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Quanto a ansiedade interfere no seu sucesso profissional?

Publicado 13/10/2026 • 14:00 | Atualizado há 56 minutos

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O Brasil é o país mais ansioso do mundo. São Paulo lidera os afastamentos do trabalho por saúde mental. E na avenida onde o desempenho é medido em basis points, existe um custo que ninguém coloca no balanço.

O ativo que nenhum relatório mede

Você ainda não chegou ao escritório, mas já leu o fechamento da Ásia, respondeu a mensagens e ensaiou mentalmente a reunião das dez. O coração está um pouco acelerado. Você chama isso de foco.

Na região que concentra bancos, gestoras e fintechs, a ansiedade recebe apelidos respeitáveis: senso de urgência, sangue nos olhos, alta performance. Durante algum tempo, ela entrega. O problema começa quando a força que impulsiona passa a cobrar juros.

A avenida que nunca desliga

A Faria Lima funciona em um fuso próprio. O pregão abre às dez, mas a cabeça abriu às seis. O dia é medido em cotações, a semana em entregas, o ano em bônus. Resultado não é apenas meta. É identidade.

Há ainda a lógica do sempre disponível: o celular vibra no jantar, a call com Nova York às nove da noite, o sábado começa com “é só uma coisinha rápida”. O corpo aprende a nunca encerrar o dia.

Os números que não entram no pitch

Segundo o último mapeamento global da Organização Mundial da Saúde, o Brasil tem a maior prevalência de transtornos de ansiedade do planeta: 9,3% da população.

Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais, o maior número da década. Os afastamentos por transtornos ansiosos passaram de 81.874 em 2023 para 157.235 em 2025, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho. São Paulo lidera o ranking, com cerca de 149 mil afastamentos.

Os dados não incluem atestados curtos nem quem continua trabalhando enquanto adoece. No mundo, a OMS estima que ansiedade e depressão custem 12 bilhões de dias de trabalho por ano.

A curva que todo gestor deveria conhecer

Em 1908, os psicólogos Robert Yerkes e John Dodson descreveram uma relação conhecida: um pouco de tensão melhora o desempenho, afina o foco e prepara o corpo para agir. A partir de certo ponto, porém, a curva vira. Mais pressão passa a significar menos clareza, mais erros e decisões piores.

O preço invisível de cada decisão

Um experimento da Wharton School mostrou como a ansiedade também pode interferir nos negócios. Os pesquisadores Alison Wood Brooks e Maurice Schweitzer induziram ansiedade em participantes e os colocaram para negociar. Os mais ansiosos esperavam menos, faziam primeiras ofertas mais baixas, aceitavam propostas mais rápido e ganhavam menos.

A ansiedade nem sempre aparece como colapso, mas como pequenos descontos em cada decisão. O medo pode parecer prudência, o perfeccionismo atrasa entregas, o corpo não descansa e a paciência diminui.

O que o consultório revela

Atendendo executivos, analistas e gestores do mercado financeiro, percebo um padrão. Quase ninguém chega dizendo “estou ansioso”. Dizem que não conseguem desligar ou que bateram a meta e sentiram apenas alívio, não satisfação.

A Terapia Cognitivo-Comportamental parte de uma premissa: não são apenas os fatos que nos afetam, mas a interpretação que fazemos deles. Sob pressão, a catastrofização transforma um trimestre ruim em fim de carreira; a leitura mental conclui que o sócio ficou decepcionado por causa de um silêncio; o pensamento tudo ou nada decide que, se não foi excelente, foi fracasso.

O trabalho terapêutico não é substituir esses pensamentos por otimismo forçado, mas submetê-los ao mesmo rigor aplicado a uma tese de investimento: qual é a evidência e qual é o cenário mais provável?

Antes do próximo trimestre

Segundo estudo da OMS com o Banco Mundial, cada dólar investido no tratamento de ansiedade e depressão retorna quatro em saúde e capacidade de trabalho.

Antes de abrir a próxima planilha, vale perguntar: você trabalha movido pelo que quer construir ou pelo medo do que pode perder? Quando bate uma meta, sente satisfação ou apenas alívio? Quem recebe a versão de você que sobra no fim do dia? Se a ansiedade desaparecesse amanhã, você acredita que continuaria sendo bom no que faz?

Seu talento, sua formação e sua capacidade de entrega não dependem da ansiedade para existir. Na Faria Lima, aprende-se cedo que o sucesso se mede em resultado. Talvez seja hora de acrescentar uma métrica: o quanto desse sucesso ainda faz sentido quando você fecha o notebook e volta para casa.

Pat Benk – CRP 165383
Psicóloga integrante do Grupo CULT

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