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Maior grupo feminino no mercado de trabalho, mulheres negras continuam sub-representadas nos cargos de liderança

Publicado 25/07/2026 • 09:00 | Atualizado há 15 minutos

KEY POINTS

  • Mulheres negras ocupam menos de 4% dos cargos executivos nas grandes empresas brasileiras.
  • Especialista alerta que disparidade não decorre da falta de profissionais qualificadas, mas das barreiras que ainda dificultam o acesso das mulheres negras aos espaços de poder.
  • Mudar este cenário exige uma atuação simultânea no desenvolvimento de lideranças negras e na transformação das práticas corporativa.
Luciene Rodrigues, gerente de Relações Institucionais e Comunicação do Movimento pela Equidade Racial (MOVER)

Luciene Rodrigues, gerente de Relações Institucionais e Comunicação do Movimento pela Equidade Racial (MOVER)

As mulheres negras ocupam menos de 4% dos cargos executivos nas grandes empresas brasileiras, apesar de representarem cerca de 29% da população do país. A discrepância, apontada por pesquisas recentes, evidencia que a presença desse grupo nos espaços de decisão ainda está muito distante da realidade demográfica brasileira.

O cenário ganha ainda mais relevância neste 25 de julho, quando é celebrado o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, data que reforça o debate sobre equidade racial e de gênero no mercado de trabalho.

Para Luciene Rodrigues, gerente de Relações Institucionais e Comunicação do Movimento pela Equidade Racial (MOVER), a disparidade não decorre da falta de profissionais qualificadas, mas das barreiras que ainda dificultam o acesso das mulheres negras aos espaços de poder. “Essa transformação depende de um compromisso contínuo das organizações em ampliar oportunidades ao longo de toda a jornada profissional”, afirma.

Segundo a especialista, reduzir essa distância exige uma atuação simultânea no desenvolvimento de lideranças negras e na transformação das práticas corporativas. Ela defende que as empresas adotem processos de sucessão mais equitativos, fortaleçam mecanismos de desenvolvimento profissional e criem oportunidades concretas para que essas mulheres avancem na carreira e ocupem posições estratégicas.

Leia também: Uma epidemia de desigualdade

Maioria na força de trabalho, minoria na liderança

Os números reforçam a avaliação de Luciene. Um levantamento do Instituto Ethos, publicado em 2024, aponta que apenas 3,4% dos cargos executivos nas maiores empresas brasileiras são ocupados por mulheres negras. Nos conselhos de administração, a participação cai para 1,8%, enquanto 57% das executivas negras afirmam ser a única liderança feminina negra na empresa onde atuam, evidenciando o isolamento dessas profissionais nos espaços de decisão.

O cenário contrasta com a participação das mulheres negras no mercado de trabalho. Dados do DIEESE, com base na PNAD Contínua do IBGE referente ao segundo trimestre de 2025, mostram que 23,9 milhões de mulheres negras estão ocupadas, formando o maior grupo feminino da força de trabalho brasileira.

Apesar dessa presença expressiva, elas seguem concentradas nas ocupações mais vulneráveis. A taxa de desocupação entre mulheres negras é de 8%, acima da média nacional de 5,8%, enquanto 42% trabalham na informalidade. O rendimento médio mensal é de R$ 2.264, valor 38,7% inferior ao recebido por mulheres não negras e 53,2% menor que o rendimento dos homens não negros.

Mesmo quando conseguem alcançar cargos de gerência e diretoria, a desigualdade permanece. Dados apresentados pelo MOVER mostram que profissionais negros nessas funções recebem, em média, 34% menos do que gerentes e diretores brancos. No Executivo Federal, mulheres negras e pardas ocupam aproximadamente 15% dos cargos de maior hierarquia.

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Qualificação não é garantia de ascensão

Na avaliação de Luciene, o interesse crescente pela qualificação demonstra que existe uma ampla oferta de talentos preparados para assumir funções estratégicas. Dados do MOVER mostram que 59% das inscrições em bolsas de estudo oferecidas pela entidade são realizadas por mulheres negras, evidenciando a busca por formação e desenvolvimento profissional.

Ainda assim, ela ressalta que qualificação, por si só, não garante acesso à liderança. “Quando não existem oportunidades concretas de crescimento, processos de sucessão estruturados e reconhecimento desses talentos, a qualificação deixa de se converter em representatividade na liderança”, afirma. Segundo a especialista, acelerar trajetórias profissionais depende também do compromisso das empresas em criar condições para que esses talentos sejam efetivamente promovidos.

Da diversidade à mudança estrutural

Para a gerente do MOVER, as iniciativas de diversidade precisam evoluir para políticas permanentes de desenvolvimento de carreira. Isso significa estabelecer metas, acompanhar indicadores e adotar uma abordagem interseccional que fortaleça a presença de mulheres negras nos cargos de liderança, além de investir continuamente em educação, empreendedorismo e formação de lideranças.

Luciene afirma que ampliar a diversidade nos espaços de decisão depende de um compromisso contínuo das organizações em reconhecer e potencializar talentos ao longo de toda a jornada profissional. Na avaliação dela, somente com trajetórias reais de crescimento será possível transformar os avanços da agenda de inclusão em resultados concretos para a liderança corporativa.

Desigualdades se acumulam ao longo da trajetória

Os desafios enfrentados pelas mulheres negras na carreira também refletem desigualdades históricas. Pesquisa encomendada pelo MOVER e pelo Movimento Mulher 360 mostrou que 92% da população reconhece a existência de racismo no Brasil. Entre as mulheres, 63% relatam já ter sofrido discriminação de gênero ou ter familiares que passaram por essa situação, sendo que metade afirma ter vivenciado esse tipo de discriminação no ambiente de trabalho.

Neste 25 de julho, os indicadores mostram que a discussão sobre a presença das mulheres negras no mercado de trabalho ultrapassa a questão do acesso ao emprego.

O grande desafio é garantir que elas tenham oportunidades reais de ascensão profissional e ocupem, em proporção muito maior, os espaços onde são tomadas as principais decisões nas empresas e no setor público.

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