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Vida nas organizações Joaquim Santini

O novo mandato do RH não é apoiar. É gerar valor

Publicado 23/03/2026 • 13:20 | Atualizado há 5 horas

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Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

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O RH do futuro não será avaliado pelo volume de processos que administra, mas pela capacidade de transformar estratégia em capacidade organizacional.

Se a estratégia mudou, se a tecnologia mudou e se a velocidade do mercado mudou, há uma pergunta que deveria atravessar toda discussão séria de conselho: por que tantas empresas ainda insistem em operar com um RH desenhado para uma realidade competitiva que já deixou de existir?

Essa não é uma provocação retórica. É a conclusão prática de um dos maiores estudos globais sobre gestão de pessoas já realizados. O relatório Creating People Advantage 2026, conduzido pela BCG em parceria com a WFPMA, mostra que a maioria das empresas ainda não fez a transição de um RH funcional para um RH que gera valor mensurável para o negócio — e essa demora já está custando competitividade, velocidade e execução.

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A tese central é direta: a verdadeira oportunidade da inteligência artificial no RH não está em automatizar processos. Está em forçar a função a sair de seu papel histórico de retaguarda e assumir, de forma mensurável, sua responsabilidade sobre desempenho empresarial, construção de capacidades e sustentação da mudança.

Isso significa que o RH deixou de ser apenas uma função administrativa relevante. Passou a ocupar um lugar muito maior: o de arquitetura organizacional.

O problema é que muitas empresas ainda operam como se essa mudança fosse opcional. Continuam tratando a área de pessoas como retaguarda: conformidade, folha, relações trabalhistas, recrutamento operacional. Tudo isso segue sendo necessário. Mas já não é suficiente. O próprio relatório revela a contradição: 65% dos líderes seniores reconhecem o RH como facilitador-chave do negócio, mas 51% afirmam que a carga administrativa continua sendo a principal barreira para uma contribuição mais estratégica.

Mas há um ponto que precisa ser dito com franqueza: o problema não está apenas nas empresas que mantêm o RH pequeno. Está também no RH que ainda aceita ser pequeno.

Em muitas organizações, a função de pessoas continua presa a uma lógica de execução funcional, como se sua legitimidade dependesse apenas de operar bem o que sempre operou. Só que o novo contexto exige outra ambição. Exige uma área que queira, de fato, dar o salto. Que reivindique protagonismo não como favor, mas como consequência da sua capacidade de conectar pessoas a crescimento, produtividade, inovação e velocidade de execução. Exige lideranças de RH dispostas a trocar a segurança dos processos pela responsabilidade de influenciar desenho organizacional, desenvolvimento de capacidades, adoção de tecnologia e transformação concreta do trabalho.

A tecnologia apenas tornou isso mais urgente. O relatório mostra que soluções digitais deram o maior salto em importância futura entre os temas analisados. A inteligência artificial também avançou em prioridade. Mas as capacidades reais nessas frentes continuam entre as mais baixas.

Esse é o dado que mais deveria incomodar a alta liderança: as empresas perceberam a importância do digital e da inteligência artificial muito mais rápido do que desenvolveram capacidade para extrair valor deles.

O maior déficit está na fluência digital e na maturidade analítica. Muitas funções de RH investiram em sistemas, mas poucas construíram as habilidades, a cultura de dados e a capacidade de redesenhar processos necessárias para transformar esses investimentos em valor de negócio.

Esse é um ponto que qualquer presidência deveria ler com atenção. O problema já não é acesso à tecnologia. É incapacidade organizacional de convertê-la em desempenho. Quase 70% dos respondentes já usam inteligência artificial generativa de alguma forma, mas apenas 38% a consideram altamente relevante. Ao mesmo tempo, 90% dos presidentes acreditam que a IA moldará seus setores.

A distância entre expectativa estratégica e entrega real tornou-se um risco concreto de execução.

As barreiras são conhecidas: privacidade de dados, falta de domínio técnico e excesso de iniciativas descoordenadas. Mas a verdade mais incômoda é outra: o problema não é apenas tecnológico. É organizacional. Falta uma abordagem integrada que conecte inteligência artificial, redesenho do trabalho, dados e desenvolvimento de competências em uma agenda coerente.

Por isso, o RH que o futuro exige não pode se limitar a informatizar rotinas. Ele precisa liderar a reorganização do trabalho. Isso implica redesenhar processos, construir infraestrutura de dados, elevar o nível de aprendizagem e acompanhar retorno com métricas concretas.

Os dados deixam claro que essa já é uma agenda de negócio. Organizações com melhores capacidades em áreas como engajamento, recrutamento e planejamento da força de trabalho apresentam menor rotatividade e maior velocidade para preencher posições críticas. Isso não é retórica. É desempenho empresarial mensurável.

Mas há uma camada ainda mais profunda que o RH precisa assumir — e aqui está um ponto que relatórios tradicionais raramente alcançam. A transformação não trava apenas por falta de ferramenta, de treinamento ou de governança. Ela trava porque toda organização opera também sob uma Arquitetura Psicodinâmica: uma estrutura invisível de forças inconscientes, simbólicas e afetivas que molda decisões, vínculos e fronteiras de poder dentro da empresa, estabelecendo limites implícitos sobre o que pode e o que não pode ser pensado, dito e feito.

É nessa arquitetura que se alojam pactos silenciosos, zonas de congelamento, lealdades antigas e medos não nomeados. E é justamente por isso que tantas empresas anunciam transformação, falam em inteligência artificial, criam programas de mudança e, ainda assim, continuam reproduzindo a lógica antiga por baixo do discurso novo.

Se quiser mesmo cumprir seu novo mandato, o RH precisará ajudar a empresa a enxergar essa camada invisível. Precisará tensionar os pactos que mantêm estruturas improdutivas de pé. Precisará dar nome aos medos que bloqueiam a adoção real de novas formas de trabalho. Precisará sustentar conversas que outras áreas evitam. E precisará fazer isso não apenas como guardião de cultura, mas como operador de travessia institucional.

É por isso que o RH de 2026 não será definido por parecer moderno. Será definido por provar que consegue transformar pessoas, tecnologia, capacidades e cultura em desempenho concreto — inclusive quando isso exige mexer em zonas desconfortáveis da vida organizacional.

A agenda de 2026 não é sobre digitalizar o RH. É sobre decidir se o RH continuará sendo uma função importante — ou finalmente se tornará indispensável.

No fim, a pergunta que importa para uma presidência já não é se o RH participa da estratégia. É se a estratégia pode ser executada na velocidade que o mercado exige sem um RH capaz de organizar capacidades, liderar a transformação e enfrentar a arquitetura invisível que ainda mantém a empresa presa ao que ela diz querer superar.

Porque o novo mandato do RH não é apoiar. É gerar valor. E valor, agora, significa ajudar a empresa a mudar na velocidade que o mercado exige — inclusive quando isso implicar enfrentar os pactos, os medos e as zonas de silêncio que ainda a impedem de se transformar de verdade.

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