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Automação muda escala, custos e perfil do trabalho na medicina diagnóstica
Publicado 01/10/2026 • 13:00 | Atualizado há 6 horas
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Publicado 01/10/2026 • 13:00 | Atualizado há 6 horas
Magnific
A medicina diagnóstica brasileira está passando por uma transformação que vai muito além da substituição de equipamentos. Automação em larga escala, processamento regional de exames, redução de etapas manuais e contratos que evitam a imobilização de capital começam a alterar a estrutura econômica dos grandes laboratórios e também o perfil dos profissionais que trabalham no setor.
Um exemplo desse movimento é o novo Núcleo Técnico-Operacional (NTO) da Dasa, inaugurado esta semana em Brasília. Com 4.500 metros quadrados e capacidade inicial para processar 2,4 milhões de exames, a estrutura poderá chegar a 5 milhões sem necessidade de novas obras. A unidade será referência para parte das operações da companhia no Centro-Oeste, Norte e Nordeste e deverá atender mais de 400 municípios e mais de 2 milhões de pacientes por ano.
Mais de 95% dos cerca de 6 mil exames do portfólio da Dasa poderão ser processados localmente. Na prática, isso reduz a necessidade de transportar amostras para outros centros, uma etapa relevante não apenas para o prazo de entrega dos resultados, mas também para a qualidade do processo.
Estudos mostram que a fase pré-analítica, que envolve etapas como coleta, identificação, armazenamento, manuseio e transporte das amostras, concentra a maior parte dos erros encontrados no processo laboratorial. Por isso, reduzir deslocamentos e intervenções manuais tornou-se parte importante da estratégia dos grandes centros de diagnóstico.
“A principal mudança é trazer para mais perto dos mercados atendidos uma capacidade de processamento que antes dependia mais de outras estruturas”, afirma Leonardo Vedolin, vice-presidente da Área Médica da Dasa. Segundo ele, a descentralização reduz etapas logísticas e riscos relacionados ao transporte e à manipulação das amostras, além de aumentar a previsibilidade na liberação dos resultados.
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Brasília faz parte de um projeto mais amplo. A Dasa está renovando 18 Núcleos Técnico-Operacionais e prevê a instalação de mais de 400 equipamentos de alta performance até o início de 2027, em contratos com empresas como Roche, Abbott e Beckman Coulter.
O modelo econômico escolhido ajuda a explicar uma mudança importante no setor. Em vez de comprar equipamentos de alto valor e assumir sua depreciação e obsolescência tecnológica, os contratos preveem locação das máquinas e aquisição de reagentes dos fornecedores. Dessa maneira, parte do investimento deixa de ser capital imobilizado, enquanto os contratos garantem atualização tecnológica ao longo do tempo.
“O retorno esperado está principalmente em produtividade, eficiência e previsibilidade operacional”, explica Vedolin. “A nova arquitetura permite processar volumes maiores com menor intervenção manual, reduzir a complexidade das operações e trabalhar com uma base tecnológica mais uniforme.”
Para os fornecedores, o formato também altera a relação comercial. Em vez da venda pontual de máquinas, surgem contratos de longo prazo associados ao volume de exames processados. Segundo Ana Tuñón Orrico, diretora Comercial da Roche Diagnóstica Brasil, esse modelo tornou-se comum nas grandes parcerias do setor por combinar previsibilidade orçamentária com atualização tecnológica. No projeto firmado com a Dasa, de acordo com a executiva, a Roche passará a responder por 67% da operação abrangida pela parceria.
O movimento ocorre em um mercado de grandes volumes. Dados divulgados pela Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) mostram que suas empresas associadas realizaram aproximadamente 1,13 bilhão de exames em 2025, dos quais 93,2% foram análises clínicas. As associadas investiram R$ 933,4 milhões no período em expansão, infraestrutura e atualização tecnológica.
O ganho de produtividade, entretanto, não se resume ao número de exames realizados por hora. A automação começa a modificar também o tipo de trabalho realizado dentro dos laboratórios.
“A automação muda principalmente a composição do trabalho. Atividades repetitivas e operacionais passam a ser realizadas pelos sistemas, permitindo que as pessoas estejam concentradas em funções de maior complexidade, como gestão dos processos, controle de qualidade, análise de desvios e interação com os demais elos da cadeia diagnóstica”, afirma Vedolin.
Segundo o executivo, a tendência é de redução das tarefas manuais e repetitivas e aumento da procura por profissionais preparados para trabalhar com tecnologia, dados, gestão e qualidade.
A mudança ganha relevância diante da dimensão da força de trabalho do setor. Segundo a Abramed, suas associadas empregam mais de 91 mil pessoas, aproximadamente 80% delas em áreas técnicas e operacionais.
Ao mesmo tempo, a capacidade instalada abre novas possibilidades de receita. O NTO de Brasília deverá prestar serviços para mais de mil empresas por meio da Alvaro Apoio, braço da Dasa voltado ao apoio laboratorial, com possibilidade de chegar a 1.200 clientes. A estratégia combina aumento do volume próprio, exames de maior complexidade e utilização da infraestrutura para atender outros laboratórios.
A próxima etapa dessa transformação deverá ocorrer menos no volume e mais na sofisticação dos exames. Genética, biologia molecular, inteligência artificial e novos biomarcadores estão ampliando a quantidade de informações que podem ser obtidas a partir de uma amostra.
Para Ana Tuñón, quatro frentes deverão ter impacto relevante nos próximos anos: sequenciamento genético de nova geração, biomarcadores para doenças neurológicas e câncer, patologia digital associada à inteligência artificial e tecnologias destinadas a reduzir o consumo de água, energia e reagentes nos laboratórios.
Um sinal dessa aceleração veio do sequenciamento genético. Em 2025, Broad Clinical Labs, Roche Sequencing Solutions e Boston Children’s Hospital estabeleceram um recorde reconhecido pelo Guinness
World Records ao sequenciar DNA em 3 horas, 58 minutos e 59 segundos. A marca não representa o tempo rotineiro de um exame clínico, mas mostra a velocidade do desenvolvimento tecnológico na área.
Outra mudança já começa a chegar à prática clínica: biomarcadores sanguíneos relacionados à doença de Alzheimer, capazes de auxiliar na investigação de alterações associadas à doença por meio de uma coleta de sangue.
Nesse cenário, o laboratório que durante décadas funcionou essencialmente como uma estrutura de processamento de amostras começa a assumir outra configuração. O crescimento continua dependendo de escala, mas passa cada vez mais por automação, dados, medicina de precisão e capacidade de incorporar rapidamente novos testes. O NTO de Brasília é uma peça desse movimento maior: produzir mais exames é importante, mas o próximo desafio da medicina diagnóstica será produzir mais informação, com menos etapas, maior precisão e em menor tempo. Alexandre Hercules é editor-chefe da Brazil Health
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