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Europa em alerta: o avanço de Flávio Bolsonaro, a sombra de Trump e a fragilidade do acordo UE-Mercosul

Publicado 05/10/2026 • 12:15 | Atualizado há 46 minutos

KEY POINTS

  • Europa se divide: a extrema direita europeia celebra o avanço de Flávio Bolsonaro, enquanto governos progressistas e de centro-direita demonstram preocupação.
  • E o acordo UE-Mercosul fica sob pressão por uma possível mudança na política ambiental brasileira pode fortalecer a resistência europeia à ratificação do tratado.
  • Trump amplia o alerta geopolítico e um alinhamento mais estreito entre Brasília e Washington pode enfraquecer os laços estratégicos e comerciais com a Europa.

Flávio Bolsonaro, Trump e preocupação da UE

O compasso de espera e a fratura europeia

MILÃO — Os corredores diplomáticos do continente europeu amanheceram sob um silêncio oficial milimetricamente calculado após o desfecho do primeiro turno eleitoral no Brasil. Em respeito aos protocolos e à soberania institucional brasileira, chefes de Estado e de governo evitam manifestações precipitadas antes da decisão final nas urnas. Nos bastidores, contudo, a atmosfera que impera nos principais centros decisórios está longe de ser calma: o desempenho competitivo de Flávio Bolsonaro reabriu fissuras ideológicas profundas na Europa e ativou alertas econômicos e climáticos de alta voltagem.

A reação europeia expõe uma polarização nítida. De um lado, as lideranças da extrema direita continental celebram com entusiasmo os resultados das urnas brasileiras. Nomes de proa desse campo político — como André Ventura, líder do Chega em Portugal, e Santiago Abascal, presidente do Vox na Espanha, ao lado de correntes radicais na Itália e na França — enxergam na consolidação de Flávio Bolsonaro a reafirmação de um projeto comum transatlântico.

Para esse bloco, a família Bolsonaro não é apenas uma força eleitoral na América do Sul, mas um pilar essencial na articulação de uma frente conservadora global. Essa coalizão é inspirada na retórica nacionalista, na defesa irrestrita de valores tradicionais e na oposição contundente à governança multilateral sustentada por organismos internacionais e pelo establishment europeu.

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O fantasma ambiental e o receio de retrocesso em Bruxelas

No polo oposto, a apreensão domina as chancelarias lideradas por coalizões progressistas e de centro-direita, além do corpo técnico da União Europeia sediado em Bruxelas. O maior receio dessas lideranças é a reedição explícita da política ambiental conduzida durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Para governos centrais, com destaque para a França de Emmanuel Macron e a Alemanha, o desmonte de órgãos de fiscalização florestal, a complacência com o desmatamento ilegal na Amazônia e a postura abertamente cética em relação às metas do Acordo de Paris deixaram feridas profundas nas relações bilaterais entre 2019 e 2022. O retorno dessa agenda sob a liderança do primogênito é interpretado em Paris, Berlim e Haia como uma ameaça existencial à credibilidade climática global, além de um fator de intensa desestabilização interna perante seus próprios eleitores verdes e setores agrícolas.

O Acordo UE-Mercosul na corda bamba

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É nesse contexto ambiental que reside o ponto de maior fricção econômica: a viabilidade do histórico e arrastado Acordo de Associação Comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Após décadas de negociações exaustivas e recentes avanços na formulação de anexos ambientais complementares (side letters), a ratificação definitiva do pacto birregional depende diretamente da garantia irrenunciável de salvaguardas ecológicas e do combate ao desmatamento.

Em Bruxelas, analistas de comércio exterior e diplomatas apontam que a ascensão de uma administração bolsonarista ofereceria a justificativa política perfeita para os países europeus mais protecionistas — historicamente contrários à concorrência do agronegócio sul-americano — bloquearem a ratificação no Conselho da União Europeia e no Parlamento Europeu sob a bandeira da sustentabilidade.

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A sombra de Trump e o risco do bilateralismo transacional

A esse cenário complexo soma-se outro temor geopolítico crucial: a possibilidade concreta de um alinhamento incondicional de Brasília a Washington sob a órbita de Donald Trump e do trumpismo. O clã Bolsonaro nunca escondeu sua identificação prioritária com o movimento ‘Make America Great Again’ (MAGA), estabelecendo uma interlocução direta e privilegiada com os círculos conservadores norte-americanos.

Para a União Europeia, a hipótese de o Brasil relegar a parceria com a Europa a um plano secundário para se alinhar estritamente a uma política externa transacional e confrontacionista de Washington acende luzes vermelhas. Um governo no Palácio do Planalto voltado primordialmente para a agenda comercial e geopolítica da Casa Branca poderia esvaziar a ambição estratégica do acordo birregional, preferindo acordos bilaterais restritos ou priorizando concessões comerciais vantajosas para os Estados Unidos.

Enquanto os líderes populistas da extrema direita europeia torcem abertamente por uma vitória que fortaleça seu eixo internacional contra as instituições liberais, os diplomatas em Bruxelas, Roma, Berlim e Paris aguardam o veredito final do eleitorado brasileiro com uma constatação unânime: o futuro das relações entre a Europa e a maior economia da América Latina está prestes a atravessar um de seus testes diplomáticos mais desafiadores em décadas.

Europa dividida •  Extrema Direita Européia: Figuras como André Ventura (Chega/Portugal) e Santiago Abascal (Vox/Espanha) veem na família Bolsonaro a consolidação de uma frente nacionalista-conservadora transatlântica.•  Bruxelas e Centristas: Governos de centro-direita e progressistas em Berlim, Paris e Roma temem a reedição do passivo ambiental deixado por Jair Bolsonaro na Amazônia.•  Impasse Mercosul-UE: O desmantelamento de garantias ecológicas dá munição para países protecionistas enterrarem de vez a ratificação do tratado de livre comércio.•  Alinhamento com Washington: O risco de priorização absoluta das diretrizes republicanas e de Donald Trump ameaça esvaziar o multilateralismo e desidratar os laços estratégicos com a Europa.

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