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Encontro entre Irã e EUA no Paquistão expõe entraves geopolíticos, afirma Trevisan

Publicado 10/04/2026 • 22:50 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • O principal entrave para um acordo é a exigência do Irã por cessar-fogo no Líbano, o que depende de Israel e esbarra em interesses políticos internos de Benjamin Netanyahu
  • O controle do Estreito de Ormuz é um ponto central, pois impacta diretamente a oferta global de petróleo e o equilíbrio econômico internacional
  • Há incerteza sobre os termos concretos das negociações, com possibilidade de retomada de elementos do acordo nuclear de 2015, enquanto múltiplas frentes seguem em aberto

O encontro previsto entre Irã e Estados Unidos neste fim de semana, no Paquistão, ocorre em meio a um cenário geopolítico complexo e levanta questionamentos não apenas sobre os termos de um possível acordo, mas também sobre os bastidores da escolha do país anfitrião. Para o economista e professor de relações internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, a decisão está longe de ser aleatória e reflete a crescente influência da China no tabuleiro global.

Segundo ele, o Paquistão atua como um aliado estratégico de Pequim. “O Paquistão é um braço da China para conter a Índia”, afirma. Nesse contexto, a escolha do país como mediador sinaliza que tanto Washington quanto Teerã reconhecem o peso chinês na condução indireta das negociações. Para Trevisan, a China emerge como uma das principais beneficiárias do cenário atual. “Ela não tem interesse militar direto, mas quer estabilidade para fazer negócios. Essa crise atrapalha o crescimento global, e isso não interessa aos chineses.”

A preocupação com os impactos econômicos da guerra é compartilhada por instituições internacionais. O professor destaca alertas recentes de organismos como o FMI e a OCDE sobre os efeitos do conflito, que incluem inflação mais alta e juros elevados, com possibilidades de redução no crescimento global. Diante disso, a movimentação diplomática também pode ser interpretada como uma tentativa de conter danos econômicos mais amplos.

Apesar da expectativa em torno do encontro, há incerteza sobre os termos concretos das negociações. Um dos principais entraves envolve a exigência do Irã por um cessar-fogo no Líbano — condição que depende diretamente de Israel. “Tem que combinar com Israel”, resume Trevisan, ao destacar a dificuldade de avanço nesse ponto.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, segundo o professor, enfrenta pressões internas que dificultam uma trégua. “A guerra no Líbano atende a interesses eleitorais, especialmente de grupos mais radicais”, afirma. Ao mesmo tempo, o conflito tem gerado elevado custo humanitário, com ataques recentes deixando centenas de civis mortos, o que amplia a pressão internacional por uma solução.

Outro ponto crítico nas negociações é o controle do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo. O Irã mantém influência sobre a região, e qualquer acordo deve passar por esse tema. “Ormuz simboliza o poder que o Irã tem de conter ou aliviar a crise econômica internacional”, explica Trevisan.

Embora haja especulações sobre a possibilidade de o Irã flexibilizar o acesso à rota, o professor avalia que a solução pode estar mais ligada à reconstrução de infraestrutura energética em países vizinhos. Portos estratégicos nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait, por exemplo, operam atualmente com capacidade reduzida, pressionando os preços internacionais.

Além disso, há indícios de que um eventual acordo nuclear possa retomar elementos do pacto firmado em 2015, incluindo mecanismos de controle sobre o programa iraniano. Ainda assim, Trevisan ressalta que há pouca clareza sobre os termos em discussão. “Estamos mal informados sobre o que efetivamente está sendo negociado”, conclui.

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