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Médicos acionistas da Oncoclínicas cobram auditoria e questionam gestão em meio à crise financeira

Publicado 13/10/2026 • 08:50 | Atualizado há 40 minutos

KEY POINTS

  • Médicos acionistas da Oncoclínicas cobram auditoria e esclarecimentos sobre despesas, contratos e decisões da administração.
  • Crise financeira e disputas entre investidores aumentam a pressão sobre a companhia, que passou por sucessivos aportes de capital e mudanças societárias.
  • Oncoclínicas afirma que está revisando custos, contratos e processos internos para reorganizar suas finanças e melhorar a gestão.
Oncoclínicas

Foto: Oncoclínicas

Por que minoritários da Oncoclínicas pedem o afastamento de gerência da CVM?

Um grupo de médicos acionistas da Oncoclínicas, uma das maiores redes de tratamento oncológico da América Latina, passou a questionar formalmente a administração da companhia diante do agravamento de sua situação financeira. Os profissionais querem acesso a documentos e esclarecimentos sobre a aplicação de recursos, despesas administrativas e contratos firmados pela empresa.

A iniciativa ocorre após uma sequência de dificuldades financeiras e mudanças na estrutura societária da rede, que chegou a registrar faturamento próximo de R$ 7 bilhões em 2024. Desde então, a Oncoclínicas enfrenta problemas de endividamento, necessidade de novos aportes de capital e divergências entre investidores sobre os rumos do negócio.

A cobrança foi formalizada por meio de uma notificação extrajudicial encaminhada à atual diretoria e aos conselhos de administração e fiscal. O documento, assinado por um escritório de advocacia, solicita a apresentação de informações que permitam avaliar a condução financeira da companhia.

Os médicos responsáveis pela iniciativa optaram por não divulgar suas identidades, alegando preocupação com possíveis consequências profissionais. Segundo o grupo, as participações acionárias reunidas são suficientes para solicitar acesso aos livros contábeis da empresa, conforme os requisitos previstos na legislação societária.

Leia também: Fundo com 4,93% da Oncoclínicas solicita mudanças no Conselho de Administração

Gastos com viagens e contratos estão entre os questionamentos

De acordo com uma reportagem do UOL, entre os pontos levantados pelos acionistas estão despesas com viagens internacionais realizadas por executivos entre 2023 e 2025, período em que a companhia enfrentava dificuldades financeiras.

Os médicos solicitam informações sobre passagens, hospedagens e outros custos relacionados aos deslocamentos. A apuração também envolve a finalidade das viagens e os critérios utilizados para autorizar os gastos.

O fundador da Oncoclínicas, Bruno Ferrari, afirmou que os deslocamentos foram aprovados pelo conselho de administração e estavam relacionados a compromissos profissionais, incluindo reuniões com investidores e parceiros internacionais.

Outro ponto questionado é a transferência da sede administrativa da empresa para um imóvel no bairro dos Jardins, em São Paulo. Os acionistas buscam compreender os custos da mudança e sua justificativa econômica diante da necessidade de preservar recursos.

A análise pretendida pelo grupo também alcança contratos de construção e locação de unidades, especialmente aqueles firmados no modelo conhecido como built to suit, no qual os imóveis são desenvolvidos ou adaptados para atender às necessidades de uma empresa.

Entre os negócios mencionados estão acordos com a construtora e gestora imobiliária Kallas, que envolveram aproximadamente R$ 210 milhões em 2025, além de outros R$ 75 milhões pagos no ano seguinte, segundo as informações apresentadas na reportagem que deu origem à apuração.

Os médicos querem verificar as condições desses contratos, seus custos e os compromissos financeiros assumidos pela Oncoclínicas.

Acionistas querem explicações sobre uso de recursos

A solicitação de auditoria também pretende esclarecer como foram utilizados os recursos obtidos pela companhia ao longo dos últimos anos, incluindo valores captados no mercado e aportes realizados por investidores.

A preocupação dos acionistas está relacionada à deterioração das condições financeiras da rede, mesmo após sucessivas operações destinadas a fortalecer seu caixa.

Além da análise contábil, o grupo questiona se a administração adotou medidas suficientes para enfrentar os problemas operacionais e financeiros da companhia.

As críticas incluem a avaliação de que decisões estratégicas teriam sido tomadas sem participação adequada de profissionais que atuam diretamente nas unidades de atendimento.

O movimento ocorre em um momento de disputa entre diferentes grupos de acionistas, que divergem sobre a reestruturação societária e o futuro da companhia.

Disputa envolve proposta de aquisição de participação acionária

Parte das tensões entre investidores está relacionada à atuação da Centaurus Capital, gestora americana que passou a investir na Oncoclínicas por meio de fundos ligados ao Goldman Sachs.

Após uma reorganização desses fundos, a Centaurus ampliou sua influência na estrutura acionária e passou a discutir a possibilidade de realizar uma oferta pública de aquisição de ações, conhecida como OPA.

Em novembro de 2024, integrantes do grupo de investidores envolvidos na operação detinham aproximadamente 36,79% da companhia, participação que posteriormente passou por alterações.

O debate jurídico envolve a interpretação de dispositivos do estatuto social da Oncoclínicas relacionados à obrigação de realizar uma oferta de compra de ações quando determinados limites de participação são atingidos.

A área técnica da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) chegou a apresentar entendimento favorável à Centaurus, mas o colegiado da autarquia decidiu de forma contrária. O caso passou a ser discutido em procedimento de arbitragem.

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Dependendo do resultado, a gestora poderá ter de desembolsar entre R$ 6 bilhões e R$ 11 bilhões para adquirir participações de acionistas minoritários, conforme as estimativas mencionadas na reportagem original.

A controvérsia ocorre em uma empresa com capital pulverizado e sem um acionista controlador definido, o que exige articulação entre diferentes investidores para a tomada de decisões estratégicas.

Mudanças societárias alteraram a estrutura da Oncoclínicas

Fundada em 2010, em Belo Horizonte, por Bruno Ferrari, Marcelo Guimarães e Enne Bronzatti, a Oncoclínicas expandiu suas atividades por meio da abertura de unidades e da aquisição de empresas do setor de saúde.

O Goldman Sachs ingressou no negócio em 2015, após a saída de um investidor anterior. Com o avanço da participação do banco americano, a companhia ampliou sua presença no mercado brasileiro de oncologia.

Ao longo desse processo, surgiram divergências entre os fundadores sobre a condução dos negócios e a participação dos médicos nas decisões administrativas.

Guimarães e Bronzatti deixaram a Oncoclínicas e posteriormente passaram a investir em outro grupo do setor, o Orizonti, que atua na área hospitalar e oncológica.

A empresa também adotou diferentes modelos de relacionamento com seus profissionais. Parte dos médicos permaneceu como acionista das clínicas, enquanto outros venderam integralmente suas participações ou passaram a receber remuneração vinculada aos resultados operacionais.

Em 2021, a Oncoclínicas abriu seu capital na Bolsa de Valores e captou R$ 3,8 bilhões. Metade do montante foi destinada aos acionistas vendedores e a outra parcela permaneceu no caixa da companhia, com o objetivo de financiar sua expansão.

Aquisições e investimentos pressionaram as finanças

A estratégia de crescimento da rede incluiu a compra de clínicas, investimentos em hospitais e a diversificação de suas atividades.

Parte dessas operações, contudo, não apresentou os resultados esperados, segundo informações relatadas por Bruno Ferrari. Entre os investimentos mencionados estão negócios na área hospitalar e uma parceria com a empresa Oriente Médio.

Em março de 2024, a companhia recebeu R$ 1,5 bilhão do banco Master, em uma operação de aumento de capital. Desse total, R$ 1 bilhão correspondeu ao investimento direto da instituição financeira, enquanto o restante foi destinado ao financiamento da ampliação da participação de Ferrari na empresa.

No ano seguinte, outro aumento de capital movimentou R$ 1,4 bilhão, com mais de 90% do valor proveniente da conversão de debêntures, títulos de dívida emitidos pela companhia.

A operação marcou a entrada de novos acionistas, incluindo fundos ligados a gestoras e investidores do mercado financeiro. A necessidade de reforçar o caixa levou a Oncoclínicas a buscar diferentes alternativas de financiamento e reorganização de suas atividades.

Leia também: CVM determina OPA da Oncoclínicas em até 60 dias e amplia base de acionistas elegíveis

Saída de fundador ocorreu durante reestruturação

Bruno Ferrari deixou o cargo de diretor-presidente em março, após um período de divergências sobre os rumos administrativos e financeiros da companhia. Apesar da saída da função executiva, ele continuou participando do negócio como acionista.

Segundo Ferrari, uma das dificuldades enfrentadas pela rede esteve relacionada aos investimentos hospitalares, que exigiam recursos elevados e apresentavam resultados pressionados pelas condições do mercado de saúde.

O empresário também afirmou que os recursos do banco Master foram direcionados a certificados de depósito bancário da própria instituição, em um contexto no qual a companhia buscava financiamento para suas operações.

De acordo com seu relato, a empresa chegou a manter mais de R$ 1,2 bilhão aplicado nesses títulos. Após a percepção de dificuldades relacionadas ao retorno dos investimentos, a Oncoclínicas realizou a liquidação das aplicações.

As decisões tomadas nesse período passaram a integrar o conjunto de questões levantadas por investidores interessados em compreender a evolução financeira da companhia.

Oncoclínicas afirma que está revisando despesas e processos internos

A Oncoclínicas informou que conduz uma revisão de sua estrutura de custos e dos procedimentos administrativos, com o objetivo de melhorar a eficiência operacional e fortalecer sua capacidade financeira. Segundo a companhia, o trabalho inclui a avaliação de contratos, portfólio de ativos, modelo de operação e destinação de recursos.

A empresa também declarou que está aprimorando seus mecanismos de governança e controle interno, especialmente nas áreas financeira e administrativa. Entre as medidas citadas estão a redução de despesas, o aperfeiçoamento da gestão de pagamentos e recebimentos e o acompanhamento mais rigoroso das obrigações financeiras.

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