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Lobista amiga de Lulinha recebeu R$ 570 mil durante tramitação de aval da União a empréstimo de Goiânia
Publicado 27/09/2026 • 17:00 | Atualizado há 42 minutos
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Publicado 27/09/2026 • 17:00 | Atualizado há 42 minutos
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Reprodução/Instagram/@roberta.luchsinger
A empresária e lobista Roberta Luchsinger recebeu ao menos R$ 570 mil entre 21 de agosto e 4 de setembro de 2024, período que coincidiu com a etapa final da concessão de garantia da União a um empréstimo de R$ 710 milhões contratado pela Prefeitura de Goiânia com o Banco do Brasil.
Os pagamentos aparecem em comprovantes enviados pelo então secretário-executivo da Secretaria Municipal de Saúde, Quesede Ayres Henrique. Mensagens de celular também mostram que, enquanto o processo avançava no governo federal, Roberta mantinha contato com o então secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, hoje secretário-executivo do Ministério da Fazenda.
A União concedeu o aval em 30 de agosto de 2024. O ato foi publicado no Diário Oficial da União em 2 de setembro.
O Ministério da Fazenda afirma que o procedimento ocorreu de forma técnica, sem interferência de contatos externos, e que Goiânia atendia aos requisitos fiscais necessários para receber a garantia.
Leia também: Luchsinger recebeu R$ 5,9 milhões enquanto atuava por verbas federais para o Maranhão
De acordo com o Metrópoles, os comprovantes apresentados nas conversas indicam quatro pagamentos relacionados às cobranças feitas por Roberta a Quesede.
Em 21 de agosto, foram realizados dois repasses, de R$ 186 mil e R$ 214 mil, ambos originados da Construservice Empreendimentos e Construções. Em 30 de agosto, outro pagamento, de R$ 50 mil, partiu da empresa JJ2 CI Cadastrais. Já em 4 de setembro, Quesede enviou comprovante de mais R$ 120 mil. No total, os quatro valores chegam a R$ 570 mil.
Parte do dinheiro não foi transferida diretamente para uma conta em nome de Roberta. As mensagens mostram que ela indicava contas de empresas e de terceiros para os depósitos.
Em 21 de agosto, por exemplo, a lobista passou a Quesede os dados bancários de sua empresa, a RL Consultoria, e de uma agência de turismo. Ela orientou que o valor fosse dividido entre os dois destinos. Ao tratar do pagamento à agência, encaminhou uma mensagem dizendo que seria necessário informar que a operação era vinculada a ela, porque o estabelecimento receberia “mil pagamentos de outros passageiros”.
Na sequência, Quesede enviou dois comprovantes que, juntos, totalizavam R$ 400 mil.
Os dois depósitos de 21 de agosto foram feitos pela Construservice, empresa controlada por Eduardo “DP” Barros Costa. A companhia mantinha contratos com a Prefeitura de Goiânia e recebeu R$ 127 milhões dos cofres municipais durante a gestão do então prefeito Rogério Cruz, segundo dados do Portal da Transparência citados no material.
No mês anterior aos repasses, a empresa havia recebido R$ 1,4 milhão da prefeitura.
Eduardo Barros também foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República em investigação relacionada ao desvio de emendas parlamentares do chamado “orçamento secreto”.
Dos dois pagamentos realizados naquele dia, um teve como destino a agência de turismo indicada por Roberta. O outro foi enviado a João Mateus Teles Santana, então com 20 anos. A reportagem original informou não ter conseguido esclarecer a ligação dele com os fatos.
A defesa de Eduardo Barros não apresentou esclarecimentos sobre os pagamentos.
O pedido formal da Prefeitura de Goiânia para que a União garantisse o empréstimo foi apresentado em maio de 2024.
Segundo o Ministério da Fazenda, o Tesouro Nacional solicitou quatro complementações de informações antes de concluir a análise. As mensagens mostram, porém, que Roberta já mantinha contato com Rogério Ceron desde pelo menos outubro de 2023. Parte das conversas teria sido apagada.
Em 4 de julho de 2024, a lobista enviou a Ceron o número do processo administrativo relacionado à garantia e escreveu: “tenho mais um pedido pra você também kkkk”.
Quatro dias depois, voltou ao assunto. “Recurso só pra investimento. Empréstimo que Goiânia está precisando”, escreveu.
Ceron respondeu que a equipe do Tesouro trabalhava nas operações envolvendo prefeituras com atenção aos prazos relacionados ao calendário eleitoral.
Em 11 de julho, Roberta perguntou se ele poderia receber o então prefeito Rogério Cruz. Ceron concordou e informou o e-mail de seu gabinete, acrescentando que o prefeito poderia fazer o pedido de agenda “dizendo que já combinou comigo”.
A Fazenda afirmou que não há registro de que esse encontro tenha ocorrido. A eventual reunião também não aparece na agenda oficial de Ceron. O parecer técnico do Tesouro foi concluído em 30 de julho e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional se manifestou em 7 de agosto.
Em 15 de agosto, Roberta voltou a procurar Ceron e informou que o processo de Goiânia estava “assinado”. “Estão super felizes! Você é o máximo”, escreveu. Apesar da mensagem, ainda faltava o despacho do então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
A autorização foi assinada em 30 de agosto.
Haddad afirmou que ele nunca manteve contato com Roberta nem tratou com ela do empréstimo ou de outros assuntos. Também sustentou que o processo respeitou o prazo regular de análise.
O dinheiro foi concedido pelo Banco do Brasil. A participação da União ocorreu por meio da garantia ao financiamento.
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Siga o Times | CNBCNa manhã de 30 de agosto, horas antes da autorização de Haddad, Roberta informou a Quesede que a operação seria concluída.
“Pode avisar teu prefeito que segunda-feira tá resolvido. Publicado e assinado”, escreveu às 12h37. Quesede respondeu com uma figurinha com a expressão: “Eita glória”.
O despacho foi efetivamente publicado na segunda-feira seguinte, 2 de setembro.
Na mesma conversa, Roberta pediu que Quesede tratasse com o prefeito sobre outra pendência. “Porque você sabe, vai ter que desenrolar lá”, escreveu.
Ainda em 30 de agosto, Quesede enviou à lobista um comprovante de R$ 50 mil destinado à conta de uma servidora do Tribunal de Contas da União. O depósito em questão foi realizado em nome da JJ2 CI Cadastrais.
A servidora afirmou que o imóvel de seu marido era alugado a Roberta por intermédio de uma imobiliária. Segundo as mensagens, ela havia sido indicada pela lobista no dia 22 de agosto como uma das pessoas que deveriam receber dinheiro.
Após o pagamento dos R$ 50 mil, Quesede escreveu: “agora bateu 300”, em referência ao montante que Roberta havia mencionado anteriormente.
Em 4 de setembro, dois dias após a publicação da garantia no Diário Oficial, Quesede viajou de Goiânia a Brasília.
Nas conversas, Roberta voltou a cobrar pagamentos e enviou o endereço da residência onde estava. Disse que se encontrava com uma pessoa identificada apenas como Fábio e pediu que Quesede fosse sozinho.
“Mas venha sozinho porque o Fábio não quer ninguém aqui para não dar falação”, escreveu às 15h44.
Pouco mais de uma hora depois, às 16h58, Quesede enviou um comprovante de R$ 120 mil destinado a um homem cuja conta havia sido indicada pela lobista em 22 de agosto.
Depois do depósito, Roberta afirmou que ainda seria necessário transferir outros R$ 50 mil para uma conta do Banco do Brasil.
Os diálogos indicam a existência de outros repasses além dos R$ 570 mil documentados entre 21 de agosto e 4 de setembro.
Em 23 de setembro, após uma cobrança de Roberta e uma ligação telefônica, Quesede perguntou pelo motorista da lobista, Ulisses Viana Júnior. Roberta avisou ao motorista que Quesede lhe entregaria dinheiro. Depois do encontro, Ulisses afirmou em mensagem que havia recebido “1M”.
O Ministério da Fazenda rejeitou a hipótese de que contatos mantidos por Roberta tenham interferido na concessão da garantia.
“Contatos sociais não têm qualquer relação com esse rito técnico, conduzido de forma independente pela STN e pela PGFN”, declarou a pasta.
Segundo o ministério, Goiânia tinha classificação “A” em capacidade de pagamento e apresentava indicadores fiscais dentro dos limites previstos para a operação.
A pasta acrescentou que a garantia da União seguiu o rito estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal e pelas resoluções do Senado aplicáveis à operação.
O atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, e seu chefe de gabinete, Fábio Terra, segundo o ministério, nunca tiveram tratativas com Roberta.
Rogério Cruz afirmou que não conhece Roberta Luchsinger e nunca manteve contato com ela. O ex-prefeito também sustentou que terceiros podem ter mencionado seu nome sem autorização. A manifestação não esclareceu se houve tentativa ou realização de encontro entre Cruz e Rogério Ceron durante a tramitação do pedido de garantia.
Em junho de 2026, a Prefeitura de Goiânia havia utilizado cerca de 40% dos R$ 710 milhões contratados junto ao Banco do Brasil.
Até aquele momento, R$ 375 milhões haviam sido liberados e R$ 287 milhões já tinham sido empregados em obras e ações nas áreas de infraestrutura, saúde e educação.
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