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Da música ao streaming: por que a cultura latina virou o novo motor dos negócios globais
Publicado 07/02/2026 • 15:30 | Atualizado há 2 meses
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Publicado 07/02/2026 • 15:30 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
A cena musical global vive uma virada histórica e ela fala espanhol e português.
Enquanto Bad Bunny faz história no Grammy 2026 ao se tornar o primeiro artista a ganhar o prêmio de álbum do ano por um disco cantado inteiramente em espanhol e se prepara para comandar sozinho o show do intervalo do Super Bowl deste domingo (8), o Brasil também ocupa o centro dos holofotes com ícones como Caetano Veloso e Maria Bethânia, reverenciados no Grammy como vencedores na categoria Melhor Álbum de Música Global e redescobertos por novas gerações nas plataformas digitais.
Não se trata de um momento isolado, mas de uma transformação estrutural. Dados de tendências da WGSN e análises recentes da revista The Economist apontam para a mesma direção: a América Latina deixou de ser periférica na indústria cultural e passou a moldar a estética, os ritmos e as narrativas do entretenimento mundial.
Segundo a The Economist, as indústrias criativas latino-americanas tornaram-se centrais no ecossistema global entre 2025 e 2026. Do topo das paradas musicais nos Estados Unidos aos investimentos bilionários do streaming em produções mexicanas, a região vem conquistando públicos muito além de suas fronteiras naturais, impulsionada por redes sociais, diásporas latinas e pela curiosidade global por conteúdos em espanhol e português.
O movimento não é novo. Escritores como Gabriel García Márquez e cineastas como Alfonso Cuarón já haviam aberto caminhos no século 20, mas hoje ocorre em escala inédita. Plataformas digitais derrubaram barreiras de distribuição, enquanto milhões de usuários latino-americanos, entre os mais engajados do mundo, amplificam artistas, séries e filmes para audiências globais.
A música é o símbolo mais visível dessa expansão. A federação internacional da indústria fonográfica aponta a América Latina como um dos mercados que mais crescem no planeta, com gêneros como reggaeton, regional mexicano, trap latino e funk carioca ocupando rankings globais. Nomes como Karol G, Peso Pluma, Shakira e J Balvin transformaram-se em marcas planetárias, enquanto artistas anglófonos absorvem ritmos latinos em suas produções.
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Relatórios da WGSN ajudam a explicar por que essa ascensão ganhou tanta força. Pesquisas citadas pela consultoria mostram que 72% dos brasileiros consideram importante defender o país quando ele é criticado, enquanto 84% da Geração Z latina afirma sentir orgulho de sua origem. Esse fortalecimento identitário se combina a mudanças econômicas, como o avanço do nearshoring, e à explosão da economia criativa local, hoje menos dependente de validação externa.
É nesse ponto que entra a leitura da especialista Bianca Leite Dramali, professora da ESPM, consultora em comportamento do consumidor e LinkedIn Top Voice.
“A força do que é local, do que é próprio, rompeu fronteiras. Os consumidores estão cansados das mesmas formas e das mesmas referências culturais. As redes sociais e os streamings abriram uma vitrine multicultural a que poucos tinham acesso antes”, afirma a espcialista em entrevista exclusiva para o Times Brasil – Licenciado Exclusivo da CNBC.
Segundo ela, a América Latina vive um processo profundo de resgate cultural. “Há um movimento de valorização do que é nosso. Essa autoestima recuperada transborda em manifestações culturais que contagiam o mundo.”
Bianca destaca que o orgulho identitário deixou de ser apenas simbólico e virou força concreta de consumo. “Consumo é um construtor de identidade. Ele reforça quem você já é e a quais espaços pertence ou permite ocupar lugares aspiracionais. Ao mesmo tempo, abre a chance de se inspirar em outras culturas e construir uma identidade multifacetada.”
A demanda por narrativas menos padronizadas também pesa. “Está tudo muito pasteurizado: rostos, corpos, histórias. O autêntico chama atenção em meio à disputa de atenção cada vez mais exacerbada.”
Para a especialista, o atual reposicionamento global lembra grandes viradas históricas. “Assim como o Renascimento europeu marcou uma transformação artística e intelectual, hoje vemos um fortalecimento, ou renascimento, latino, abrindo espaço para vozes plurais, histórias enraizadas e estéticas autênticas.”
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A influência não se restringe à música. No cinema, produções latino-americanas acumulam prêmios e projeção internacional, com novos diretores e atores emergindo no circuito global. O Brasil volta a chamar atenção com projetos estrelados por Wagner Moura, enquanto séries e filmes da região figuram entre os títulos mais assistidos das plataformas globais.
Na moda, criadores latino-americanos passam a integrar listas de influência mundial. Na gastronomia, restaurantes do Peru e do México figuram entre os melhores do planeta, consolidando a culinária como ferramenta de soft power. Até o mercado editorial e o universo dos podcasts acompanham a onda.
Segundo a The Economist, museus internacionais ampliaram espaço para artistas visuais da região, e feiras globais transformaram cidades como Miami em vitrines da arte latino-americana contemporânea.
Para Bianca Leite Dramali, o aviso ao mercado é claro: não basta surfar a onda. “As marcas que têm olhos de ver estão construindo narrativas com os protagonistas desse movimento, e não tratando isso como uma trend passageira. Elas podem ser palco, mas o ator principal é a cultura latina.”
Ela alerta que tentativas artificiais costumam ser rejeitadas. “As pessoas estão orgulhosas de quem são e cada vez mais atentas à apropriação cultural. Vão buscar coerência entre discurso e prática.”
A WGSN projeta que, nos próximos anos, a América Latina se consolidará como um dos grandes polos criativos globais, impulsionando estratégias focadas em comunidades locais, narrativas ancestrais, transparência, cocriação e produtos pensados de latinos para latinos.
Em um mundo marcado por instabilidade política e transições tecnológicas, a combinação entre pertencimento, autenticidade e resiliência tornou-se ativo valioso.
Como resume Bianca: “A força da região está no capital simbólico e humano, em narrativas de comunidade, resistência e autenticidade. Quem entender isso agora estará melhor posicionado para o futuro.”
Para investidores, anunciantes e plataformas globais, o recado é inequívoco: a América Latina deixou de ser aposta periférica e passou a integrar o núcleo das estratégias de crescimento da indústria cultural. Em um cenário de saturação em mercados maduros, a região combina escala populacional, juventude demográfica, criatividade abundante e custos de produção relativamente competitivos, uma equação rara no entretenimento global contemporâneo. Quem entrar cedo, construir parcerias genuínas e investir em cadeias locais de criação tende a capturar valor não apenas artístico, mas financeiro e reputacional.
Mais do que exportar hits, a nova fronteira está em desenvolver franquias culturais, universos narrativos, talentos multiplataforma e propriedades intelectuais capazes de circular entre música, audiovisual, moda, games e publicidade. O “renascimento latino”, portanto, não é apenas uma onda estética: é um redesenho das rotas de capital simbólico e econômico da economia criativa mundial. E, desta vez, o centro do mapa não fala só inglês – ele pulsa em espanhol e português.
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