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Disputa por data centers nos EUA antecipa o que pode acontecer no restante do mundo

Publicado 03/10/2026 • 07:30 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • A reação pública contra data centers de alto consumo de energia está se espalhando dos Estados Unidos para Europa e Ásia, com comunidades levantando preocupações sobre uso de eletricidade, água e terra.
  • A oposição tem se traduzido cada vez mais em atrasos de projetos, regras mais rígidas e riscos financeiros para desenvolvedores e investidores do setor.
  • - Apesar da resistência, o avanço da inteligência artificial mostra poucos sinais de desaceleração, ampliando a tensão entre as ambições dos governos para a IA e a oposição local.
Estrutura de data center com sistemas de resfriamento e geradores de emergência

Rsparks3 / Wikimedia Commons (CC0)

A expansão de data centers para atender à demanda de inteligência artificial enfrenta resistência crescente nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.

À medida que o boom da inteligência artificial ganha espaço no debate político, a reação pública contra data centers nos Estados Unidos começa a se espalhar pela Europa e pela Ásia, elevando os riscos para investidores.

Do outro lado do Atlântico, o sentimento negativo cresce na Europa, que tem mais em jogo por causa da maior densidade populacional e dos preços mais altos da eletricidade, disseram especialistas à CNBC.

Tensões semelhantes também estão surgindo na Coreia do Sul, com aumento da oposição a data centers próximos a áreas residenciais e propostas de restrições locais mais rígidas, mesmo enquanto o governo nacional busca acelerar o desenvolvimento do setor.

A oposição pública já afetou cerca de US$ 42 bilhões em investimentos em data centers na Europa, considerando atrasos e cancelamentos, segundo pesquisa da STL Partners. Nos Estados Unidos, o valor é de cerca de US$ 77 bilhões.

A resistência pode ser a “gota d’água”, disse à CNBC Olivier Darmouni, professor associado da HEC Paris especializado em transição energética.

Oposição a data centers cresce na Europa

Mais de 70 projetos de data centers na Europa foram rejeitados ou sofreram restrições entre janeiro e abril — número superior ao registrado em todo o ano de 2025, segundo o European Data Center Monitor. O levantamento apontou que a resistência se espalhou de prefeituras locais para tribunais, reguladores e parlamentos.

A Escócia suspendeu aprovações de planejamento para novos data centers de grande escala depois que ativistas pediram ao governo que evitasse repetir o “exemplo de alerta” da Irlanda, onde a forte demanda por energia levou à adoção de uma moratória.

As restrições também vêm aumentando nos países nórdicos, onde investidores foram atraídos pela disponibilidade de grandes áreas de terra e energia renovável. Após uma disparada nos pedidos de conexão à rede elétrica, a Dinamarca aprovou uma lei emergencial que pode colocar os data centers no fim da fila para novos acessos à rede.

A Espanha também propôs novas regras para data centers neste verão, exigindo que 80% da eletricidade consumida venha de fontes renováveis. No Reino Unido, alguns projetos ficaram paralisados após resistência de moradores.

Grande parte das preocupações gira em torno do uso de água, do consumo de energia, dos preços da eletricidade e da enorme quantidade de espaço exigida por alguns centros.

Também há pouco consenso sobre quantos empregos permanentes o setor efetivamente cria, além de não existir um parâmetro consolidado para estimar o valor econômico gerado por um data center por megawatt.

“Os ganhos da IA são muito difusos”, disse Darmouni à CNBC.

“Definitivamente houve uma compreensão maior sobre a escala da possível expansão da IA e sobre sua distribuição geográfica e, talvez… mais informação sobre o quanto essas instalações são maiores e sobre como elas se parecem um pouco mais com enormes galpões fantasmas que consomem muitos recursos e podem prejudicar comunidades locais de algumas formas.”

A maior densidade populacional da Europa e o fato de muitas operadoras de data centers serem empresas americanas podem fazer com que a reação contrária seja ainda mais forte no continente, acrescentou o professor.

O que está acontecendo na Ásia

A Coreia do Sul, sede de gigantes de tecnologia como Samsung Electronics e SK Hynix, ocupa uma posição central na cadeia de suprimentos de inteligência artificial. Em junho, o governo classificou data centers de IA como um dos três grandes projetos de investimento do país, ao lado de semicondutores e IA física.

Mas o esforço para construir a infraestrutura necessária vem encontrando resistência no nível local.

No distrito de Geumcheon, no sudoeste de Seul, moradores pediram às autoridades que revoguem a licença de construção e interrompam as obras de um data center próximo às residências, segundo o governo local.

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Em julho, autoridades anunciaram planos para exigir o consentimento da maioria dos moradores que vivem em um raio de 200 metros dos locais propostos para novos data centers e implementar um sistema em três etapas para analisar projetos e mediar disputas.

Moradores também se reuniram durante meses em frente à sede do governo local, nas manhãs de dias úteis, para protestar contra o projeto. As manifestações já duravam 172 dias em meados de agosto, segundo a imprensa local.

Em Gwacheon, cidade ao sul de Seul, um vereador propôs uma norma para proteger moradores próximos dos riscos associados a data centers que operam 24 horas por dia, incluindo possíveis incêndios envolvendo baterias de backup.

Investidores devem se preocupar com a reação contrária?

Apesar da resistência, o boom da inteligência artificial mostra poucos sinais de desaceleração.

Mas a capacidade de uma comunidade “de inviabilizar um projeto de data center de US$ 10 bilhões é bastante poderosa”, afirmou Asya Walters, diretora-gerente da Alvarez & Marsal.

Ela disse à CNBC que o ambiente favorável aos negócios nos Estados Unidos historicamente facilitou a superação desse tipo de resistência.

Na Europa e na Ásia, porém, há certa “oscilação” entre os países sobre para onde a demanda está se direcionando, afirmou Walters. Esse “cabo de guerra” entre condições favoráveis aos data centers e regulações mais restritivas pode dificultar os investimentos.

A reação pública também pode elevar os custos para as operadoras, porque, mesmo que abandonem um projeto antes do início das obras, provavelmente já terão desembolsado recursos.

Embora a maior parte dos investimentos de capital ocorra depois da obtenção das licenças, as empresas gastam muito para chegar até esse estágio, “então pode haver alguma perda se elas nunca conseguirem as autorizações”, disse Walters.

“Nós costumávamos ser uma parte completamente desconhecida da economia. Éramos apenas uma caixa-preta. Agora somos uma das camadas fundamentais que impulsionam a economia.”

Dominic Ward, CEO da Verne

“A infraestrutura digital está se tornando mais visível e é compreensível que as comunidades queiram entender o que está sendo construído perto delas, por que isso é necessário e como os impactos locais estão sendo administrados”, afirmou Eulalia Flo, vice-presidente de crescimento e mercados emergentes para EMEA da Equinix, uma das maiores operadoras de data centers da Europa.

“Não vemos isso como uma restrição estrutural ao crescimento, mas o ambiente regulatório está, de fato, ficando mais rígido em alguns mercados”, disse Flo.

Mas a expansão da infraestrutura de IA gerou “uma incompreensão do setor em um sentido bastante amplo”, segundo Dominic Ward, CEO da operadora de data centers Verne.

“Nós costumávamos ser uma parte completamente desconhecida da economia”, disse Ward à CNBC. “Éramos apenas uma caixa-preta. Éramos apenas um prédio onde entravam coisas que ninguém entendia. Agora somos uma das camadas fundamentais que impulsionam a economia.”

Ele acrescentou: “Agora todo mundo sabe onde eles estão, então não há mais como ficar escondido atrás disso.”

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