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ESG EM PAUTA Marina Grossi

IA, energia e adaptação: o pragmatismo da Semana do Clima de NY

Publicado 16/10/2026 • 16:43 | Atualizado há 47 minutos

Foto de Marina Grossi

Marina Grossi

Marina Grossi é economista e pioneira em sustentabilidade empresarial no Brasil. Tem mais de 25 anos de experiência em mudança do clima e finanças sustentáveis. É presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Foto: Iberdrola

A inteligência artificial entrou de vez na agenda climática. Na Semana do Clima de Nova York deste ano, seu avanço acelerado apareceu entre as grandes forças que estão reorganizando a economia, ao lado da geopolítica, da segurança energética e dos impactos cada vez mais frequentes da mudança do clima.

A conexão entre essas agendas ficou evidente. A expansão da IA e dos data centers aumenta a demanda por eletricidade e água ao mesmo tempo em que a própria tecnologia abre novas possibilidades para aumentar a eficiência, gerir redes elétricas e antecipar riscos climáticos. O mesmo avanço que pode ajudar na transição também impõe novas pressões sobre os recursos necessários para realizá-la.

Daí a importância que a regulação ganhou nas discussões. A IA avança em uma velocidade muito maior do que a capacidade de governos e instituições de estabelecer regras para seu desenvolvimento e uso. E, quando uma tecnologia começa a alterar a demanda por energia, decisões de investimento e planejamento econômico em escala global, previsibilidade regulatória e políticas públicas capazes de orientar essa transformação passam a ser essenciais.

Essa transformação ajuda a entender uma percepção mais ampla da semana: a economia muda rapidamente, enquanto regras, financiamento e capacidade de execução levam mais tempo para acompanhar esse movimento. A agenda climática, por isso, está cada vez menos concentrada apenas em definir objetivos e mais em criar as condições para realizá-los.

Na energia, isso aparece de forma clara. O crescimento da demanda por eletricidade se soma às tensões geopolíticas, à busca por segurança energética e à necessidade de reduzir emissões. Eletrificação e biocombustíveis ganharam espaço como caminhos complementares para setores e países que partem de condições diferentes. Para o Brasil, essa combinação abre oportunidades importantes, tanto pela matriz elétrica limpa quanto pela experiência acumulada em biocombustíveis.

O financiamento climático segue a mesma lógica. A discussão já não se limita ao volume de recursos necessário para a transição, mas a como fazer o capital chegar aos projetos. Reduzir riscos, combinar recursos públicos e privados, estruturar bons projetos e oferecer segurança regulatória são hoje parte central do desafio.

A adaptação também ganhou espaço na programação, porque seus efeitos já fazem parte da economia real. Chuvas que paralisam portos e aeroportos, ondas de calor que reduzem a produtividade e eventos extremos que interrompem o fornecimento de

energia ou cadeias logísticas já se traduzem em perdas concretas para empresas, cidades e consumidores. No Brasil, desastres associados a chuvas e secas já provocam perdas estimadas em cerca de R$ 110 bilhões do PIB por ano, segundo relatório do Centro Internacional Celso Furtado (Cicef), com apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS). Preparar-se para esses impactos passou a ser uma questão de gestão de riscos, investimento e competitividade.

É essa convergência que torna a Semana do Clima de Nova York um bom radar das transformações em curso. Realizada paralelamente à Assembleia Geral da ONU, ela aproxima governos, empresas, investidores e organizações internacionais e costuma antecipar temas que depois ganham força nas COPs.

Mas talvez o sinal mais interessante esteja menos nos discursos e mais na forma como essa agenda começa a ser organizada. Se os desafios estão cada vez mais conectados, as respostas também precisam estar. Nenhuma empresa, governo ou setor consegue sozinho superar barreiras de financiamento, tecnologia, regulação ou escala.

Essa discussão esteve muito presente nas agendas que acompanhei em Nova York, tanto como presidente do CEBDS quanto como Enviada Especial do Setor Empresarial para a COP30. E o setor empresarial brasileiro já vem construindo formas relevantes de transformar ambição em execução.

As Coalizões Empresariais para a Descarbonização, lideradas pelo CEBDS, são um exemplo. Em Nova York, apresentamos um guia prático a partir do trabalho desenvolvido no Brasil, com aprendizados que podem ser adaptados a outros setores e países. O interesse de representantes de economias como Índia e África do Sul mostrou o valor de uma experiência que reúne empresas, governo, academia e outras organizações para identificar barreiras e construir caminhos concretos de descarbonização.

Outro exemplo vem de um trabalho iniciado ainda na preparação para a COP30. O CEBDS, por meio do Brasil de Soluções, a C.A.S.E. e a SB COP mapearam mais de 800 soluções sustentáveis brasileiras. Agora, a parceria avança da identificação para a implementação: busca ampliar o alcance de soluções que já funcionam e ajudar bons projetos a superar barreiras de financiamento, regulação e articulação institucional.

O que essas experiências mostram é que já existe muito sobre o que construir. O próximo salto depende menos de encontrar uma solução única e mais de criar condições para que diferentes soluções avancem, se conectem e alcancem escala.

Talvez seja esse o traço mais marcante da agenda que emergiu em Nova York. Clima deixou há muito de ser uma discussão separada da economia, e tecnologia, energia, financiamento e resiliência passam a fazer parte da mesma equação. Para países e

empresas, a capacidade de articular essas agendas será cada vez mais determinante para competir, atrair investimentos e crescer em uma economia em transformação.

O Brasil entra nessa disputa com energia limpa, biodiversidade e soluções já em curso em diferentes setores. O desafio é transformar essa combinação em uma posição mais forte na nova economia.

Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

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