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Abiquim descarta desabastecimento do setor químico brasileiro devido a guerra no Oriente Médio
Publicado 16/03/2026 • 16:35 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 16/03/2026 • 16:35 | Atualizado há 2 horas
KEY POINTS
José Paulo Lacerda/CNI
O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel vem ampliando a volatilidade nos mercados globais de energia, fertilizantes e transporte marítimo, gerando incertezas para cadeias produtivas ligadas à indústria química mundial. No Brasil, porém, não há evidências de risco imediato de desabastecimento de produtos químicos, segundo avaliação da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim).
De acordo com a entidade, a oferta internacional de produtos químicos permanece ampla, enquanto a indústria química brasileira opera com cerca de 40% de capacidade produtiva ociosa, o que permite responder rapidamente a eventuais oscilações do mercado internacional.
Segundo o presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, os principais efeitos do conflito ocorrem de forma indireta. “O conflito pressiona custos globais relevantes, especialmente em energia e fertilizantes. No caso dos produtos químicos, porém, o Brasil dispõe de capacidade industrial suficiente para preservar o abastecimento do mercado”, afirmou.
Um dos principais pontos de atenção envolve o mercado global de petróleo. O Irã produz cerca de 3,5 milhões de barris por dia, enquanto o Estreito de Ormuz concentra aproximadamente 20% da oferta global e cerca de 25% do comércio marítimo de petróleo. Eventuais restrições prolongadas ao tráfego na região podem pressionar o preço do barril Brent e elevar o custo da nafta petroquímica, principal insumo da indústria química brasileira.
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Embora o Brasil seja exportador líquido de petróleo, o país continua dependente da importação de derivados como diesel, GLP e nafta. Em cenários de alta do Brent, isso tende a elevar custos industriais, fretes internacionais e pressões inflacionárias.
Outro fator estrutural é a competitividade energética. A indústria química brasileira não dispõe da mesma disponibilidade de gás natural de baixo custo observada em países como Estados Unidos e produtores do Oriente Médio, o que pode ampliar perdas relativas de competitividade em um cenário de choque energético global.
O impacto mais imediato do conflito aparece no mercado de fertilizantes nitrogenados, especialmente ureia e amônia. O Irã é um importante exportador desses produtos, e a instabilidade na região, somada às dificuldades logísticas no Golfo, tem provocado forte volatilidade de preços.
Desde o início das tensões, o preço da ureia no Brasil já registra aumento superior a 33%, refletindo tanto a dependência das importações quanto as interrupções no comércio internacional.
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Atualmente, o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, o que torna o país altamente exposto a choques de preços e problemas logísticos globais. Caso as restrições na navegação e no comércio regional se prolonguem, podem surgir novos aumentos de preços e até riscos pontuais de abastecimento de fertilizantes nitrogenados.
O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, utilizada por exportadores da região como Catar, Kuwait, Bahrein, Iraque e Emirados Árabes Unidos. A ameaça de ataques a embarcações e as restrições de navegação têm provocado mudanças operacionais relevantes no comércio marítimo internacional.
Entre os principais efeitos observados estão o aumento do custo do gás natural — principal insumo da produção de amônia e ureia —, a elevação dos fretes marítimos e prêmios de seguro, além da cobrança de taxas emergenciais de navegação e combustível por armadores que operam na região.
Também há reconfiguração das rotas logísticas, com suspensão temporária de escalas em alguns portos e redirecionamento de cargas para destinos considerados mais seguros, o que reduz a previsibilidade das entregas no comércio internacional.
A Abiquim avalia três cenários possíveis para os próximos meses. No cenário mais provável, de conflito limitado, os efeitos seriam alta temporária do petróleo, volatilidade cambial moderada e impacto inflacionário administrável.
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Um segundo cenário envolve restrições prolongadas no Estreito de Ormuz, com pressão significativa sobre fertilizantes nitrogenados, aumento de custos logísticos e maior volatilidade nos mercados de energia.
Já em um cenário de escalada regional mais ampla, poderia ocorrer choque energético prolongado, redesenho das cadeias globais de suprimento e impactos relevantes sobre a indústria química internacional.
Apesar das incertezas externas, a indústria química brasileira possui margem relevante para ampliar a produção. O setor opera atualmente com cerca de 40% de ociosidade na capacidade instalada, um dos níveis mais elevados da história recente do segmento.
Embora esse indicador reflita desafios estruturais do setor — como o aumento das importações de produtos químicos a preços artificialmente baixos, ele também indica que o parque industrial brasileiro possui condições de ampliar rapidamente a produção, caso seja necessário substituir importações em cenários de instabilidade internacional.
Assim, segundo a entidade, não há risco identificado de desabastecimento de produtos químicos no país, já que o parque petroquímico nacional possui escala, tecnologia e diversidade produtiva suficientes para atender o mercado interno.
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Medidas recentes de política comercial também buscam preservar a competitividade da indústria. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou a inclusão de 37 códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) na Lista de Desequilíbrios Comerciais Conjunturais (DCC), permitindo elevação temporária das tarifas de importação desses produtos.
Segundo a Abiquim, a medida busca corrigir distorções provocadas por práticas de preços predatórios no comércio internacional, restabelecendo condições mínimas de competitividade para a indústria nacional.
Estudos citados pela entidade indicam que o impacto dessas medidas sobre a inflação foi praticamente nulo, representando 0,009 ponto percentual no IPCA e 0,03 ponto percentual no IPA.
Para a Abiquim, o atual cenário reforça a necessidade de políticas estruturantes capazes de reduzir vulnerabilidades e fortalecer a competitividade da indústria química brasileira, especialmente em cadeias estratégicas como energia, petroquímica e fertilizantes.
A entidade afirma que seguirá acompanhando os desdobramentos do conflito no Oriente Médio, ao mesmo tempo em que defende soluções diplomáticas e políticas industriais capazes de ampliar a resiliência produtiva do país diante de cenários de instabilidade geopolítica.
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