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Confisco da Poupança faz 36 anos; relembre o plano que traumatizou toda uma geração e jogou o país na hiperinflação

Publicado 16/03/2026 • 14:12 | Atualizado há 6 meses

KEY POINTS

  • Plano Collor bloqueou 80% das aplicações financeiras em março de 1990 e deixou brasileiros sem acesso a economias por até 18 meses
  • Em março de 1990, o Brasil registrou inflação mensal de 82,39%, a maior variação mensal já registrada pelo IPCA na história do país
  • Plano Collor falhou em conter a inflação e a economia fechou 1990 com alta acumulada de preços de 1.621% no ano
Collor no dia do confisco da poupança

Reprodução

“O objetivo número um do meu governo não é conter a inflação, é eliminá-la”, disse Collor no anúncio das medidas que incluíram o bloqueio da poupança.

Há exatamente 36 anos, na manhã de 16 de março, uma sexta-feira, o Brasil acordou sem acesso ao próprio dinheiro. Um dia após tomar posse (até 1990 a posse ocorria em 15 de março), o então presidente Fernando Collor de Mello anunciava o bloqueio de grande parte das aplicações financeiras do país, em uma medida que entraria para a história como o confisco da poupança e se tornaria um dos episódios mais traumáticos da economia brasileira.

A decisão determinou o congelamento de valores acima de 50 mil cruzados novos (R$ 5.000 nos dias de hoje, se a correção for baseada no dólar) em cadernetas de poupança e outras aplicações. O dinheiro que ultrapassasse esse limite seria retido pelo Banco Central por até 18 meses e devolvido de forma parcelada, corrigido por índices de inflação e acrescido de juros.

Estima-se que cerca de 80% dos recursos depositados em contas bancárias e aplicações financeiras foram bloqueados.

“Quem tinha ontem 50 mil cruzados novos pode ir hoje ao banco e sacar 50 mil cruzeiros. A parte excedente a esses 50 mil fica depositada no Banco Central”, disse a ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello durante o anúncio do plano.

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País à beira do colapso

Para entender o confisco, é preciso voltar ao Brasil que Collor encontrou ao assumir o cargo. Em março de 1990, o IPCA registrou variação mensal de 82,39%, a maior da série histórica do indicador, segundo o IBGE.

O país havia tentado, sem sucesso, uma sequência de planos de estabilização ao longo dos anos anteriores: o Plano Cruzado, o Plano Bresser e o Plano Verão haviam fracassado um após o outro no combate à inflação.

Collor havia vencido a eleição de 1989, a primeira direta para presidente após mais de duas décadas de regime militar, com a promessa de reformar a máquina pública e domar os preços. No segundo turno, derrotou Luiz Inácio Lula da Silva com um discurso de combate a privilégios no funcionalismo público e de reorganização da economia.

O dia em que o dinheiro sumiu

A partir de 19 de março de 1990, quando a medida entrou em vigor, correntistas puderam sacar apenas até 50 mil cruzados novos. O restante ficou retido. Famílias que haviam guardado economias por anos viram os recursos se tornarem temporariamente inacessíveis. Empresas perderam capital de giro e enfrentaram dificuldades para honrar compromissos.

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Os relatos da imprensa da época descrevem cenas de tensão em agências bancárias e o desespero de parte da população diante da impossibilidade de acessar o próprio dinheiro. Aposentados, trabalhadores e pequenos empresários foram afetados de formas distintas, mas igualmente duras.

Além do bloqueio das aplicações, o pacote, oficialmente chamado de Plano Brasil Novo, incluiu congelamento de preços e salários, flexibilização do câmbio, abertura gradual da economia ao comércio internacional e a extinção de uma série de órgãos públicos.

Fracasso e recessão

Os resultados ficaram muito aquém do esperado. A economia mergulhou em forte recessão e a inflação seguiu elevada. Ao fechar 1990, o índice acumulado de preços chegou a 1.621%, deixando claro que o plano havia falhado em seu principal objetivo.

Diante da persistência da inflação, o governo lançou um segundo pacote em janeiro de 1991, o Plano Collor II, com novo congelamento de preços e salários. Entre as mudanças, estava a criação da Taxa Referencial (TR), indicador que permanece em uso até hoje em contratos financeiros. O efeito, mais uma vez, foi passageiro.

Impeachment e o caminho para o Real

A instabilidade econômica se somou à crise política. Em 1992, denúncias de corrupção abriram o processo de impeachment de Collor, que deixou o cargo em setembro daquele ano. Assumiu o vice-presidente Itamar Franco, em um país ainda sem solução para a inflação.

Nos anos seguintes, o governo promoveu mudanças graduais na política econômica. Em 1993, o cruzeiro foi substituído pelo cruzeiro real após o corte de três zeros na moeda, última alteração do padrão monetário antes da grande virada. Em 1994, o Plano Real finalmente estabilizou a inflação e abriu um novo capítulo na história econômica do Brasil.

Mais de três décadas depois, o confisco da poupança permanece na memória coletiva do país como símbolo de um período de incerteza, hiperinflação e soluções de choque que custaram caro a quem tinha pouco a perder.

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