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Ronaldo Fraga une agronegócio e moda em desfile do Sou de Algodão no SPFW
Publicado 16/10/2026 • 12:11 | Atualizado há 46 minutos
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Publicado 16/10/2026 • 12:11 | Atualizado há 46 minutos
KEY POINTS
Mell Braga
Maior exportador mundial da fibra, o Brasil registrou recorde de 3,37 milhões de toneladas embarcadas e receita de US$ 5,3 bilhões no ano comercial 2025/26.
O algodão brasileiro saiu das lavouras para ocupar o centro da passarela no São Paulo Fashion Week (SPFW). Entre varais de roupas, bordados e referências à cultura nacional, Ronaldo Fraga apresentou uma coleção que ultrapassou o universo da criação e evidenciou a conexão entre duas importantes forças econômicas do país: o agronegócio e a indústria da moda.
Realizado nesta quinta-feira (15), no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, o desfile apresentou a coleção Cartas de Algodão, desenvolvida para celebrar os dez anos do Sou de Algodão, movimento da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa).
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A escolha do estilista mineiro, conhecido por transformar elementos da cultura brasileira em linguagem de moda, reforçou uma estratégia que vem sendo construída há uma década: aproximar a produção agrícola do consumidor final e ampliar o reconhecimento do algodão nacional para além de sua importância como matéria-prima.
A iniciativa ganha dimensão quando observada a força econômica do setor. No ano comercial 2025/26, encerrado em julho, o Brasil exportou o recorde de 3,37 milhões de toneladas de algodão, crescimento de 19% em relação ao período anterior. As vendas externas somaram US$ 5,3 bilhões, segundo a Abrapa.
A China liderou as compras, com aproximadamente 770,5 mil toneladas, seguida por mercados como Bangladesh, Turquia, Paquistão, Vietnã e Índia. O desempenho consolidou a liderança brasileira nas exportações mundiais da fibra e ampliou a importância de estratégias capazes de agregar valor à produção nacional.
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Foi justamente com a proposta de aproximar diferentes etapas dessa cadeia produtiva que o Sou de Algodão nasceu, em 2016, durante o próprio SPFW.
Diferentemente de uma marca convencional de vestuário, o movimento atua na promoção da fibra brasileira, conectando produtores rurais, fornecedores, indústrias, estilistas e empresas do varejo. O objetivo é ampliar o conhecimento sobre a origem do algodão, seus processos de produção e suas aplicações no mercado.
Dez anos depois, a iniciativa chegou ao quinto desfile próprio no calendário da semana de moda, desta vez com a assinatura de Ronaldo Fraga, que também celebra três décadas de carreira.
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“O Sou de Algodão nasceu no SPFW em 2016 e comemorar os 10 anos dessa iniciativa onde tudo começou é muito simbólico para nós”, afirmou Renata Caixeta, gerente de Desenvolvimento de Negócios da Abrapa, em comunicado divulgado antes da apresentação.
A parceria representa mais uma etapa da aproximação entre o agronegócio e a indústria criativa. Ao associar a fibra brasileira ao trabalho de um estilista reconhecido por sua identidade autoral, o movimento amplia a visibilidade do produto e reforça atributos como origem, qualidade e valorização da produção nacional.
Essa conexão também se reflete na dimensão da indústria têxtil brasileira. Segundo o relatório Brasil Têxtil 2026, elaborado pelo IEMI com apoio institucional da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e do Senai Cetiqt, o setor reúne cerca de 1,3 milhão de trabalhadores no país.
A cadeia compreende desde a transformação de fibras em fios e tecidos até a confecção e comercialização de produtos acabados. É nesse percurso que uma matéria-prima agrícola passa a incorporar tecnologia, design, trabalho especializado e valor comercial.
Na passarela, essa trajetória ganhou uma interpretação marcada pela memória e pela cultura brasileira.
A cenografia reuniu varais com roupas de algodão suspensas, remetendo ao cotidiano das casas, aos enxovais de família e às peças que atravessam gerações. O cenário, integrado às criações, reforçou a presença do tecido na vida cotidiana e a relação afetiva construída em torno das roupas.
A coleção apresentou vestidos, peças de alfaiataria, rendas, crochês, bordados e trabalhos em patchwork. A predominância de branco, bege e marrom dialogou com estampas inspiradas em cartas antigas, envelopes e correspondências, elementos que deram origem ao nome Cartas de Algodão.
A poeta e artista têxtil Bianca Ramoneda participou do desenvolvimento criativo, incorporando palavras, poemas e referências à escrita manual. Pequenos envelopes de tecido lacrados também foram costurados às peças, ampliando a proposta de transformar o vestuário em um registro de histórias e memórias.
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Siga o Times | CNBCO reaproveitamento de resíduos têxteis apareceu em algumas das criações. Nos dois primeiros looks, fragmentos de tecidos, rendas e crochês foram reunidos em composições de patchwork, evidenciando possibilidades de utilização de materiais que poderiam ser descartados.
A valorização da manualidade, recorrente no trabalho de Ronaldo Fraga, também trouxe à passarela atividades que integram a cadeia da moda brasileira, como modelagem, costura, bordado e acabamento.
Mais do que um recurso estético, esse conjunto de técnicas evidencia o papel da criação e do conhecimento especializado na diferenciação dos produtos. Em uma indústria marcada pela concorrência internacional, identidade, qualidade e desenvolvimento de design podem contribuir para ampliar o valor agregado das peças.
A valorização da fibra nacional também responde a transformações no mercado global, especialmente ao avanço das matérias-primas sintéticas.
Durante o Congresso Internacional da Abit, realizado nos dias 14 e 15 de outubro, em Fortaleza, representantes do setor destacaram que a participação do algodão no mercado mundial de fibras, que superava 50% há cerca de quatro décadas, atualmente está em torno de 22%.
O cenário reforça a importância de investimentos em qualidade, inovação e diferenciação comercial para preservar a competitividade da fibra natural.
No Brasil, essas estratégias já aparecem em iniciativas voltadas à certificação e à rastreabilidade. Na safra 2024/25, 79% da produção brasileira de algodão contou com a certificação socioambiental Algodão Brasileiro Responsável (ABR), segundo a associação.
A estrutura de controle de qualidade também avançou. De acordo com relatório divulgado pela Abrapa em 9 de outubro, mais de 10,1 milhões de fardos da safra 2025/26 haviam passado por análises instrumentais até setembro, o equivalente a 54% do total previsto.
Esse acompanhamento da produção se conecta a outra frente do Sou de Algodão: o programa SouABR, que utiliza tecnologia blockchain para acompanhar o percurso da matéria-prima desde a fazenda até o produto final, permitindo ao consumidor acessar informações de origem por meio de QR Code.
Em 2025, o programa registrou 319.647 peças rastreáveis, com participação de oito marcas e varejistas, entre eles Calvin Klein, C&A, Döhler e Dudalina. A iniciativa também envolveu 110 produtores rurais e 168 fazendas.
Ao conectar informações do campo aos produtos disponíveis nas lojas, a rastreabilidade oferece às empresas uma ferramenta de transparência e diferenciação, ao mesmo tempo em que aproxima o consumidor das etapas responsáveis pela fabricação das roupas.
É nesse contexto que a presença do Sou de Algodão no SPFW ganha relevância comercial. A semana de moda funciona como uma plataforma de exposição e relacionamento entre criadores, fornecedores, marcas e empresas, com reflexos sobre diferentes atividades econômicas.
Além dos desfiles, o evento mobiliza profissionais de produção, logística, tecnologia, comunicação, serviços e indústria criativa. Em 2025, Paulo Borges, idealizador do SPFW, estimou em aproximadamente R$ 1,5 bilhão o impacto econômico associado a uma edição, considerando os negócios e atividades desenvolvidos em torno da programação. O valor não representa faturamento direto da organização nem receita específica dos desfiles.
Para a Abrapa, a participação nesse ambiente permite ampliar o diálogo com empresas que transformam o algodão em produtos e influenciam as decisões de consumo.
A estratégia não se limita às passarelas. Em setembro, durante o 15º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Belo Horizonte, o Sou de Algodão apresentou uma loja oficial com produtos próprios, incluindo peças rastreadas, expandindo as iniciativas de aproximação com o consumidor.
A parceria com Ronaldo Fraga acrescenta a esse movimento o alcance da criação autoral e a valorização de elementos culturais brasileiros, conectando uma produção agrícola de escala internacional à identidade da moda nacional.
Para um país que já ocupa a liderança mundial na exportação de algodão, o desafio vai além de ampliar volumes e conquistar novos mercados compradores. Envolve também fortalecer a integração entre os diferentes segmentos produtivos e criar oportunidades de maior valor agregado.
Ao levar essa discussão para o SPFW, o Sou de Algodão mostrou como a moda pode funcionar como ponto de encontro entre o campo, a indústria e o consumidor, ampliando o reconhecimento de uma cadeia que começa no agronegócio, mas movimenta negócios muito além das lavouras.
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