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Ataques a aeroportos colocam a aviação na mira dos conflitos geopolíticos

Publicado 13/10/2026 • 16:15 | Atualizado há 45 minutos

KEY POINTS

  • Ataques a aeroportos no Oriente Médio levam companhias aéreas a suspender voos e reforçar medidas de segurança.
  • Desvios para evitar áreas de conflito aumentam o consumo de combustível, os custos operacionais e a duração das viagens.
  • Oferta de assentos aéreos no Oriente Médio cai 5,7% em outubro na comparação anual, segundo a OAG.

AFP

Os ataques mortais registrados na última semana contra o segundo aeroporto mais movimentado da Arábia Saudita mostram como os conflitos no Oriente Médio estão afetando o transporte aéreo para muito além da região.

A aviação vem se tornando um dos principais alvos desses conflitos. Diante de ameaças e ataques, companhias aéreas têm sido obrigadas a cancelar voos às pressas em diferentes partes do Oriente Médio, às vezes por dias, semanas ou até meses. Em alguns casos, as empresas também podem redirecionar aeronaves que atenderiam destinos como Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, e Doha, no Catar, para outras rotas.

“Estamos diante de um novo cenário. A aviação civil está sendo atacada diretamente, algo que não víamos nas últimas duas décadas”, afirmou Mark Zee, fundador da OpsGroup, uma organização independente de segurança da aviação que reúne pilotos, despachantes operacionais, funcionários de companhias aéreas e outros profissionais do setor.

Os ataques ao aeroporto saudita, reivindicados pelos houthis do Iêmen, grupo apoiado pelo Irã, foram os mais mortais registrados no país em mais de dez anos. No fim de semana, pelo menos 13 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas depois que um projétil atingiu os terminais do Aeroporto Internacional King Khalid, em Riad, capital saudita, segundo autoridades. Outros ataques foram realizados com drones.

“Historicamente, a segurança aeroportuária tem se concentrado em impedir o acesso não autorizado ao aeroporto e às aeronaves, e não em proteger o espaço aéreo”, explicou Jeff Price, professor do Departamento de Ciência da Aviação e Aeroespacial da Universidade Estadual Metropolitana de Denver e consultor de gestão aeroportuária.

Diante das novas ameaças à aviação, autoridades estão sendo obrigadas a repensar como proteger esses grandes espaços públicos, que têm pontos vulneráveis e são difíceis de defender por completo.

“Já existem procedimentos para lidar com armas mais convencionais, como mísseis. É uma solução muito cara, mas ela existe”, afirmou Gulnaz Ukassova, diretora de segurança da informação e análise da International SOS, empresa de gestão de riscos sediada nos Emirados Árabes Unidos. “No caso dos drones, ainda não há uma solução que garanta proteção total. E a tecnologia está evoluindo o tempo todo.”

Os aeroportos mais movimentados no Oriente Médio

O Aeroporto Internacional King Khalid ficou fechado durante boa parte da semana, e algumas companhias aéreas suspenderam suas operações no local por questões de segurança. A preocupação também levou presidentes-executivos de grandes empresas petrolíferas a desistir de participar de uma conferência do setor energético no país.

Os ataques também afetaram os planos da Delta Air Lines. A companhia estava a menos de duas semanas de inaugurar uma rota entre Atlanta e Riad, que, segundo a empresa, seria a primeira ligação comercial direta entre os dois países operada por uma companhia aérea americana.

No fim do domingo, porém, a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) emitiu um alerta às companhias aéreas americanas sobre os riscos de operar voos na Arábia Saudita ou sobrevoar o espaço aéreo do país. Na manhã de segunda-feira, a Delta anunciou que adiaria a estreia da rota para março.

A nova ligação fazia parte dos esforços da liderança saudita para impulsionar o turismo, uma das prioridades do plano Visão 2030. A iniciativa busca diversificar a economia do reino, hoje fortemente dependente do petróleo, e atrair investimentos internacionais.

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Até recentemente, o tráfego aéreo saudita vinha crescendo rapidamente. A oferta de assentos em voos no país neste ano deve superar em mais de 23% a registrada em 2023, embora o ritmo de crescimento tenha diminuído nos últimos meses, segundo dados da Cirium, empresa especializada em informações sobre aviação.

A retomada das viagens para a região também dependerá da disposição dos passageiros e das empresas para assumir riscos. Segundo Ukassova, companhias do setor de energia, que muitas vezes precisam enviar funcionários para acompanhar grandes projetos presencialmente, costumam aceitar um nível de risco mais elevado. Já o setor acadêmico tende a ser bem menos tolerante a esse tipo de situação.

Rotas mais longas e menos voos

Os conflitos levaram ao fechamento de grandes áreas do espaço aéreo do Oriente Médio, sobretudo sobre o Irã. A guerra contra o país, iniciada em fevereiro, provocou uma crise de grandes proporções na aviação e afetou tanto as viagens quanto a segurança do transporte aéreo.

A companhia australiana Qantas, por exemplo, mudou a rota entre Perth, na Austrália, e Londres para evitar o espaço aéreo iraniano. Com o desvio, o trajeto ficou mais longo, e a empresa precisou incluir uma parada em Singapura para reabastecer a aeronave.

O problema não é novo. Há quatro anos, companhias aéreas ocidentais que transportam passageiros e cargas vêm fazendo trajetos mais longos para evitar o espaço aéreo russo. Os desvios começaram depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022.

Voar por rotas mais longas para evitar áreas consideradas perigosas aumenta o consumo de combustível e, consequentemente, os custos das companhias aéreas. A situação ficou ainda mais difícil neste ano, com a alta dos preços dos combustíveis em meio aos próprios conflitos no Oriente Médio.

Embora boa parte do tráfego aéreo de Dubai e Doha tenha se recuperado em relação aos primeiros dias da guerra, iniciada em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, os números ainda estão abaixo dos registrados em 2025, segundo a OAG, empresa especializada em dados da aviação.

Em outubro, a oferta de assentos em voos por todo o Oriente Médio ficou 5,7% abaixo da registrada no mesmo mês do ano anterior, uma redução equivalente a 2,2 milhões de assentos, informou a OAG.

Algumas companhias, por sua vez, preferem simplesmente não operar na região enquanto o cenário continuar instável.

“Não vamos voar para Dubai nem para Doha. Precisamos esperar até que a situação se estabilize”, afirmou o presidente-executivo da Finnair, Turkka Kuusisto, a jornalistas no mês passado, em Nova York.

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