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Netflix amplia aposta nos cinemas, mas mantém prioridade no streaming

Publicado 21/10/2026 • 16:18 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • A Netflix reformulou sua estratégia de conteúdo e liderança em exibição nos cinemas antes da divulgação de seu relatório de resultados do terceiro trimestre.
  • O co-CEO Ted Sarandos afirmou que o serviço de streaming precisa de novas vias de crescimento e de aprimorar a execução de sua estratégia de conteúdo.
  • No entanto, a estratégia da Netflix para os cinemas está em constante mudança, com apenas alguns lançamentos em grande escala e resistência às operações de alto orçamento dos estúdios de cinema tradicionais.

Foto: Divulgação / Netflix

O elenco da 5ª temporada de “Stranger Things” da Netflix

A Netflix deixa clara sua posição: é uma empresa que prioriza o streaming.

Durante a teleconferência de resultados do terceiro trimestre, na terça-feira, o copresidente-executivo Ted Sarandos reiterou a posição de longa data da gigante do streaming: seu conteúdo, no qual gastou US$ 20 bilhões (R$ 100,8 bilhões) no ano passado, é destinado aos assinantes e, portanto, deve chegar à plataforma o mais rapidamente possível.

Ainda assim, a empresa prevê 30 lançamentos nos cinemas em 2027, número semelhante ao de 2026. Embora nem todos tenham distribuição ampla ou longas temporadas em cartaz, a Netflix testa esse mercado com projetos como “Nárnia: O Sobrinho do Mago”, de Greta Gerwig, que terá lançamento abrangente e uma janela exclusiva de 49 dias nos cinemas a partir de fevereiro.

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A empresa parece prestes a abrir um novo caminho enquanto enfrenta estagnação na audiência e uma queda de aproximadamente 30% em suas ações desde janeiro.

Permanece a dúvida sobre como suas ambições cinematográficas se encaixam em uma estratégia que coloca o streaming em primeiro lugar.

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“Os lançamentos nos cinemas têm um efeito líquido positivo sobre o alcance e a demanda por streaming”, escreveu Alicia Reese, analista da Wedbush, em nota na quarta-feira. “A postura mais receptiva da Netflix em relação às janelas exclusivas nos cinemas não apenas facilitará melhores relações com talentos, como também acrescentará uma nova fonte de receita e despertará interesse pelo serviço de streaming. Isso segue o padrão que vimos nas plataformas de streaming dos grandes estúdios nos últimos anos: os lançamentos nos cinemas não prejudicam a janela de streaming, como a Netflix teme.”

Mudanças na liderança e busca por sucessos

Antes de divulgar os resultados na terça-feira, a Netflix reorganizou sua alta administração e contratou o ex-executivo da Disney Peter Rice como diretor de conteúdo, substituindo Bela Bajaria, veterana de dez anos na empresa.

A Netflix também dispensou Dan Lin, chefe da divisão de filmes, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu anonimato para comentar mudanças internas. A decisão ocorreu poucos dias depois da demissão de cerca de mil funcionários, entre eles Doug Belgrad, braço direito de Lin, e Sheroum Kim, diretora de cinema independente, segundo diferentes reportagens. Ainda não está claro quem assumirá o cargo de Lin.

A companhia pretende recuperar a qualidade associada à marca e aproveitar a experiência de Rice no relacionamento com talentos para atrair grandes nomes em um mercado cada vez mais competitivo.

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Mesmo assim, os executivos da Netflix pareceram minimizar a mudança de liderança durante a apresentação de resultados.

“Nosso negócio e o ciclo que o impulsiona estão funcionando”, disse Sarandos aos investidores. “Não há necessidade de uma mudança fundamental de estratégia. Precisamos executar melhor nos Estados Unidos […] O negócio simplesmente não cresce tão rapidamente quanto poderia ou quanto gostaríamos.”

Sarandos afirmou que o serviço teve “algumas rebatidas duplas e triplas realmente sólidas neste ano”, mas sugeriu que a companhia precisa de mais “home runs”, em referência a grandes sucessos.

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Em um momento emblemático da teleconferência, Sarandos destacou um acordo fechado em outubro com a Disney para levar os filmes de “A Era do Gelo” e outros títulos ao serviço de streaming e fez uma referência ao presidente-executivo da Disney, Josh D’Amaro.

“Já estamos vendo alguns desses benefícios com os filmes de A Era do Gelo. Os cinco entraram no nosso top 10. Isso é realmente empolgante”, disse o copresidente-executivo da Netflix. “E, a propósito, sim, a Netflix acabou de divulgar um filme da Disney na nossa teleconferência de resultados. De nada, Josh.”

A estratégia de conteúdo da Netflix

Na tentativa de conquistar a atenção dos consumidores e ampliar o público potencial de assinantes, a Netflix passou anos diversificando sua oferta, incluindo videogames, esportes ao vivo e documentários produzidos rapidamente sobre assuntos culturais em evidência.

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Mais recentemente, porém, faltaram à plataforma sucessos capazes de dominar as conversas do público, como “Stranger Things”, “Bridgerton” e “Round 6”, que anteriormente impulsionaram as assinaturas e os números de audiência.

“Sabemos que há alguma preocupação dos investidores com o crescimento das nossas horas assistidas”, afirmou a Netflix em carta aos acionistas na terça-feira. “O engajamento — que abrange quantidade, qualidade e variedade do consumo — continua saudável.”

Ainda assim, diante da declaração explícita da Netflix de que precisa de novas fontes de crescimento — e após o fracasso da tentativa de comprar o estúdio cinematográfico da Warner Bros. — investidores e observadores voltaram a olhar para o negócio das salas de cinema.

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“Acho que há espaço para o cinema na Netflix”, disse à CNBC Matthew Condon, analista de ações da Citizens. “Especialmente porque a concorrência pelo tempo e pela atenção das pessoas continua aumentando.”

“Se eles realmente querem construir bases de fãs mais fiéis em torno de algumas de suas propriedades intelectuais, acho que o cinema pode ser um bom caminho”, disse Condon. “Essa é uma área em que a Netflix historicamente não foi tão forte: construir propriedades intelectuais realmente sólidas. E acho que criar comunidades de fãs em torno de lançamentos cinematográficos pode ajudar nisso e também a atrair talentos de primeira linha.”

A Netflix já tem experiência em atrair grandes diretores de Hollywood. Trabalhou com nomes como Rian Johnson, Martin Scorsese, Alfonso Cuarón, Bong Joon Ho, Spike Lee e Guillermo del Toro. Nenhum dos filmes desses cineastas produzidos para a Netflix, porém, teve lançamento amplo ou longa permanência nas salas de cinema.

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Sarandos admitiu no início deste mês que a empresa perdeu talentos por não garantir lançamentos abrangentes nos cinemas.

Entre os casos mais notáveis, os criadores e o principal produtor de “Stranger Things” deixaram a companhia no último ano. Matt e Ross Duffer assinaram contrato exclusivo de quatro anos com a Skydance — nova controladora do mesmo estúdio da Warner Bros. que a Netflix quase comprou —, enquanto Shawn Levy se juntou à Disney para dirigir “Star Wars: Starfighter”.

A Netflix vai aos cinemas

Sarandos disse na terça-feira que a estratégia da empresa consiste em “lançamentos cinematográficos especializados”, nos quais cada filme recebe um plano próprio. Em alguns casos, a Netflix exibe a produção pelo período mínimo exigido para concorrer a prêmios. Em outros, organiza sessões pontuais durante um fim de semana, como aconteceu com o sucesso “Guerreiras do K-Pop”, exibido nos cinemas por apenas dois dias.

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A adaptação de “Nárnia” dirigida por Gerwig está entre os poucos títulos escolhidos para temporadas mais longas e distribuição mais ampla, ao lado da animação “Charlie vs. the Chocolate Factory”.

“Os dois filmes têm propriedades intelectuais de grande alcance global e bases de fãs em todo o mundo, então estamos muito animados para ver como se sairão no próximo ano”, disse Sarandos.

Em outro sinal de aproximação com os cinemas, a Netflix afirmou que divulgará resultados de bilheteria dos filmes com janelas mais longas de exibição. Esses números são publicados normalmente pelos grandes estúdios, independentemente do tipo ou da duração do lançamento, mas a decisão representa um novo grau de transparência para a plataforma.

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O futuro diretor de conteúdo Peter Rice pode ser a peça que faltava para a Netflix desenvolver um novo modelo de distribuição cinematográfica.

O executivo acumula ampla experiência em televisão e cinema. Desde 2023, produziu filmes como “Saturday Night” e “Extermínio: A Evolução”. Atualmente, desenvolve uma adaptação cinematográfica do videogame “Elden Ring”.

Os desafios de uma distribuição mais ampla

Por enquanto, porém, a Netflix não dispõe da infraestrutura necessária para assumir um compromisso pleno com o mercado de cinemas.

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“Entrar no mercado cinematográfico não é tão fácil quanto às vezes as pessoas fazem parecer”, disse à CNBC Steven Cahall, analista de ações do Wells Fargo. “É preciso negociar com as redes de cinema e encontrar espaço para seus filmes.”

Cahall observou que levar ocasionalmente um filme aos cinemas, sobretudo em lançamento limitado, “talvez não seja tão difícil, mas existe toda uma estrutura de distribuição cinematográfica […] É preciso ter uma equipe, um fluxo contínuo de conteúdo destinado aos cinemas e um departamento de marketing voltado a isso.”

É aí que a compra dos ativos de estúdios da Warner Bros. Discovery teria feito diferença. Sem essa aquisição, não está claro como, ou com que rapidez, a Netflix conseguirá ampliar suas próprias operações.

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Além disso, a empresa já demonstrou resistência aos custos de marketing associados à estreia de filmes nos cinemas, que podem chegar a centenas de milhões de dólares por produção. Apesar do elevado orçamento de conteúdo, a Netflix há muito privilegia a quantidade e uma oferta aparentemente infinita aos assinantes, em vez de projetos individuais de orçamento elevado.

Uma mudança para uma estratégia com várias frentes, alimentando simultaneamente o streaming e os cinemas, exigiria que a Netflix se tornasse mais parecida com as empresas cujo modelo de negócios ela própria transformou.

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“Então isso se torna uma questão mais existencial para a Netflix: chegou a hora de se tornar um conglomerado de mídia, em vez de uma empresa exclusivamente de streaming?”, afirmou Cahall, do Wells Fargo. “Queremos nos tornar um conglomerado de mídia?”

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