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Uma epidemia de desigualdade
Publicado 09/04/2026 • 07:41 | Atualizado há 4 horas
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Publicado 09/04/2026 • 07:41 | Atualizado há 4 horas
Unsplash
O Dia Internacional da Mulher passou. As publicações nas redes sociais diminuíram, os eventos corporativos se encerraram e a pauta, como acontece todos os anos, corre o risco de ser arquivada até o próximo março. Mas os dados não respeitam calendário.
A violência, a desigualdade salarial e a sub-representação política tampouco. Se ainda dependemos de uma data específica para trazer esse debate ao centro das nossas conversas, é sinal de que ainda não compreendemos — ou não aceitamos — a real dimensão do problema.
Não é possível mais tolerar a violência contra as mulheres. A recente escalada dos casos de feminicidio deixa claro que essa violência perpassa todos os níveis sociais e classes econômicas. As estatísticas refletem um cenário que vem se agravando: o país registrou, em 2025, 1.568 feminicídios, o que equivale a dizer que, a cada seis horas, uma mulher morre em razão do seu gênero.
Leia também: Brasil atinge menor nível de pobreza e desigualdade da história
O número é um recorde nos últimos dez anos, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os índices de agressão sexual tambem têm escalado, com uma alta de 25,8% nos casos de estupro entre 2020 e 2025, segundo o Mapa da Seguranca Pública de 2025. Se fosse um problema da saúde pública, certamente estaríamos diante de uma epidemia.
Não se trata, portanto, de um aumento pontual no número de casos de violência, mas de problema estrutural que está ganhando contornos mais dramáticos. A desigualdade de gênero no Brasil é histórica, e uma breve cronologia dos fatos dá a exata dimensão dessa realidade. Até 1827, apenas meninos tinham acesso à educação básica. O acesso das meninas ao ensino superior ocorreu em 1879 (mas somente perante autorização do pai ou marido).
O direito ao voto, ainda que facultativo, foi conquistado em 1932; o direito de trabalhar e de ter uma conta bancária em seu nome, sem autorização do marido, só veio em 1962. A Lei do Divórcio, de 1977, permitiu que mulheres pudessem sair de casamentos abusivos, ainda que com grande estigma social.
As mulheres só se tornaram cidadãs plenas de direitos com a Constituição de 1988, que estabeleceu a igualdade entre homens e mulheres. De lá para cá, leis mais severas começaram a ser aprovadas, como a Lei Maria da Penha, de 2005, a Lei do Feminicídio, de 2015; a criminalização da importunação sexual (2018) e em 2024, o feminicídio passou a ter a maior pena do Código Penal (20 a 40 anos de detenção). Os direitos das mulheres são, portanto, um fato recente na trajetória brasileira e sua garantia ainda esbarra em estruturas sociais onde prevalece uma visão machista do mundo. Junte-se a isso o caldo de cultura misógino que vem sendo alimentado por discursos de ódio contra mulheres na internet, que alcança homens cada vez mais jovens.
Leia também: Brasil tem queda na desigualdade em educação, emprego e meio ambiente
E, apesar do avanço educacional - mulheres representam 59% das matrículas no ensino superior - a desigualdade persiste nos cargos de liderança das empresas e na sub-representação na política, com apenas 18% das cadeiras no Congresso Nacional. Por isso, combater a desigualdade de gênero passa por uma mudança de cultura e um esforço coletivo, que deve ser empreendido por toda a sociedade brasileira. Precisamos lembrar que essa não é uma agenda apenas das mulheres. Homens também precisam estar ativamente envolvidos nessa transformação, como aliados e parte fundamental da solução.
O ambiente empresarial é um dos espaços em que a mudança precisa ser acelerada. As companhias brasileiras avançaram na contratação de mão de obra feminina, estabeleceram metas de equidade, mas é preciso ter mais mulheres nas equipes, especialmente em posições de liderança e de estratégia, como nos Conselhos. Isso passa por reconhecer e dar legitimidade à liderança feminina, que tende a promover um ambiente de trabalho mais humanizado, focado em sustentabilidade e práticas inclusivas.
É urgente também que políticas inclusivas olhem para a interseccionalidade, pois as distâncias rumo à igualdade de oportunidades e de salários são ainda maiores para negras e indígenas. No Brasil, as mulheres negras enfrentam a maior disparidade salarial no mercado de trabalho, ganhando, em média, cerca de 47% a 53% menos que homens brancos/não negros, ocupando a base da pirâmide de salários mesmo em funções equivalentes.
>> Leia mais da coluna de Marina Grossi
As empresas devem ainda oferecer condições para que as colaboradoras conciliem suas atividades corporativas com a demanda pelo trabalho de cuidado que ainda sobrecarrega, majoritariamente, os ombros femininos. A mudança de cultura começa dentro de casa, com uma divisão mais igualitária do trabalho doméstico e um diálogo franco na família.
Diversos estudos têm apontado que uma sociedade mais justa para as mulheres beneficia a todos e ainda gera maior benefício econômico: segundo dados da consultoria McKinsey, empresas lideradas por mulheres apresentam crescimento 21% superior ao de organizações comandadas apenas por homens. Mas não há como avançar, seja na economia, na política ou na esfera privada, se as mulheres continuam a ser mortas só por existirem. Proteger a vida das mulheres precisa ser uma prioridade de todos, em todos os espaços: no poder público, nas empresas e na sociedade. Só com um compromisso coletivo conseguiremos mudar essa realidade.
* Marina Grossi é presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), entidade com 29 anos de atuação e mais de 110 grandes empresas associadas, Enviada Especial da Presidência da COP30 para o Setor Empresarial.
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