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Apostas online no trabalho: o vício silencioso que drena foco e derruba empresas

Publicado 11/03/2026 • 08:00 | Atualizado há 3 horas

Foto de Brazil Health

Brazil Health

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Agência Brasil

Sites de apostas

A psicóloga Luciana Grandin explica por que as apostas online sabotam o foco no trabalho e como líderes podem agir cedo para prevenir perdas e proteger relações.

Enquanto você lê este texto, é provável que alguém por perto esteja fazendo uma aposta – talvez até dentro do ambiente de trabalho; uma ação em andamento que pode estar em segundo plano na tela do computador ou disfarçada entre notificações do celular.

O entretenimento digital, hoje com alcance inédito em todas as esferas da rotina, rompeu as fronteiras do horário comercial e das paredes corporativas.

O que enfrentamos neste início de 2026 não é um fenômeno que se anuncia com alarde; é um adoecimento, em diferentes níveis, que se instala em tempo real, impregnado na rotina produtiva e facilitado pela hiperconectividade, a qual abre as portas para uma vulnerabilidade psíquica de difícil detecção.

O Transtorno do Jogo e o Impacto Cerebral

Diferente de outras dependências com sinais nítidos, o vício em jogos possui uma aderência quase perfeita à vida considerada funcional. No ambiente corporativo, o indivíduo sustenta uma fachada de normalidade, ocultando alterações sutis na atenção e nas funções cognitivas.

Atualmente, tanto a OMS, responsável pela CID-11, quanto a APA, por meio do DSM-5, classificam essa condição como Transtorno do Jogo: uma dependência não química de natureza severa. Conforme a dependência evolui, o trabalhador passa a operar sob o mecanismo do reforço intermitente, no qual a recompensa imprevisível e incerta gera uma urgência biológica por tentativa e repetição. A partir dessa dinâmica, a organização passa a correr sérios riscos, especialmente o de comprometimento direto de seu capital intelectual.

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É aqui que o presenteísmo se manifesta: o colaborador está fisicamente em seu posto de trabalho, mas sua cognição está sequestrada pela dinâmica da dependência, gerando uma perda de produtividade silenciosa, porém devastadora.

Um dos pontos mais sensíveis nesse contexto é a forma como o indivíduo deforma a realidade e compromete a integridade de seus vínculos. Quando a família nota o isolamento e a irritabilidade no ambiente doméstico, há alta probabilidade de o sujeito utilizar a carreira como um escudo estratégico.

Ao ser questionado sobre o nervosismo ou o tempo excessivo nas telas, ele pode evitar revelar a real causa de sua agitação, projetando no trabalho toda a culpa pelo seu estado psíquico e emocional. Para esconder a compulsão, pode alegar metas irreais, pressões excessivas ou problemas interpessoais – uma manobra que adia o sofrimento, mas mina progressivamente todas as relações de confiança.

Essa tendência estabelece uma cortina de fumaça que gera uma cegueira compartilhada: por um lado, a família acredita na narrativa projetada e passa a nutrir uma hostilidade injusta contra os empregadores. Por outro, a empresa percebe apenas o que parece ser uma “aura” de desmotivação ou uma fase pessoal atípica.

Nesse vácuo de comunicação entre o indivíduo, a família e a gestão, essa dinâmica permanece protegida pelo sigilo da vergonha, impedindo que o suporte chegue antes que o colapso se torne irreversível.

Regulação e Consciência: Os Limites da Autoexclusão

No cenário brasileiro, um passo decisivo foi dado com o lançamento da plataforma centralizada de autoexclusão, operante desde o início de 2025. Entretanto, embora seja um mecanismo de compliance indispensável, carrega uma fragilidade clínica central: a autoexclusão pressupõe um indivíduo em pleno gozo de sua capacidade de autorregulação – justamente o que a dependência destrói.

A problemática reside no fato de que o apostador opera em um ciclo de urgência, no qual sua capacidade cognitiva de avaliar consequências é temporariamente distorcida. Diante dessa vulnerabilidade biológica, a eficácia das ferramentas técnicas de limitação de uso, como a autoexclusão, depende de um ecossistema de apoio mais amplo.

Nesse contexto, o papel das organizações deixa de ser apenas o de vigilância ou de identificação de danos quando o comprometimento do indivíduo já atingiu níveis críticos. O foco deve migrar para a preservação das pessoas e da saúde mental, antes que a dinâmica das apostas comprometa as relações e a ambiência laboral.

O enfrentamento, portanto, passa pelo letramento das lideranças e pela construção de fluxos que priorizem a prevenção e o acolhimento precoce, integrando as ações da empresa às redes de suporte e à dinâmica familiar.

Saúde Mental como Diferencial Competitivo

Enfrentar este panorama não é uma decisão baseada apenas em benevolência corporativa, mas em inteligência estratégica e sustentabilidade dos negócios. Em um mercado no qual o foco e a clareza mental se tornaram ativos escassos, as organizações que desenvolverem um olhar treinado para identificar e acolher o que hoje permanece oculto garantirão um diferencial competitivo fundamental.

A saída para os desafios gerados pelas apostas não reside no silenciamento, mas na coragem de sugerir discussões sobre o tema de modo firme, integrando alertas, educação e comunicação transparente dentro e fora da empresa.

O restabelecimento de um ambiente funcional e sustentável exige o letramento das lideranças, capacitando-as não para o diagnóstico, mas para o acolhimento e o direcionamento seguro daqueles que trabalham dentro dos fluxos organizacionais.

Ao transformar o estigma em diálogo e as armadilhas silenciosas em protocolos de cuidado, a gestão reconhece que a saúde mental é um alicerce central da longevidade do negócio. Afinal, em um cenário de riscos crescentes, se é para apostar em algo, que seja no cuidado e na integridade de cada pessoa.

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