Embora a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela tenha levantado preocupações em todo o mundo sobre violações do direito internacional, os mercados financeiros globais parecem não ter sido afetados pelos acontecimentos — inclusive as ações na maior economia vizinha da América Latina.
No início deste mês, os EUA realizaram um ataque em grande escala contra a Venezuela, durante o qual o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e sua esposa foram capturados e levados para Nova York, onde desde então se declararam inocentes das acusações de tráfico de drogas.
Mas os investidores próximos ao evento não pareceram se abalar. Em 5 de janeiro, o primeiro dia de negociação após o ataque, o principal índice da maior bolsa de valores da América Latina — o Ibovespa, no Brasil — fechou em alta, avançando quase 1%. Em sintonia com os principais índices de outros países, o índice continuou a subir, acumulando uma valorização de quase 3% desde aquela sessão até o fechamento de sexta-feira.
Da mesma forma, o ETF iShares MSCI Brazil (EWZ) — um fundo americano que acompanha ações brasileiras — subiu cerca de 3% desde o ataque.
“No caso do Brasil, não vejo isso como um grande problema — não vejo um alto risco de intervenção agressiva por lá”, disse Amr Abdel Khalek, estrategista de mercados emergentes da MRB Partners, à CNBC.
“Inflação e juros, é nisso que o mercado está realmente focado”, acrescentou.
Após meses de aperto monetário agressivo pelo Banco Central do Brasil no ano passado, a taxa básica de juros do país — a Selic — atingiu o maior patamar em quase duas décadas, chegando a 15%. Dados recentes de inflação, no entanto, reforçaram as expectativas de um ciclo de flexibilização monetária.
Na semana passada, o IBGE informou que a inflação anual desacelerou mais do que o esperado, alcançando 4,26%. O número ficou 0,57 ponto percentual abaixo da projeção para 2024 e também abaixo da meta de 4,5% definida pelo Conselho Monetário Nacional. Além disso, foi o menor resultado anual desde 2018.
“O desemprego está em níveis historicamente baixos e a inflação está caindo, então, se você é um brasileiro comum, não está completamente satisfeito — claro que gostaria de ganhar mais ou sentir que sua vida realmente está mudando —, mas está melhor do que estava há alguns anos”, disse Silvio Cascione, diretor do Eurasia Group para o Brasil.
Ainda assim, cortes de juros podem complicar uma economia que “ainda está gravemente desequilibrada e com um grande problema fiscal”, acrescentou.
“O que mantém a economia funcionando são os juros altos, porque isso também ajuda a atrair capital estrangeiro e a manter a inflação sob controle, mesmo com todos os estímulos que o governo está injetando na economia”, afirmou Cascione. “Os investidores querem ver ações mais firmes para corrigir esses desequilíbrios, reduzir a expansão fiscal, incentivar mais poupança e investimento e fazer a economia crescer sobre bases diferentes.”
Pablo Echavarria, gestor de portfólio da Thornburg Investment Management, espera que os cortes de juros comecem no primeiro semestre de 2026, embora o ritmo no segundo semestre e adiante possa ser afetado pelo resultado das eleições gerais em outubro.
Segundo ele, a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provavelmente levaria a menos cortes. Mas, se Lula perder, seu adversário poderia trazer “mais prudência fiscal”, permitindo ao Banco Central cortar os juros “de forma um pouco mais agressiva”.
Mais cortes de juros podem ter um impacto “bastante significativo” nos lucros das empresas, afirmou Echavarria, observando que muitos investidores domésticos evitam ações devido aos retornos atrativos da renda fixa.
“À medida que os juros caírem, devemos ver maior participação dos investidores domésticos no mercado de ações”, disse. “Se Lula perder a eleição, o mercado reagirá de forma muito positiva.”
Embora o ataque na Venezuela não tenha pressionado as bolsas nem influenciado diretamente os eleitores brasileiros, ele pode ter implicações regionais, especialmente porque Lula afirmou estar trabalhando com países como México e Colômbia para melhorar a estabilidade na Venezuela após a operação dos EUA, segundo Thea Jamison, diretora-gerente da Change Global.
“Essa narrativa de investimento na Venezuela, capital estrangeiro, abertura e oportunidades para o povo venezuelano será muito significativa nas eleições brasileiras”, disse à CNBC. “A América Latina tem um enorme potencial para investimento estrangeiro direto no futuro, se resolver seus problemas de má gestão política e econômica.”
O Brasil já vem recebendo volumes expressivos de capital estrangeiro. Entre janeiro e novembro do ano passado, o investimento estrangeiro direto somou US$ 84,1 bilhões, o maior valor desde 2014. Ainda assim, Jamison afirma que esse nível está aquém do ideal, citando um “desinvestimento considerável” de empresas espanholas nas últimas duas décadas, especialmente nos setores de petróleo e bancos.
O petróleo segue como uma grande preocupação, já que a Venezuela possui as maiores reservas comprovadas do mundo, e o presidente Donald Trump afirmou que empresas petrolíferas investirão pelo menos US$ 100 bilhões para reconstruir o setor energético do país sob proteção dos EUA. Elizabeth Johnson, da TS Lombard, alertou que um aumento da produção venezuelana pode ameaçar os esforços do Brasil para atrair mais investimentos para sua indústria de petróleo e gás, especialmente na exploração da chamada margem equatorial, na costa norte.
Mesmo assim, ela avalia que o Brasil está bem posicionado para enfrentar qualquer volatilidade.
“Quando olhamos para a América Latina, vemos muitos países ricos em petróleo e gás”, disse, citando Bolívia, Venezuela e Argentina.
“Mas esses países tiveram altos e baixos na forma como seus governos administram seus recursos naturais, enquanto o Brasil tem mostrado abertura constante e regras muito claras para o setor, tornando-se um mercado realmente atraente para as empresas internacionais.”
E mesmo que o setor energético brasileiro seja afetado, o país é diversificado: é um dos maiores exportadores de carne bovina, café, minério de ferro e soja.
“Se o preço do petróleo despencar, a economia do Brasil não vai entrar em colapso”, afirmou Johnson.
“Não é novidade”
Abdel Khalek destacou ainda que as ações brasileiras podem não ter sido abaladas porque o governo Trump já pressionava a América Latina muito antes do ataque.
“O ponto central é que isso não é novidade”, disse, acrescentando que um dos principais riscos para a região e para os mercados emergentes em 2026 é a intervenção dos EUA na política interna para fazer os países “se alinharem mais estreitamente” aos seus interesses.
A tarifa de 50% imposta por Trump sobre produtos brasileiros no ano passado foi um exemplo disso, segundo ele.
Diante do impacto limitado do ataque na Venezuela, Abdel Khalek levantou a questão: isso é complacência do mercado?
“Talvez”, respondeu. “Mas eu diria o contrário: ‘Na verdade, não sabemos ao certo’. É difícil prever o que os Estados Unidos farão a seguir.”
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