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Vida nas organizações Joaquim Santini

Quando a Mudança Nunca Termina

Publicado 17/03/2026 • 10:19 | Atualizado há 3 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

Imagem gerada por IA

Durante décadas, os líderes empresariais foram treinados para conduzir mudanças. Reestruturar operações, implantar sistemas, lançar novos produtos, entrar em novos mercados. A lógica era relativamente clara: atravessar um período turbulento, implementar a transformação e então alcançar um novo estado de estabilidade.

Esse modelo, porém, está desaparecendo.

As empresas já não vivem ciclos de mudança — elas vivem imersas em mudança contínua. Transformações tecnológicas, pressões regulatórias, inteligência artificial, reorganizações internas e instabilidades geopolíticas se sobrepõem e se alimentam mutuamente.

O resultado é um fenômeno cada vez mais comum nas organizações: líderes experientes começam a perceber que a mudança deixou de ser apenas difícil — e passou a ser permanente.

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Um estudo recente da Gartner, analisado em artigo publicado na Harvard Business Review (*), ajuda a explicar por quê. Segundo a pesquisa, a mudança organizacional está sendo redefinida pela convergência de quatro forças estruturais.

A primeira é a sobreposição de mudanças.
As organizações já não lidam com iniciativas isoladas de transformação. Uma empresa pode estar implementando inteligência artificial, revisando sua estrutura organizacional, lidando com novas exigências regulatórias e redesenhando sua cadeia de suprimentos ao mesmo tempo. O que antes acontecia em sequência agora ocorre simultaneamente.

A segunda força é a continuidade da mudança.
Durante muito tempo, programas de transformação tinham um horizonte relativamente claro — um projeto de dois ou três anos seguido por um período de estabilização. Hoje esse intervalo praticamente desapareceu. Mudanças tecnológicas, regulatórias e competitivas ocorrem de forma permanente.

A terceira força é a interdependência entre mudanças.
Uma nova tecnologia, por exemplo, não afeta apenas um departamento. Ela altera fluxos de trabalho, competências necessárias, modelos de decisão e até a cultura organizacional. Cada mudança gera outras mudanças em cascata.

E a quarta força é a pressão externa.
Cada vez mais, as transformações organizacionais não nascem dentro das empresas, mas fora delas — impulsionadas por inteligência artificial, transformações geopolíticas, novas regulações, mudanças sociais e novas dinâmicas de mercado.

Fonte: Kayla Velnoskey, Ingrid Laman and Carolina Valencia. Gartner

O ambiente empresarial torna-se, assim, estruturalmente mais instável.

Zygmunt Bauman descreveu a modernidade contemporânea como “líquida” — uma realidade na qual estruturas antes sólidas se dissolvem rapidamente. Instituições, carreiras, identidades e modelos organizacionais tornam-se temporários.

Nas empresas, essa liquidez se manifesta na forma de transformações incessantes.

O problema é que muitas organizações continuam tentando administrar esse ambiente com ferramentas concebidas para um mundo muito mais estável.

Edgar Morin, ao desenvolver o pensamento complexo, mostrou que sistemas altamente interdependentes produzem comportamentos imprevisíveis. Em sistemas complexos, pequenas mudanças podem gerar efeitos amplificados em outras partes da estrutura.

Nas organizações contemporâneas, a mudança deixou de ser um evento isolado e passou a funcionar como um ecossistema dinâmico de transformações interligadas.

Esse cenário ajuda a explicar alguns dados preocupantes identificados pela pesquisa da Gartner.

Apenas 32% dos líderes conseguiram implementar sua última iniciativa de mudança dentro do prazo mantendo o engajamento e o desempenho das equipes.

Mais preocupante ainda: 79% dos funcionários não confiam na capacidade de suas organizações de conduzir mudanças com sucesso.

Esse ceticismo cria um dos grandes paradoxos da gestão contemporânea. As empresas precisam mudar cada vez mais rápido — mas as pessoas estão cada vez mais descrentes da eficácia dessas transformações.

Diante desse cenário, algumas organizações começam a abandonar uma premissa central da gestão da mudança tradicional: a ideia de que cada transformação deve ser tratada como um grande evento organizacional.

Em vez disso, estão fazendo algo mais profundo.

Estão transformando a mudança em uma competência cotidiana da organização.

Isso significa abandonar a promessa implícita de que cada transformação levará a um novo estado de estabilidade. Em seu lugar surge uma nova lógica: a organização precisa desenvolver a capacidade de operar permanentemente em mudança.

Nesse novo modelo, o foco não está apenas em implementar projetos de transformação, mas em desenvolver o que pesquisadores chamam de “reflexos de mudança”.

Esses reflexos incluem habilidades como abertura para novas experiências, compreensão do contexto estratégico da empresa, colaboração transversal, uso eficaz da tecnologia e — talvez a mais subestimada de todas — a capacidade de regular emocionalmente a incerteza.

Mudanças organizacionais não são apenas processos técnicos. Elas são experiências humanas profundas. Elas mexem com identidade profissional, status, segurança e pertencimento.

Sem compreender essa dimensão psicológica, qualquer transformação tende a encontrar resistência.

Ao mesmo tempo, organizações mais avançadas começam a preparar suas equipes para múltiplos cenários futuros, em vez de apenas reagir à mudança atual. Isso significa ajudar profissionais a interpretar sinais externos — tecnológicos, econômicos e regulatórios — e antecipar suas implicações.

No fundo, o que está emergindo não é apenas um novo conjunto de ferramentas de gestão.

É uma nova competência organizacional.

Não se trata mais de “gerenciar projetos de mudança”, mas sim de construir organizações capazes de se reinventar continuamente sem se desorganizar.

No fundo, o que está mudando não é apenas a velocidade das transformações organizacionais, mas a própria natureza da estabilidade. Durante décadas, as empresas foram desenhadas para operar em equilíbrio e ocasionalmente atravessar períodos de mudança. Hoje, o equilíbrio tornou-se temporário e a mudança permanente.

Como sugeria Edgar Morin, sistemas complexos não podem mais ser compreendidos como estruturas estáveis que eventualmente se alteram. Eles são processos em movimento contínuo. E talvez essa seja a nova tarefa da liderança.

Não se trata mais de conduzir organizações de um estado A para um estado B.

Trata-se de construir organizações capazes de se mover continuamente sem se desorganizar.

(*) “Why Keeping Up with Change Feels Harder Than Ever” by Kayla VelnoskeyIngrid Laman and Carolina Valencia (January 15, 2026)

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