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O poder da vergonha: como o ativismo dos consumidores obriga marcas a serem éticas

Publicado 17/02/2026 • 13:30 | Atualizado há 3 horas

KEY POINTS

  • A mudança sistêmica ocorre quando o desconforto privado do consumidor se transforma em voz pública, gerando um custo reputacional que as empresas não podem ignorar.
  • Embora a regulamentação seja essencial, ela costuma ser lenta, enquanto a pressão social alinha a motivação emocional dos compradores com consequências de mercado imediatas.
  • A tecnologia para transparência total já existe através de sistemas logísticos e códigos QR; o maior obstáculo atual não é a coleta de dados, mas sim a sua divulgação.

Investigações recentes revelaram trabalho forçado em cadeias de suprimentos agrícolas, pesca ilegal abastecendo freezers de supermercados, desmatamento em produtos cotidianos e condições inseguras em fábricas de moda “sustentável”. Esses danos só vieram à tona quando jornalistas, denunciantes ou ativistas os expuseram.

Quando isso aconteceu, o previsível ocorreu: consumidores sentiram-se inquietos e as marcas emitiram comunicados. O ponto central é que a força que impulsionou a mudança não foi a regulamentação, mas sim os consumidores.

Descobrir que uma compra comum pode estar ligada à exploração ou dano ambiental cria um choque de responsabilidade pessoal. Pesquisas indicam que, quando as consequências ambientais estão claramente ligadas às escolhas de compra, muitos estão dispostos a trocar de produto.

Mas a culpa é privada e apenas instiga o comportamento individual. A mudança real acontece quando o desconforto privado se torna uma voz pública, remodelando sistemas inteiros.

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Os consumidores são os primeiros a tornar visíveis os danos ambientais ocultos através das redes sociais, questionando alegações corporativas e organizando petições, boicotes e campanhas de avaliação. O escrutínio deixa de ser sobre quem compra e passa a ser sobre a marca.

Essa mudança importa porque as marcas modernas dependem da confiança. Danos à reputação afetam a fidelidade do cliente, a confiança do investidor e a atenção regulatória, já que empresas respondem rápido a ameaças à sua legitimidade.

Em muitos casos de alto perfil, reformas nas cadeias de suprimentos seguiram um escrutínio público intenso em vez de verificações rotineiras. Líderes podem não agir por um despertar moral, mas agem quando a inação se torna cara para sua reputação.

Consumidores gatilham uma reação emocional em cadeia: eles sentem culpa, buscam informação e falam coletivamente. Essa voz coletiva gera o que chamamos de vergonha corporativa.

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O professor de sustentabilidade Mike Berners-Lee argumenta em seu livro “A Climate of Truth” que exigir honestidade é uma das ações climáticas mais poderosas. Aumentar os padrões de veracidade nos negócios altera os incentivos financeiros.

Quando as consequências sociais são personalizadas e rastreáveis, a sustentabilidade parece menos distante. Isso gera duas respostas: mudança de comportamento impulsionada pela culpa e responsabilidade corporativa impulsionada pela vergonha.

A vergonha funciona porque é social. As marcas se importam com a forma como são vistas, e quando efeitos negativos são conectados publicamente a produtos específicos, as narrativas corporativas tornam-se contestáveis em tempo real.

Tornando as cadeias de suprimentos socialmente visíveis

A tecnologia para melhorar a transparência já existe em sistemas logísticos e bancos de dados de fornecedores. A barreira atual não é a coleta de dados, mas sim a divulgação (disclosure) dessas informações.

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Indicadores como emissões de carbono, uso de água e conformidade com padrões trabalhistas podem ser vinculados a produtos via códigos QR ou aplicativos. Interfaces digitais simples tornariam a informação acessível e comparável.

As redes sociais são cruciais, pois já permitem que trabalhadores e comunidades desafiem mensagens corporativas. Integrar dados verificados da cadeia de suprimentos nesses espaços transformaria a transparência em uma expectativa cotidiana.

Essa estratégia pode funcionar de forma mais eficaz do que regras ou campanhas de marketing verde isoladas, agindo diretamente na estrutura de incentivos das empresas.

A regulamentação é essencial, mas frequentemente lenta e desigual entre fronteiras. Já a transparência ativada pela voz coletiva alinha a motivação emocional com a consequência reputacional.

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Consumidores não são receptores passivos, são catalisadores. Ao sentirem a primeira pontada de culpa e falarem juntos, criam as condições para que as empresas experimentem a vergonha corporativa. Quando a vergonha ameaça a posição de mercado, a mudança torna-se racional e inevitável.

A vergonha é desconfortável, mas quando direcionada a sistemas opacos, é poderosa. Ao exigir a verdade, os consumidores empurram as empresas para uma transparência maior e práticas realmente sustentáveis.

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