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Luchsinger recebeu R$ 5,9 milhões enquanto atuava por verbas federais para o Maranhão

Publicado 26/09/2026 • 11:00 | Atualizado há 46 minutos

KEY POINTS

  • Roberta Luchsinger recebeu ao menos R$ 5,9 milhões em um intervalo de cerca de dois meses e meio, segundo comprovantes e mensagens reunidos no material.
  • Conversas mostram a lobista tratando da liberação de recursos federais para o Maranhão, inclusive para a Avenida Litorânea, em São Luís, e para ações na área da Saúde.
  • Parte dos pagamentos foi feita por uma construtora que recebeu contratos do governo maranhense, enquanto as tratativas financeiras eram conduzidas com Pablo Pereira Munhoz, apresentado em agendas oficiais como assessor do governador Carlos Brandão.
Roberta Luchsinger em Paris

Reprodução/Instagram/@roberta.luchsinger

Roberta Luchsinger em viagem a Paris; empresária acumulou ações de cobrança enquanto mantinha uma rotina marcada por viagens e artigos de luxo.

A lobista Roberta Luchsinger recebeu pelo menos R$ 5,9 milhões entre 25 de outubro de 2024 e 10 de janeiro de 2025, período em que atuava na interlocução para a liberação de recursos federais destinados ao Maranhão.

Os pagamentos foram direcionados à RL Consultoria, empresa de Luchsinger, e também ao pai dela, Roberto Pedro Paulo Luchsinger.

As conversas reunidas no material mostram que Luchsinger mantinha contato com integrantes do governo federal e com representantes do governo maranhense enquanto acompanhava pedidos relacionados a obras e repasses na área da Saúde. Ela também informava diretamente o governador Carlos Brandão (MDB) sobre o andamento de algumas dessas demandas.

Leia também: Lulinha, lobista e Marcola são suspeitos de atuar em favor da Unigel em negociação com a Petrobras

Liberação da Avenida Litorânea foi comunicada ao governador

De acordo com apuração do Metrópoles, uma das frentes acompanhadas por Luchsinger foi o prolongamento da Avenida Litorânea, em São Luís, projeto incluído no Novo PAC e estimado em R$ 235 milhões.

Em 5 de junho de 2024, ela comunicou a Brandão que a obra havia sido liberada. “Bom dia, governador! Marcola acaba de avisar que foi liberada a obra para a Av. Litorânea.”

O apelido “Marcola”, citado na mensagem, refere-se a Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na sequência da conversa, Luchsinger afirmou que “Marcola está muito feliz” e acrescentou: “dia 21 o presidente tá aí e vai sobrevoar a avenida com você”. Brandão respondeu: “Opa! Notícia boa”.

No mesmo dia, Luchsinger também informou Gilberto Lins, então presidente da Empresa Maranhense de Administração Portuária (Emap), sobre a autorização. “Bom dia, amigo! Obra da Litorânea foi autorizada!”.

Lins respondeu: “Você é retada”. A lobista atribuiu a decisão a uma intervenção do presidente Lula após resistência da Casa Civil. “Presidente é foda mesmo. Rui negou e ele botou o pau na mesa. Mandou fazer.”

Em outra mensagem, ela acrescentou: “Esse Brandão consegue é coisa tá rsrss”. Lins respondeu: “Graças a você” e chamou Luchsinger de “a embaixadora mais competente e eficiente que o Maranhão já teve”.

Lins deixou a presidência da Emap meses depois, por decisão do Supremo Tribunal Federal. O STF considerou que sua nomeação configurava nepotismo, porque ele é casado com uma sobrinha do governador.

Auditoria apontou suspeitas na obra

A primeira etapa da Avenida Litorânea foi posteriormente analisada pelo Tribunal de Contas da União. Segundo o material, auditoria realizada em fevereiro identificou indícios de superfaturamento na obra.

O apontamento do TCU é independente das conversas sobre a liberação dos recursos e não demonstra, por si só, relação entre os pagamentos feitos a Luchsinger e eventuais irregularidades na execução do projeto.

Pagamentos foram discutidos com assessor ligado a Brandão

Enquanto acompanhava a liberação de recursos para o Maranhão, Luchsinger também tratava de pagamentos com Pablo Pereira Munhoz. Registros de agendas oficiais citados no material apresentam Munhoz como assessor do governador Carlos Brandão.

Os valores chegaram à lobista por meio de sua empresa e da conta de seu pai. Os repasses partiram de uma pessoa física e de duas empresas. Entre elas está a EDP Infraestrutura e Pavimentação Ltda., pertencente ao empresário Eduardo José Barros Costa, conhecido como Eduardo DP.

Em 30 de outubro de 2024, a EDP efetuou cinco pagamentos à RL Consultoria. Juntos, os repasses somaram R$ 2,2 milhões. Munhoz encaminhou os comprovantes a Luchsinger no mesmo dia.

Ela respondeu: “Daí agora a gente alinha para organizar tudo certinho”. Em seguida, acrescentou: “Veja quando você pode, para ajustarmos.”

De 2023 a 2025, segundo os dados apresentados, a EDP recebeu pouco mais de R$ 90 milhões do governo do Maranhão. Outra empresa de Eduardo DP, a Construservice, recebeu mais de R$ 1 bilhão da administração estadual entre 2020 e 2025.

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EEduardo DP foi citado pela Polícia Federal, em relatório de 2025, como parceiro do ex-ministro das Comunicações e deputado Juscelino Filho (PSDB-MA) em uma investigação sobre desvio de recursos federais.

Depósitos também foram direcionados ao pai da lobista

Depois dos repasses empresariais, Munhoz passou a enviar a Luchsinger imagens de comprovantes de depósitos em espécie.

Um deles registrava R$ 650 mil destinados à RL Consultoria. No dia seguinte, outros três comprovantes foram encaminhados, desta vez referentes a depósitos para o pai da lobista: dois de R$ 200 mil e um de R$ 150 mil.

Após os depósitos, Luchsinger enviou um áudio afirmando que um dos valores ainda não havia sido identificado.

“Bom dia, tudo bem? Olha, só pra te avisar que não caiu, tá?”

Munhoz respondeu:

“Nossa, mas foi em espécie.”

Depois, Luchsinger verificou que o dinheiro havia entrado na conta pessoal de seu pai e agradeceu. Outros pagamentos, superiores a R$ 400 mil, também foram feitos pela construtora à empresa da lobista.

Pedidos na Saúde chegaram a R$ 115,3 milhões

As mensagens mostram que Munhoz também procurava Luchsinger para tratar de recursos do Sistema Único de Saúde destinados ao Maranhão. Em 7 de novembro de 2024, ele enviou três documentos referentes a um pedido de R$ 115,3 milhões para procedimentos de média e alta complexidade no estado.

“Boa tarde, minha amiga. Segue a prioridade na Saúde”. No mesmo dia, Luchsinger encaminhou os documentos a Marco Aurélio Santana Ribeiro.

“Ontem ficou faltando esse RSS.”

Depois, acrescentou: “Maranhão rsrs”.

As conversas também mostram que Luchsinger mantinha contato com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde, a quem encaminhava ofícios relativos a pedidos de liberação de recursos.

Em algumas ocasiões, Barbosa respondia com informações sobre providências adotadas pelo ministério. Em setembro de 2024, por exemplo, enviou à lobista uma portaria referente à liberação de verbas para o Tocantins.

Relação com integrantes do governo federal

Além das tratativas sobre recursos públicos, o material relata que Luchsinger presenteou Swedenberger Barbosa com um relógio Cartier avaliado em R$ 66 mil e um quadro de R$ 82,9 mil durante o período em que mantinha interlocução com ele.

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