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Indecisos, abstenção e voto útil pesaram na diferença entre pesquisas eleitorais e resultados das urnas, diz analista

Publicado 06/10/2026 • 14:00 | Atualizado há 54 minutos

KEY POINTS

  • Pesquisas indicaram o crescimento de Flávio Bolsonaro na reta final, mas não captaram integralmente a migração de votos ocorrida nos últimos dias antes da eleição.
  • Bruno Soller avalia que parte dos eleitores de outras candidaturas e dos indecisos migrou para Flávio Bolsonaro, enquanto a abstenção também influenciou a diferença entre pesquisas e urnas.
  • Para o segundo turno, a tendência é de pesquisas mais estáveis, mas Soller defende atualização das metodologias, com maior combinação entre entrevistas presenciais, telefone, internet e aplicativos de mensagem.

A diferença entre as pesquisas eleitorais divulgadas antes do primeiro turno e o resultado das urnas pode ser explicada por mudanças ocorridas nos últimos dias da campanha, pela migração de eleitores de outras candidaturas e pelo destino dos votos de indecisos, segundo Bruno Soller, analista e sócio do Real Time Big Data.

Para ele, a comparação entre levantamentos e resultado eleitoral precisa considerar a finalidade das pesquisas. Soller afirma que esses estudos funcionam como retratos de determinado momento da disputa e são usados principalmente para identificar tendências e deslocamentos do eleitorado.

“Pesquisa de opinião não é feita para acertar o resultado exato da urna. Ela serve para mostrar tendência e movimento. O levantamento reflete aquilo que foi coletado dias antes de sua publicação”, afirmou.

Na avaliação do analista, os levantamentos realizados ao longo da campanha conseguiram identificar o estreitamento da diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro, embora, na maioria deles, o presidente aparecesse numericamente à frente, em um cenário de empate técnico.

Migração de votos na reta final

Segundo Soller, uma das principais mudanças ocorreu entre eleitores que, durante a campanha, consideraram outras candidaturas. Ele cita movimentos em direção a nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury antes de uma nova concentração de votos em Flávio Bolsonaro.

Essa movimentação teria ocorrido principalmente entre eleitores contrários à continuidade do atual governo e que, na reta final, passaram a considerar qual candidatura tinha maior possibilidade de derrotar Lula.

“O voto de desaprovação ao governo estava mais concentrado à direita, mas dividido entre diferentes candidaturas. Na hora da decisão, parte desse eleitorado pode ter avaliado quem tinha mais condições de vencer o presidente e migrado para Flávio Bolsonaro”, disse.

Soller também aponta uma redução do desempenho dos demais candidatos em relação ao que algumas pesquisas indicavam. Segundo ele, esse grupo aparecia com cerca de 14% das intenções de voto em determinados levantamentos e terminou a disputa na faixa de 8% a 9%.

Outro componente foram os indecisos. Os últimos levantamentos ainda registravam aproximadamente 3% a 4% de eleitores sem candidato definido. Como essas pessoas podiam tomar uma decisão apenas nos momentos finais da campanha, a distribuição desses votos não necessariamente apareceria nas pesquisas anteriores à eleição.

Leia também: DECISÃO 2026: abstenção nas eleições em São Paulo chega a 22,5% no 1º turno

Abstenção também entrou no cálculo

A taxa de abstenção, de aproximadamente 21%, também precisa ser considerada na leitura do resultado, segundo o analista. Soller observa uma mudança no comportamento de quem decide comparecer às urnas.

Em eleições anteriores, afirma, havia maior participação de votos brancos e nulos entre os eleitores que compareciam. Atualmente, uma parcela dos descontentes estaria optando diretamente por não votar.

“Quem está indo à urna tende a ir para escolher um candidato. O eleitor que não pretende votar em ninguém parece estar ficando mais propenso a não comparecer, em vez de sair de casa para votar em branco ou nulo”, afirmou.

Soller ressalta, porém, que a apuração presidencial considera apenas os votos válidos. Por isso, alterações na divisão entre abstenção, votos brancos e nulos precisam ser analisadas separadamente do percentual obtido pelos candidatos entre os votos efetivamente válidos.

Segundo turno tende a reduzir volatilidade

Com apenas dois candidatos na disputa, Soller espera que as pesquisas de segundo turno apresentem menor volatilidade. A redução das alternativas disponíveis facilita, segundo ele, a identificação das preferências dos eleitores.

“A tendência é que, com duas opções, as pesquisas consigam chegar mais perto do resultado final. O eleitor tem menos possibilidades de mudança e a volatilidade diminui”, disse.

Ainda assim, ele reforça que o objetivo dos levantamentos não é antecipar com precisão matemática o placar das urnas.

Na avaliação de Soller, as próximas pesquisas deverão observar principalmente três aspectos: a manutenção dos votos obtidos pelos dois candidatos no primeiro turno, a migração dos eleitores que escolheram candidaturas eliminadas e o comportamento de quem não compareceu à primeira votação.

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Segundo seus cálculos, Lula precisaria conquistar cerca de 65% dos eleitores que votaram em outros candidatos para compensar a diferença registrada no primeiro turno. Ele considera esse cenário difícil, mas ressalta que mudanças relevantes durante a campanha podem alterar a disputa.

“O cenário atual é favorável a Flávio Bolsonaro, caso não ocorra nenhuma grande mudança ao longo do segundo turno”, afirmou.

Metodologias enfrentam novas dificuldades

Para Soller, a diferença entre levantamentos e urnas também reforça a necessidade de atualização das metodologias de pesquisa. Ele cita mudanças na forma como os institutos conseguem acessar os eleitores.

Pesquisas telefônicas enfrentam maior resistência devido à frequência de golpes e ao bloqueio de chamadas desconhecidas. Entrevistas presenciais em locais de circulação também encontram dificuldade para obter respostas, enquanto a verticalização das cidades torna mais complexo o acesso a moradores em pesquisas domiciliares.

Diante desse cenário, o analista considera provável uma ampliação dos modelos híbridos, combinando diferentes formas de contato.

“As pessoas estão no telefone, na internet e nas ruas. Talvez seja necessário caminhar para modelos híbridos que consigam alcançar melhor os respondentes”, disse.

Soller citou experiências já adotadas pelo setor, como modelos destinados a estimar a probabilidade de comparecimento às urnas, pesquisas digitais e abordagens por aplicativos de mensagem para recrutar participantes. “Não há dúvida de que a metodologia precisa avançar porque o comportamento das pessoas e as formas de comunicação também mudaram”, afirmou.

Falta de debates dificultou escolha do eleitor

O analista também associa parte da volatilidade observada no primeiro turno à ausência de confrontos diretos entre os principais candidatos. Para Soller, a falta de debates teve impacto maior sobre o eleitor do que sobre os institutos de pesquisa, ao reduzir as oportunidades de comparação entre os presidenciáveis.

“A ausência de debates dificultou a decisão do eleitor. Foi uma campanha marcada por pouco entusiasmo e por dificuldade de escolha”, afirmou.

Segundo ele, parte dos eleitores que procuraram alternativas durante a disputa acabou modificando sua decisão à medida que teve mais informações sobre os candidatos ou passou a avaliar as chances reais de cada nome chegar ao segundo turno.

Soller também questiona o uso da expressão “terceira via” para algumas dessas candidaturas. Em sua avaliação, nomes como Caiado e Renan Santos estavam disputando espaço dentro do próprio campo da direita, e não tentando ocupar uma posição intermediária entre os dois principais polos da eleição.

Pesquisa pode orientar voto estratégico

Questionado sobre a possibilidade de pesquisas influenciarem o eleitor, Soller rejeita a ideia de que os levantamentos determinem diretamente o resultado, mas admite que os números podem ser utilizados para decisões estratégicas.

Um eleitor pode, por exemplo, abandonar seu candidato preferido ao perceber que ele tem pouca possibilidade de chegar ao segundo turno e optar por outro nome com maior competitividade.

“A pesquisa não determina o voto, mas fornece informações para que o eleitor analise o processo. Ela pode ser usada, por exemplo, na decisão por um voto útil”, disse.

Ele também diferencia pesquisas de opinião de mercados preditivos e plataformas de apostas eleitorais. Segundo Soller, esses mecanismos têm finalidades distintas e frequentemente utilizam os próprios levantamentos eleitorais entre os dados considerados nas previsões.

“As pesquisas continuam relevantes porque permitem avaliar cenários e movimentos do eleitorado. Mercados preditivos são outra ferramenta e trabalham, inclusive, com informações produzidas pelas pesquisas”, afirmou.

Para o analista, os próximos levantamentos terão como principal desafio medir a reorganização do eleitorado depois do primeiro turno, especialmente a transferência de votos dos candidatos eliminados e uma eventual mudança no comparecimento às urnas.

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