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CNBCTrump diz à CNBC que EUA estão “muito determinados” a fechar acordo com o Irã

Análise Exclusiva Marcelo Favalli

Resistência do Irã e isolamento internacional fazem Trump suspender a guerra

Publicado 23/03/2026 • 13:20 | Atualizado há 5 horas

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Marcelo Favalli

Marcelo Favalli além de jornalista é Mestre em Relações Internacionais pela PUC e professor nos cursos de pós-graduação de Política Contemporânea, da FAAP e do MBA em Comunicação e Política da USP. Dos 27 anos de profissão, na imprensa, dedicou 18 deles à cobertura estrangeira. Foi correspondente na América Latina e no Estados Unidos.

Foto por JIM WATSON / AFP

O presidente dos EUA, Donald Trump, desembarca do Air Force One ao chegar à Base Aérea de Dover para participar de uma cerimônia solene de transferência de honra em Dover, Delaware, em 18 de março de 2026.

O ultimato que Trump não esperou expirar

Na manhã desta segunda-feira, 23 de março de 2026, o presidente dos Estados Unidos anunciou a suspensão — por cinco dias — dos ataques americanos contra a infraestrutura de energia do Irã. A decisão seguiu o protocolo de comunicação de Donald Trump: a rede social que ele mesmo criou para servir de porta-voz da Casa Branca. A mensagem descreve como “produtivas” negociações durante o fim de semana com o regime dos aiatolás. Curiosamente, o recuo de Washington antecipa o ultimato do próprio Trump. Ele havia dado 48 horas para a reabertura do Estreito de Ormuz. Caso contrário, as usinas de energia iranianas seriam 'obliteradas', começando pela maior. O prazo venceria às 20h44 de segunda-feira, dia 23, horário de Brasília.

Em outras palavras: a Casa Branca ameaçou. O Irã não cedeu. E Trump foi quem recuou primeiro — antes mesmo do relógio zerar.

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A sequência de eventos entre sexta e segunda-feira ilustra, com rara clareza, a crise de estratégia e narrativa que assola o governo americano. Na quinta-feira, dia 19, Trump havia pedido a Israel que evitasse atacar instalações de energia do Irã, por temer uma nova onda de bombardeios, como resposta. No sábado, 22, Trump voltou atrás e retomou as ameaças de destruir as usinas do Irã. Na segunda-feira, 23, anunciou a pausa. Três posições antagônicas em quatro dias — sobre o mesmo assunto.

A mudança de regime que não virá

Na manhã desta segunda-feira, Trump também afirmou que 'espera uma mudança no regime iraniano ainda esta semana'. A declaração não encontra nenhum respaldo na realidade de campo. Quando o aiatolá Ali Khamenei foi morto nos primeiros bombardeios da Operação Fúria Épica, em 28 de fevereiro, muitos em Washington apostavam que o regime desabaria. O que se seguiu foi o oposto: um conselho de liderança elegeu rapidamente um novo líder supremo — Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei. Historiadores são unânimes em afirmar que o novo aiatolá representa a continuidade da linha dura, sem nenhuma disposição para mudanças estruturais.

Trump reagiu à escolha com uma frase que revela o quanto suas expectativas de guerra falharam: chamou a ascensão de Mojtaba de 'um grande erro'. A ironia é que a escolha não foi um erro de ninguém senão do próprio cálculo americano: a história dos últimos quarenta anos mostra que pressão externa tende a fortalecer, não enfraquecer, os regimes que dependem da narrativa de resistência ao imperialismo estrangeiro.

Força total — com reforço, mas sem aliados

Enquanto sinalizava recuo diplomático, o governo americano também anunciou o envio de 2.500 fuzileiros navais adicionais para a região. A contradição é sintomática: de um lado, Trump fala em 'encerrar' operações — usando agora o eufemismo 'excursão' para se referir à guerra. De outro, envia mais tropas, pede mais verba ao Congresso e mantém o ritmo de ataques. Os Democratas, na oposição, descrevem a sequência de decisões da Casa Branca como 'mensagens contraditórias que revelam uma guerra que escapou ao controle de Trump'. O saldo ainda continua pesando contra o mercado global de combustível. O Irã, ao atacar vizinhos do Golfo Pérsico, destruiu um sexto da capacidade de exportação de gás liquefeito do Catar e bombardeou refinarias no Kuwait, instalações energéticas nos Emirados Árabes e o porto principal da Arábia Saudita. A International Energy Agency classificou a crise atual como 'a maior interrupção de oferta na história do mercado global de petróleo'. O Goldman Sachs alertou que, se os navios continuarem relutando em atravessar o Estreito de Ormuz, os preços do petróleo podem se manter elevados até 2027.

A guerra que ninguém quis apoiar

Na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos coordenados contra alvos militares e de liderança no Irã — sem consultar nenhum aliado da OTAN, sem construir coalizão, sem aviso prévio diplomático relevante. A operação, batizada de Fúria Épica, matou o aiatolá Ali Khamenei nas primeiras horas. A resposta iraniana foi imediata: o fechamento do Estreito de Ormuz, corredor por onde transitam 20 milhões de barris de petróleo por dia — cerca de 20% de toda a oferta mundial.

Trump então telefonou para seus aliados históricos. A resposta que recebeu da Alemanha, da França, do Reino Unido e da Itália foi a mesma, em variações diplomáticas distintas: não. A Alemanha foi direta: 'Esta guerra não tem nada a ver com a OTAN'. A França, ainda mais explícita, afirmou que 'jamais participará de operações no Estreito de Ormuz no contexto atual'. O Japão, a Austrália e a Coreia do Sul seguiram o mesmo caminho. Nenhum aliado confirmado. Nenhuma coalizão. O presidente americano ainda tentou atenuar o isolamento. Trump escreveu na rede social dele: "Os EUA foram informados por QUASE TODOS os aliados da OTAN que não querem se envolver. NÓS NUNCA PRECISAMOS DELES!".

Esta foi a primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que os Estados Unidos foram à guerra sem o suporte do bloco ocidental que eles próprios ajudaram a construir. George Bush pai reuniu 34 países para a Guerra do Golfo em 1991. George W. Bush, mesmo sob contestação internacional, trouxe 45 nações para o Iraque em 2003. Trump, em 2026, não conseguiu sequer a adesão formal de um único aliado histórico.

O drone que uniu o que a diplomacia separou

O Irã não respondeu apenas fechando o estreito. Lançou sobre as bases americanas no Golfo Pérsico e sobre a infraestrutura petrolífera regional os mesmos drones que por anos havia fornecido à Rússia para destruir cidades ucranianas: os Shaheds — drones kamikaze baratos, produzidos em larga escala, projetados para sobrecarregar os sistemas de defesa inimigos por pura quantidade.
E aqui começa o capítulo mais constrangedor desta guerra para Washington.

A Ucrânia passou quatro anos sob chuva de Shaheds. Quatro anos aprendendo a derrubá-los, aprimorando interceptadores, treinando operadores, desenvolvendo tecnologia de contramedida que nenhum outro país no mundo possui em profundidade comparável. Quando os mesmos drones começaram a destruir bases americanas no Golfo, a pergunta que surgiu nos bastidores de Washington foi inevitável: quem sabe melhor como parar esses engenhos?

A resposta não agradou ao orgulho americano. Era Kyiv.

"O que as bases americanas precisam agora são interceptadores. É a nossa tecnologia”, declarou o presidente da Ucrânia, Volodymir Zelensky, à imprensa estrangeira, em março deste ano.

Segundo o próprio líder da Ucrânia, 201 especialistas militares de seu país já estão no Golfo Pérsico — nos Emirados Árabes, no Catar, na Arábia Saudita, no Kuwait — ensinando como defender infraestrutura contra os Shaheds. Outros 34 estão prontos para embarcar. Zelensky revelou ter recebido pedidos de consultoria de mais de dez países europeus e do Oriente Médio, além dos Estados Unidos.

O contexto: como chegamos até aqui

Em fevereiro de 2025, o presidente Donald Trump recebeu Volodymyr Zelensky no Salão Oval, e o que se viu não foi uma reunião entre aliados. Foi uma reprimenda pública. Trump, acompanhado pelo vice-presidente JD Vance e pelo secretário de Estado Marco Rubio, disse que o líder ucraniano 'não tinha as cartas' para ditar condições. Zelensky ainda ouviu que deveria ser mais grato a tudo o que os Estados Unidos fizeram pela Ucrânia. A reunião terminou com a declaração de que “não haveria mais um centavo americano para financiar a guerra contra a Rússia”. A comitiva ucraniana saiu de Washington humilhada, sem acordo e sem garantias.

Pouco mais de um ano depois, o mesmo Trump — por meio de suas instituições militares, de seus aliados no Golfo Pérsico e, segundo o próprio Zelensky, diretamente — enviou uma mensagem a Kyiv: precisamos da sua ajuda.

A ironia seria quase cômica, não fosse o contexto trágico que a envolve.

"Você deveria ser grato" — e agora?

A ironia que a história reservou para este momento seria difícil de superar numa obra de ficção política.
O mesmo Trump que disse a Zelensky que ele 'não tinha as cartas' se vê, agora, precisando exatamente do que aquelas cartas continham. O mesmo governo que cortou o financiamento militar à Ucrânia e pressionou Kyiv a aceitar condições de cessar-fogo desfavoráveis com a Rússia é o que agora bate à porta ucraniana em busca de expertise em combate de drones. E o mesmo presidente que exigiu gratidão de Zelensky descobre que a gratidão, neste jogo, corre em direção contrária.

Zelensky, com a contenção calculada de quem sabe que as câmeras estão gravando, não perdeu a oportunidade de devolver o cartão. 'Claro que gostaríamos que alguém nos agradecesse', disse o presidente ucraniano, deixando no ar a lembrança de todas as vezes em que Washington acusou Kyiv de não demonstrar suficiente reconhecimento pela ajuda americana.

Mas o paradoxo vai além do constrangimento retórico. A Ucrânia ofertou sua tecnologia aos EUA em outubro de 2025 — antes de a guerra contra o Irã sequer começar — como gesto de boa vontade para fortalecer a relação com Washington. Um oficial americano familiarizado com o encontro relatou ao Axios que a proposta foi descartada na época com uma frase que revela muito sobre como o governo Trump enxergava Zelensky: 'Achamos que era só ele sendo ele.'

Meses depois, os mesmos Shaheds que a Ucrânia queria ajudar a combater estavam destruindo instalações americanas no Oriente Médio.

A negação que não convence

Diante da pressão política interna que representaria amitir a dependência ucraniana, Trump adotou a estratégia do negacionismo. Em entrevista à Fox News em 13 de março, foi categórico: 'Não precisamos da ajuda deles em defesa de drones. Sabemos mais sobre drones do que qualquer um. Temos os melhores drones do mundo, na verdade.'

O problema é que os fatos contam uma história diferente. O Exército americano já enviou ao Oriente Médio milhares de drones interceptadores do modelo Merops — tecnologia originalmente desenvolvida e testada em campo de batalha pela Ucrânia. Especialistas ucranianos treinaram pessoal em uma base americana na Jordânia. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu pediu reunião para discutir a aquisição de interceptadores ucranianos. E o próprio Zelensky afirmou, com os documentos na mão, que suas instituições responderam a pedidos formais de parceiros americanos.

Zelensky foi direto ao ponto: 'Todas as nossas instituições receberam esses pedidos dos EUA, e nós respondemos a eles.'

Um isolamento com consequências duradouras

O isolamento dos Estados Unidos nesta guerra não é apenas a ausência de aliados num conflito específico. É o sinal mais claro até agora de uma fratura profunda na arquitetura de alianças construída pelo Ocidente ao longo de oito décadas. A OTAN existe para defender seus membros — não para seguir um membro que ataca terceiros por decisão unilateral.

Enquanto Washington gasta recursos militares e capital político, Pequim observa com a paciência de quem sabe que não precisa agir para ganhar. A China — maior compradora de petróleo iraniano e maior beneficiária estratégica do enfraquecimento da liderança americana — amplia silenciosamente sua influência no Oriente Médio. Trump já anunciou que visitará Xi Jinping nas próximas semanas, sinal de que qualquer solução diplomática para a crise passa pela China.

O barril de petróleo, que estava a 70 dólares na véspera da guerra, já ultrapassa os 110 dólares. A gasolina nos EUA chegou a mais de 4 dólares por galão, e o Goldman Sachs elevou as chances de recessão americana em 2026 para 25%. Com eleições de meio de mandato em novembro, Trump enfrenta o mesmo dilema que destruiu a popularidade de presidentes anteriores: o eleitor americano não tolera guerras longas, caras e sem vitórias visíveis. A pausa de cinco dias anunciada hoje de manhã, antes mesmo do fim do seu próprio ultimato, é o termômetro mais preciso desse dilema.

As cartas estavam lá o tempo todo

Há uma cena que resume bem o momento. Em fevereiro de 2025, Trump disse a Zelensky que ele 'não tinha as cartas'. Em março de 2026, o mundo descobriu que as cartas de Zelensky se chamavam Shahed, Merops e quatro anos de guerra urbana contra drones kamikaze.

A Ucrânia não pediu para se tornar a maior potência de drones do século 21. Foi o Irã — ao fornecer seus engenhos à Rússia, que os usou para bombardear Kyiv — que acidentalmente criou o laboratório de contramedidas mais avançado do planeta. E foi Trump — ao atacar o Irã sem aliados e sem plano B — que transformou esse laboratório no ativo diplomático mais valioso do conflito.

Há uma lição clássica da teoria das relações internacionais que este episódio ilustra com precisão brutal: no sistema internacional, poder não é apenas o que você tem. É o que os outros precisam de você.
Zelensky não tem exércitos comparáveis aos da OTAN, não tem o PIB americano, não tem o arsenal nuclear russo. Mas tem algo que, neste exato momento, vale mais do que tudo isso para as bases militares americanas espalhadas pelo Golfo Pérsico: sabe como derrubar um Shahed.

Trump disse que ele não tinha as cartas. A história, como frequentemente faz, simplesmente discordou.

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