeto, preservando uma atividade cultural e econômica que se confunde com a história de Manaus.
O resultado desses investimentos também pode ser percebido em outras regiões do Amazonas. Durante o Festival de Parintins, por exemplo, a instalação portuária recebeu melhorias para acompanhar o intenso fluxo de passageiros que chega à ilha. A operação passou a funcionar 24 horas, com sistema on-line para acompanhamento dos embarques em tempo real, além de melhorias na climatização e na estrutura de atendimento. Em um dos maiores eventos culturais do país, a infraestrutura portuária tornou-se também parte fundamental da experiência de moradores e visitantes.
Em Humaitá, a reconstrução do porto, após o acidente ocorrido em 2025, recuperou uma estrutura essencial para a mobilidade regional. Em Fonte Boa, a modernização da instalação ampliou a confiabilidade da operação e aumentou a vida útil do terminal. Já em Canutama e Tefé, intervenções nos sistemas flutuantes aumentaram a capacidade e proporcionaram melhores condições para as operações. São exemplos de ações que, em diferentes pontos do estado, contribuem para tornar a navegação mais segura e eficiente.
Contudo, os números e as obras revelam apenas parte dessa história. Para muitas comunidades ribeirinhas, um terminal hidroviário pode significar muito mais do que um equipamento de infraestrutura. É o local onde uma criança inicia o caminho para a escola, onde um paciente embarca em busca de atendimento médico, por onde chegam medicamentos, alimentos e outros insumos essenciais e, também, o caminho utilizado pelos produtores locais para acessar mercados e gerar renda para suas famílias.
Nos períodos eleitorais, essa mesma infraestrutura garante que cidadãos de áreas remotas possam chegar às urnas e exercer plenamente seu direito de voto. Em uma região de grandes distâncias e desafios geográficos singulares, a mobilidade é também um instrumento de cidadania.
Por isso, na Amazônia, um terminal hidroviário não pode ser visto apenas como uma obra de engenharia. Ele integra uma rede que sustenta a vida econômica e social de comunidades inteiras. Quando o rio é a estrada, investir em infraestrutura hidroviária significa manter essa estrada aberta e segura, conectando pessoas, serviços, produção, oportunidades e direitos. É uma forma concreta de reduzir distâncias, aproximar comunidades e promover o desenvolvimento em uma região onde o caminho para o futuro continua passando, inevitavelmente, pelas águas.
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