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Giannetti da Fonseca: Vitória de Flávio pode aproximar Brasil dos EUA, mas relação com China exige cautela

Publicado 07/10/2026 • 21:04 | Atualizado há 8 minutos

KEY POINTS

  • Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro pode facilitar as negociações comerciais com os Estados Unidos, avaliou Roberto Giannetti da Fonseca.
  • Ex-secretário de Comércio Exterior alerta que um alinhamento excessivo com Washington pode prejudicar a relação com a China, principal destino de exportações brasileiras.
  • Terras raras devem atrair investimentos estrangeiros, mas Brasil precisa preservar mercados e avançar no processamento dos minerais dentro do país.

Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno pode reduzir as tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, mas exigirá cautela para que uma aproximação com Donald Trump não comprometa a relação com a China, avaliou Roberto Giannetti da Fonseca, economista, empresário e ex-secretário de Comércio Exterior, em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC nesta quarta-feira (7).

Para Giannetti, a afinidade política entre Flávio e o governo americano poderia abrir espaço para uma solução negociada das divergências comerciais, embora questões como Pix e etanol continuem exigindo negociação. Ao mesmo tempo, ele considera que o próximo governo terá de preservar uma posição pragmática diante da disputa entre Washington e Pequim.

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“É provável que a relação com os Estados Unidos fique mais amenizada. Pelo menos é isso que se propagou ao longo de todo esse tempo de campanha, que ele teria todo o apoio do governo Trump”, afirmou.

China exige pragmatismo

O principal risco, segundo Giannetti, seria uma eventual retomada de uma postura de confronto com Pequim. Ele lembrou as tensões ocorridas durante o governo de Jair Bolsonaro e afirmou que a China adquiriu peso comercial que impede o Brasil de tratar a relação apenas pelo viés ideológico.

“Eu vejo com preocupação, porque já houve no passado, você lembra, no governo Bolsonaro, o chanceler Ernesto Araújo, e criou-se do nada uma relação de hostilidade, de conflito com a China. Isso pode prejudicar a nossa relação com o principal parceiro comercial”, disse.

O economista ressaltou principalmente a dependência de setores exportadores brasileiros do mercado chinês. “A China hoje representa o dobro ou quase o triplo das nossas exportações para os Estados Unidos, especialmente para agronegócio, proteína animal, grãos, açúcar, celulose e tantos outros. Então, eu acho que tem que ter pragmatismo.”

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Na avaliação de Giannetti, a composição de um eventual governo Flávio Bolsonaro seria determinante para a condução dessa estratégia. Ele defendeu que o Ministério das Relações Exteriores seja comandado por alguém “equilibrado, moderado, consensual”, capaz de preservar a neutralidade entre as duas potências.

Terras raras colocam Brasil no centro da disputa

A competição entre Estados Unidos e China também tende a aumentar o interesse pelas reservas brasileiras de terras raras. Giannetti considera positiva a entrada de capital estrangeiro na mineração, mas rejeita qualquer compromisso que destine esses recursos exclusivamente aos Estados Unidos.

“O problema é, primeiro, não ter um destino exclusivo das terras raras para os Estados Unidos, como foi proposto pelo USTR nas negociações. Quer dizer, só eles poderiam comprar terra rara do Brasil. Isso não dá para fazer”, declarou.

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Para o ex-secretário, o país também deve evitar limitar sua participação nessa cadeia à simples extração e exportação dos minerais. O objetivo deveria ser atrair investimentos para processamento e agregação de valor dentro do território brasileiro, ampliando emprego, renda e conteúdo tecnológico.

“Nós não vamos deixar exportação do produto in natura, nós vamos querer processá-lo no Brasil. Isso vai obrigar investimentos brasileiros e estrangeiros aqui no país, gerando emprego, gerando renda e principalmente valor agregado às exportações”, afirmou.

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Giannetti estimou que o processamento pode multiplicar significativamente o valor econômico desses minerais. “A grosso modo, R$ 1.000 de terras raras podem se valorizar para R$ 10 mil em produtos acabados, metais e ligas produzidas a partir das terras raras. Estamos falando de muito dinheiro.”

Política comercial pode mudar de direção

Questionado sobre qual seria a política comercial de um eventual governo Flávio Bolsonaro, Giannetti afirmou conhecer alguns nomes cotados para integrar uma possível administração e identificou entre eles uma orientação econômica liberal.

“O que a gente pode esperar da escola econômica liberal? Uma redução voluntária de tarifas, uma maior abertura para investimento estrangeiro no Brasil”, afirmou. Entre as possibilidades mencionadas estão incentivos para novas tecnologias e maior abertura a investimentos em áreas como data centers.

Na avaliação do economista, entretanto, haveria uma diferença importante em relação à atual administração. O governo Lula, segundo ele, privilegia o multilateralismo e as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), enquanto um eventual governo de Flávio poderia adotar uma política mais próxima do unilateralismo americano.

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“No caso do Flávio Bolsonaro, vai haver um pouco o mesmo que acontece com os Estados Unidos: posições mais unilaterais, um tratamento fora das regras da OMC e regras que valem para os amigos e desfavorecem aqueles que são considerados inimigos ou que têm outra ideologia”, avaliou.

Giannetti também apontou o risco de uma política externa mais concentrada em Washington reduzir a atenção dedicada a outros mercados. “Talvez também [haja] um abandono de posições comerciais que eu acho relevantes em relação à América Latina e à África”, disse.

Para ele, o desafio de quem assumir a Presidência em 2027 será equilibrar interesses em um ambiente de crescente disputa geopolítica. No caso de uma vitória de Flávio, Giannetti acredita que os Estados Unidos tenderiam a ocupar posição mais central na política comercial brasileira, enquanto a preservação dos vínculos com a China dependeria da capacidade do novo governo de evitar um alinhamento automático com Washington.

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