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CNBCPetróleo sobe após novos ataques dos EUA no Irã elevarem temor sobre Ormuz

ESG EM PAUTA Marina Grossi

Choques do petróleo e resiliência à brasileira

Publicado 28/05/2026 • 10:30 | Atualizado há 32 minutos

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Marina Grossi

Marina Grossi é economista e pioneira em sustentabilidade empresarial no Brasil. Tem mais de 25 anos de experiência em mudança do clima e finanças sustentáveis. É presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

KEY POINTS

  • Biocombustíveis brasileiros como alternativa ao choque de preços do petróleo causado pelo conflito entre EUA e Irã
  • Brasil é segundo maior produtor mundial de etanol e referência em combustíveis renováveis para o G20
  • Lei do Combustível do Futuro amplia mandatos de biocombustíveis e inclui SAF, diesel verde e biometano
biocombustível

Divulgação

A guerra entre Estados Unidos e Irã expôs a grande dependência do mundo dos combustíveis fósseis e o quanto a volatilidade do preço do barril afeta a economia global. O conflito, ainda longe de ser encerrado, expôs que nada menos que 20% do petróleo consumido pelos países passa pelo Estreito de Ormuz. O bloqueio da rota reacendeu preocupações sobre o risco de desabastecimento e a vulnerabilidade geopolítica, além de desencadear o quarto maior choque de preços do petróleo, como enfatizou a Agência Internacional de Energia (IEA). E, ainda que indiretamente, colocou o Brasil como um referência global ao evidenciar nossa capacidade de usar recursos naturais como ferramenta de resiliência energética.

O primeiro choque do petróleo, em 1973, foi um divisor de águas para o Brasil. Se hoje temos uma frota majoritariamente formada por veículos com motores flex que rodam com etanol, além da adição de 30% do biocombustível à gasolina, isso se deve ao fato de o Brasil ter respondido à crise de 1973 com estratégia, criatividade e competência para driblar as adversidades daquele momento. Olhar para o passado pode fornecer pistas do caminho estruturante que o mundo deve percorrer rumo a um futuro com menos incertezas e volatilidade.

A crise na década de 1970 impulsionou o desenvolvimento de soluções energéticas complementares, baseadas a princípio em uma cultura em que o país é competitivo, a cana-de-açúcar. O Proálcool tornou o Brasil uma potência em biocombustíveis e forneceu as bases para a criação de uma indústria e um ecossistema de negócios poderosos, que hoje são exemplo para o mundo. Em artigo recente, a revista britânica The Economist elogia essa característica e coloca o Brasil como um dos poucos países que hoje estão preparados para enfrentar o atual choque do petróleo, com “a indústria de biocombustíveis mais sofisticada no mundo". A publicação destaca o Brasil como o segundo maior produtor mundial de etanol e a relevância dos blends de combustíveis, com as misturas de biodiesel no diesel e de etanol na gasolina.

Nesse campo, seguimos avançando. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, ampliou os limites para a adição obrigatória de biocombustíveis à gasolina e ao diesel no Brasil, além de criar novos programas, como os de SAF (combustível sustentável de aviação), diesel verde e biometano.

Os biocombustíveis também figuram como estratégia essencial do Plano Nacional de Transição Energética (Plante), que traz diretrizes de longo prazo para a descarbonização da matriz energética e expansão dos combustíveis renováveis. Prevê ações ligadas ao aumento da produção de etanol, biodiesel, SAF e hidrogênio de baixo carbono, reforçando liderança do Brasil no tema, em meio à crescente instabilidade do mercado internacional de petróleo. O plano está em consulta pública aberta até 12 de junho e permite contribuições da sociedade, especialistas e setor produtivo.

Mas a crise que ronda o consumo e a produção de energia fóssil globalmente não está restrita aos choques de oferta. Ela é agravada pela emergência climática, que já tornou o mundo 1,5ºC mais quente e pressiona os países a acelerar a transição energética, especialmente a saída da dependência dos combustíveis fósseis. O tema ganhou destaque na COP30 e, diante da dificuldade de consenso no âmbito da ONU, o embaixador André Corrêa do Lago assumiu a liderança do processo de construção de um mapa do caminho para o afastamento gradual dos combustíveis fósseis. Em paralelo, Colômbia e Holanda articularam um movimento que já conta com mais de 80 países, abrindo espaço para uma abordagem capaz de conciliar segurança e soberania energética, ambição climática e responsabilidade socioambiental.

Esse caminho não será simples nem linear, posto que as maiores economias do mundo são dependentes da energia de origem fóssil. Entre os países do G20, que respondem por mais de 80% do consumo de energia, a dependência dos fósseis é da ordem de 70% de sua energia primária. A exceção é justamente o Brasil, com 50% de participação no consumo de energia primária fóssil. O know-how com biocombustíveis e o alto índice de renovabilidade da nossa matriz elétrica - acima de 80% de fontes limpas, como solar, eólica e hidrelétricas respondendo pela maior parte da geração - nos tornam um exemplo para o mundo.

O Brasil buscou diversificar suas fontes a partir de um olhar para o que temos em casa e com fomento a políticas públicas que tornaram essas energias competitivas. E podemos ambicionar ainda mais, a partir das oportunidades que a transição energética traz. Mais do que a substituição de combustíveis fósseis, o Brasil tem condições de oferecer soluções em química renovável e produtos como o e-metanol e a amônia verde, todos produzidos a partir da cadeia do hidrogênio de baixo carbono. Nessa perspectiva, a transição energética deixa de ser encarada como um ônus, e passa a ser vista como uma oportunidade única na história para acelerar o processo de neoindustrialização do Brasil e tornar nossa economia mais relevante no cenário global.

Transição não é ruptura - é fato que o mundo vai continuar demandando energia fóssil em grandes quantidades por décadas ainda, a despeito dos efeitos prejudiciais para o clima. Mas os choques de oferta que estamos vivenciando e seus impactos na economia real mostram que a transição energética é indissociável da segurança energética, e a resiliência dos países em um cenário de médio e longo prazo passa justamente por transformar essa percepção em estratégia. Diversificar fontes, aumentar a autonomia a partir dos próprios recursos e desenvolver mecanismos de soberania energética são caminhos para reduzir a dependência da energia fóssil e navegar por mares menos turbulentos.

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* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.

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