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Caça F-35A Lightning II da Lockheed Martin em base aérea na Alemanha

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Fundo soberano de US$ 2 trilhões da Noruega pode voltar a investir em grandes empresas de defesa

Publicado 16/10/2026 • 12:27 | Atualizado há 58 minutos

KEY POINTS

  • Mudanças propostas nas regras éticas do fundo soberano da Noruega podem abrir espaço para investimentos em mais empresas ocidentais do setor de defesa.
  • Atualmente, o fundo é impedido de investir em companhias como Lockheed Martin e Boeing por causa do envolvimento delas na produção de armas nucleares.
  • A Noruega fará uma consulta sobre as propostas antes de apresentar um novo marco ético, que deve ser votado pelo Parlamento em meados de 2027.
Caça F-35A Lightning II da Lockheed Martin em base aérea na Alemanha

Tech. Sgt. Anthony Plyler / U.S. Air Force / Domínio público

Caça F-35A Lightning II, da Lockheed Martin, chega à Base Aérea de Spangdahlem, na Alemanha, em maio de 2022. A empresa está entre as companhias atualmente excluídas da carteira do fundo soberano da Noruega pelas regras éticas relacionadas à produção de armas nucleares.

O fundo soberano da Noruega, avaliado em US$ 2,3 trilhões, poderá em breve investir em empresas ocidentais de defesa após anos de restrições impostas pelas regras éticas do Estado.

O fundo vale atualmente cerca de 21,8 trilhões de coroas norueguesas, ou US$ 2,3 trilhões, o que o torna o maior fundo soberano do mundo. Com participações equivalentes a cerca de 1,5% das empresas de capital aberto do planeta, também está entre os maiores investidores do mercado acionário global.

Em novembro de 2025, foi determinada uma revisão das diretrizes éticas que orientam os investimentos do Norges Bank, após controvérsias envolvendo desinvestimentos em algumas empresas israelenses e americanas.

Na quinta-feira, o comitê independente Gjedrem entregou suas conclusões ao Ministério das Finanças da Noruega. Entre as recomendações, há uma mudança significativa na forma como o fundo trata investimentos no setor de defesa, sob o argumento de que “o Norges Bank deve estar preparado para situações em que conflitos se transformem em guerras”.

As regras atuais impedem o fundo de investir em empresas como Airbus, BAE Systems, Boeing, BWX Technologies e Lockheed Martin, devido à participação dessas empresas na produção de armas nucleares. O fundo, porém, mantém posições em algumas empresas de defesa, incluindo uma participação de 2,3% na alemã Rheinmetall e de 1,5% na italiana Leonardo.

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O comitê Gjedrem afirmou na quinta-feira que, embora o critério relacionado a armas nucleares deva ser mantido, “seu alcance deve mudar”.

“O Fundo não deve investir em empresas que produzam armas nucleares, a menos que a companhia esteja sediada em um Estado com armas nucleares reconhecido pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e que seja aliado da Noruega”, afirmou o relatório. “Dessa forma, várias empresas europeias e americanas que produzem componentes para armas nucleares poderão voltar a ser incluídas.”

O comitê também defendeu que os investimentos possam incluir empresas que produzam armamentos necessários à própria defesa da Noruega e propôs retirar a exigência de avaliar se os produtos dos fabricantes de armas estão sendo utilizados por países de acordo com o direito internacional humanitário.

Segundo o relatório, o aumento da instabilidade geopolítica, as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia e as preocupações com segurança energética, somados ao tamanho e à influência do fundo, tornam “oportuna uma reavaliação do marco ético”.

“O tamanho e o alcance do Fundo proporcionam hoje acesso melhor à administração e aos conselhos das empresas do que em 2003”, afirmou o comitê. “Em um cenário político internacional mais desafiador, isso cria oportunidades que a gestão deve aproveitar.”

“A ordem internacional liberal baseada em regras está em declínio”, acrescentou. “Políticas econômicas são cada vez mais utilizadas como instrumentos de política externa. A cooperação entre os países se tornou mais transacional e orientada por negociações nos últimos anos.”

O relatório alertou ainda que, nesse contexto, outros governos podem “interpretar com mais facilidade exclusões motivadas por critérios éticos como uma política do governo norueguês”.

O fundo soberano da Noruega foi criado na década de 1990 para investir as receitas provenientes da indústria de petróleo e gás do país. Embora o Ministério das Finanças e o banco central norueguês participem da governança do fundo, as decisões de investimento são tomadas pelo Norges Bank Investment Management (NBIM). Historicamente, as recomendações de exclusão são apresentadas pelo Conselho de Ética independente.

“Houve reações e ameaças de contramedidas”, afirmou o comitê Gjedrem no relatório divulgado na quinta-feira. “Medidas de retaliação poderiam atingir o Fundo e outros interesses noruegueses.”

Reação dos Estados Unidos

Em setembro do ano passado, o Departamento de Estado dos Estados Unidos disse à CNBC estar “muito preocupado” com a decisão do NBIM de vender suas participações na fabricante americana de máquinas Caterpillar e em cinco bancos israelenses, acusando o fundo de basear a medida em “alegações ilegítimas”.

Ao anunciar os desinvestimentos, o NBIM havia citado um “risco inaceitável” de que as empresas estivessem contribuindo para violações de direitos nos territórios palestinos. Na ocasião, o ministro das Finanças da Noruega, Jens Stoltenberg, ex-secretário-geral da Otan, afirmou que a decisão “não era política”.

O comitê Gjedrem observou na quinta-feira que o risco de novas reações às decisões de investimento do NBIM também vem aumentando à medida que as contas públicas ficam mais pressionadas em vários países.

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“Uma dívida pública elevada pode colocar em risco a estabilidade econômica dos países, mas também pode criar incentivos para que governos passem a considerar os juros e dividendos obtidos por investidores estrangeiros como fonte de receita”, alertou.

Os integrantes do comitê concluíram que, embora as diretrizes que sustentam o marco ético do fundo ainda tenham amplo apoio, elas vêm sendo pressionadas pelo cenário político.

“As condições para o exercício dos direitos de acionista se tornaram mais restritivas, entre outros lugares, nos Estados Unidos”, afirmaram.

O comitê recomendou que o Conselho de Ética continue funcionando, mas deixe de aconselhar o NBIM sobre medidas a serem tomadas diante de questões éticas. Em vez disso, deveria se limitar a fornecer análises sobre eventuais violações das diretrizes por parte das empresas.

Nenhuma nova companhia será imediatamente incluída ou excluída da carteira do fundo como resultado das recomendações. As propostas, porém, abrem caminho para que o fundo possa investir em algumas empresas americanas e europeias de defesa que hoje estão impedidas pelas regras éticas.

A Noruega realizará agora uma consulta pública sobre as recomendações do relatório. O banco central deverá apresentar sua resposta em janeiro, e o Ministério das Finanças proporá um novo marco ético em um livro branco na primavera do Hemisfério Norte. O Parlamento norueguês deverá votar as mudanças em meados de 2027.

Até lá, as atuais diretrizes éticas e regras de exclusão permanecem inalteradas.

“O Conselho de Ética acaba de receber o relatório do comitê Gjedrem”, afirmou Svein Richard Brandtzæg, presidente do Conselho de Ética do fundo, em comunicado enviado por e-mail na manhã de quinta-feira. “Vamos analisar o relatório cuidadosamente. Em seguida, teremos discussões aprofundadas dentro do Conselho e apresentaremos nossa resposta durante a próxima consulta pública.”

Até novembro de 2025, o conselho executivo do Norges Bank decidia se as empresas deveriam ser excluídas da carteira do fundo ou colocadas sob observação. Essas decisões eram tomadas com base nas recomendações do Conselho de Ética, órgão independente nomeado pelo Ministério das Finanças da Noruega.

Enquanto a revisão do comitê Gjedrem estiver em andamento, porém, regras temporárias permanecem em vigor. Pelo modelo provisório, o Norges Bank deixou de poder tomar novas decisões de exclusão ou de inclusão de empresas em listas de observação. O conselho pode apenas revogar decisões anteriores.

Ao mesmo tempo, o Conselho de Ética perdeu temporariamente a capacidade de recomendar novas exclusões ou inclusões em listas de observação, pelo menos até a conclusão da revisão do marco ético.

As regras temporárias permanecerão em vigor até a votação parlamentar prevista para 2027.

‘Outros investidores prestam atenção’

O relatório do comitê Gjedrem provocou críticas de alguns grupos de direitos humanos, que alertaram que decisões tomadas na Noruega podem influenciar tendências de investimento em outros países.

John Peder Egenæs, secretário-geral da Anistia Internacional na Noruega, afirmou em comunicado na quinta-feira que as propostas “correm o risco de enfraquecer a responsabilização e a integridade e de desmontar importantes proteções de direitos humanos”.

“Quando o maior fundo soberano do mundo muda seus padrões, as consequências não param nas fronteiras da Noruega”, afirmou. “Outros investidores prestam atenção, e as empresas também.”

Grete Herlofson, secretária-geral da Cruz Vermelha norueguesa, afirmou em comunicado que investir em fabricantes de armas nucleares seria “completamente incompreensível do ponto de vista ético e humanitário”.

“Abrir espaço para investimentos em armas nucleares representaria uma perigosa mudança de rumo, enfraqueceria o estigma internacional contra essas armas e reforçaria a percepção de que elas são aceitáveis”, afirmou. “Isso aumenta o risco de que possam ser utilizadas.”

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