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ESG EM PAUTA Marina Grossi

O cinturão da indústria verde: uma revolução em curso

Publicado 16/01/2026 • 09:57 | Atualizado há 16 horas

Foto de Marina Grossi

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e pioneira em sustentabilidade empresarial no Brasil. Tem mais de 25 anos de experiência em mudança do clima e finanças sustentáveis. É presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Copa de árvores com logo CO2

Unsplash

As economias emergentes do Sul global lideram uma verdadeira revolução silenciosa ligada à indústria de baixo carbono. Os países localizados naquele que tem sido chamado de "cinturão solar”, formado por nações da África, Ásia, Oceania e América do Sul, estão atraindo investimentos por causa de uma combinação inédita de energia renovável abundante, custos cada vez mais competitivos e políticas públicas favoráveis, além de outras vantagens comparativas. Um estudo lançado às vésperas da COP30, em novembro de 2025, pela Mission Possible Partnership, iniciativa do Industrial Transition Accelerator (ITA), aponta que o cinturão industrial solar já responde por 59% dos projetos industriais limpos planejados no mundo, superando Estados Unidos, União Europeia e até a China. Países como Brasil, Índia, Marrocos, Chile e Egito despontam como tendência.

O levantamento aponta que o cinturão industrial solar concentra um pipeline de US$ 1,6 trilhão em projetos anunciados, muitos deles ainda em busca de financiamento, distribuídos entre 826 projetos em 69 países, em setores como hidrogênio e amônia de baixo carbono, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, na sigla em inglês), aço, cimento, alumínio, fertilizantes e produtos químicos. O Brasil está entre os quatro países do cinturão com maior portfólio de projetos industriais de baixo carbono e maior potencial, em virtude de uma matriz elétrica com 89% de participação de fontes renováveis e de ter vivenciado um processo de industrialização relativamente recente.

Embora o impulso da Revolução Industrial tenha chegado ao Brasil somente a partir da terceira década do século XX, quando o colapso causado pela crise global de 1929 forçou o país a incentivar a manufatura doméstica para substituição de itens importados, um século depois, a indústria se tornou um dos principais motores da economia brasileira, movimentando R$ 2,41 trilhões em 2023, respondendo por 25,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e por mais de 20% dos empregos gerados no país. Outro fator que posiciona bem a indústria brasileira no contexto da economia de baixo carbono é o arcabouço regulatório. Desde o início da década de 1980, o Brasil estabeleceu sua Política Nacional de Meio Ambiente (Lei Nº 6.938/81) e vem aprimorando seus atos regulatórios, que contribuem para uma indústria mais limpa e orientada para a qualidade ambiental. 

Há, contudo, desafios a serem superados. O setor industrial brasileiro é responsável por uma fatia de cerca de 4% das emissões de gases de efeito estufa, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões e Reduções de Gases de Efeito Estufa (SEEG Brasil), e vem reiterando o compromisso de buscar uma redução de 0,5% ao ano da intensidade das emissões de CO2 equivalente em relação ao PIB industrial até 2032. Na COP30, o governo brasileiro colocou em consulta pública até o dia 17 de janeiro a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI), iniciativa coordenada pelo Ministério da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) que busca promover a descarbonização do setor industrial como um motor de desenvolvimento econômico, de competitividade e inovação.  

Atentas às oportunidades da transição para uma economia de baixo carbono, as empresas brasileiras já se movimentam nessa direção. O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) trabalha com os setores público e privado a fim de promover trajetórias de descarbonização em diferentes segmentos da economia. Exemplo são as quatro coalizões empresariais lançadas a partir do pedido da Presidência da COP30 para os setores de transporte, energia elétrica, agricultura e minerais, que reuniram mais de 270 organizações e produziram "mapas do caminho” para a redução dos gases de efeito estufa, alinhados à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira. Nos setores em que o abatimento das emissões é mais difícil - tais como aço, cimento e aviação - o CEBDS tem atuado com o MDIC e o Industrial Transition Accelerator Brasil (ITA) para traduzir soluções estratégicas em casos concretos, com foco em impacto, escalabilidade e replicabilidade, como parte da iniciativa industrial governamental do Comitê Técnico da Indústria de Baixo Carbono (CTIBC).

No contexto do cinturão industrial solar, há ainda espaço para a promoção de parcerias tecnológicas e de cooperação, de modo que as expertises brasileiras possam ser compartilhadas com outros países, posicionando o Brasil como uma liderança emergente da indústria global de baixo carbono. Acordos internacionais e iniciativas de cooperação logística e tecnológica — como as parcerias entre portos brasileiros e europeus voltadas à descarbonização das cadeias de transporte e energia — indicam caminhos possíveis para ampliar competitividade, reduzir emissões e criar novas oportunidades de mercado, mesmo em um cenário ainda marcado por incertezas quanto à demanda futura por produtos industriais verdes.

Iniciativas como essas, e outras mapeadas pelo estudo do ITA, apontam para uma tendência clara: à medida que a indústria de baixo carbono avança, o Sul global — em especial o cinturão industrial solar — tende a ganhar relevância como espaço de inovação, investimento e expansão produtiva. Esse movimento abre a possibilidade de alinhar desenvolvimento econômico e ambição climática, em consonância com os objetivos do Acordo de Paris, desde que sejam criadas as condições necessárias para sua consolidação. Ampliar a cooperação internacional, fortalecer instrumentos de financiamento e reduzir barreiras ao investimento serão fatores decisivos para transformar esse potencial em escala real.

* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 28 anos de atuação e 120 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

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