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Caso Cimed: empresa pode pagar dividendos com dívida? Entenda

Publicado 07/04/2026 • 08:00 | Atualizado há 3 horas

KEY POINTS

  • Mesmo com geração de caixa negativa no período, a companhia pagou R$ 427 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio aos acionistas.
  • No caso da Cimed, os resultados financeiros indicaram mudanças relevantes em 2025. O lucro líquido da companhia registrou queda de cerca de 30%, ao mesmo tempo em que houve pressão sobre as margens e sobre a geração de caixa.
  • Outro ponto observado no mercado é o impacto das discussões sobre a reforma tributária. Mudanças nas regras de tributação de lucros e dividendos podem alterar a forma como as empresas distribuem resultados aos acionistas.
Caso Cimed: empresa pode pagar dividendos com dívida? Entenda

Foto: Divulgação

Caso Cimed: empresa pode pagar dividendos com dívida? Entenda

A distribuição de dividendos pela farmacêutica Cimed chamou a atenção do mercado após a divulgação dos resultados de 2025.

Mesmo com geração de caixa negativa no período, a companhia pagou R$ 427 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio aos acionistas.

Segundo dados divulgados pela empresa, o fluxo de caixa operacional foi negativo em R$ 55,5 milhões, enquanto a distribuição de proventos ocorreu no mesmo período, de acordo com informações publicadas no Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC.

A combinação entre saída relevante de recursos e pressão no caixa foi um dos fatores observados por analistas ao avaliar a situação financeira da companhia.

A situação levantou uma dúvida comum entre investidores: uma empresa pode pegar empréstimos para pagar dividendos?

Dividendos alavancados (leveraged dividend)

Parte do pagamento de R$ 427 milhões em dividendos foi feito mesmo com fluxo de caixa negativo, caracterizando um dividendo alavancado (leveraged dividend). Na prática, o leveraged dividend ocorre quando a empresa utiliza recursos de terceiros, como empréstimos, financiamentos ou debêntures, para viabilizar o pagamento de proventos.

Esse tipo de decisão pode ter diferentes motivações. Entre elas:

  • manter a atratividade das ações ou da empresa para investidores
  • reorganizar a estrutura de capital
  • antecipar distribuições em cenários de mudança tributária
  • atender expectativas de acionistas

Apesar disso, o ponto central é que a distribuição não está sendo sustentada pela geração de caixa da operação naquele momento.

A Cimed mudou sua prática e utilizou empréstimos para pagar os acionistas, em vez de depender apenas do lucro operacional.

A estratégia permite pagamentos maiores no curto prazo, mas aumenta o endividamento e pressiona o caixa, trazendo riscos à saúde financeira da empresa. O principal risco do leveraged dividend é o aumento da alavancagem, ou seja, do nível de endividamento em relação à capacidade de geração de caixa.

Essa prática também pode ter sido influenciada pela reforma tributária, que motivou algumas empresas a anteciparem a distribuição de lucros antes de mudanças nas regras de tributação de dividendos.

Leia também: Dividendos x JCP: o que são e como cada um afeta seus investimentos

Uma empresa pode pagar dividendos mesmo tendo dívida ou caixa pressionado?

No Brasil, a distribuição de dividendos é regulamentada pela legislação societária (Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976). O pagamento não depende diretamente do nível de endividamento da empresa, mas da existência de lucro contábil registrado no balanço.

A lei estabelece as regras para apuração e destinação do lucro nos artigos 189 a 197, que tratam da formação do lucro líquido e das reservas, enquanto o artigo 202 define a obrigatoriedade da distribuição de dividendos aos acionistas.

Isso significa que os dividendos podem ser distribuídos quando há:

  • Lucro líquido do exercício;
  • Lucros acumulados de períodos anteriores;
  • Reservas de lucros.

Mesmo que a empresa tenha dívidas ou enfrente um momento de menor geração de caixa, a distribuição pode ocorrer se esses valores estiverem contabilmente disponíveis no balanço, conforme previsto na legislação societária.

O caso da Cimed

No caso da Cimed, os resultados financeiros indicaram mudanças relevantes em 2025. O lucro líquido da companhia registrou queda de cerca de 30%, ao mesmo tempo em que houve pressão sobre as margens e sobre a geração de caixa.

Ainda assim, a empresa manteve uma distribuição significativa de proventos aos acionistas. Parte dos recursos utilizados para sustentar a operação veio de empréstimos e financiamentos, aumentando o nível de endividamento no período.

Além disso, o ambiente competitivo mais intenso no setor farmacêutico também contribuiu para a redução das margens da companhia.

Impacto na avaliação de risco

A combinação entre geração de caixa negativa, aumento da dívida e pagamento elevado de dividendos levou a uma revisão da classificação de risco da empresa pela agência Fitch.

Agências de rating analisam a capacidade de uma empresa de cumprir suas obrigações financeiras. Nesse processo, fatores como estrutura de capital, geração de caixa e nível de endividamento costumam ser avaliados.

Possível relação com a reforma tributária

Outro ponto observado no mercado é o impacto das discussões sobre a reforma tributária. Mudanças nas regras de tributação de lucros e dividendos podem alterar a forma como as empresas distribuem resultados aos acionistas.

Diante desse cenário, algumas companhias têm antecipado distribuições de lucros gerados até 2025, antes da eventual implementação de novas regras.

Leia também: Consultor vê sinais de alerta na Cimed e diz que conta não fecha: ‘Onde tem fumaça, tem fogo’

O que o caso mostra

O pagamento de dividendos é permitido quando há lucro contábil registrado no balanço da empresa, independentemente do nível de dívida.

Mesmo assim, distribuições elevadas podem impactar a estrutura financeira da companhia, principalmente em períodos de menor geração de caixa.

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