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Escutar bem diminui o cansaço mental e turbina sua produtividade

Publicado 08/10/2026 • 14:00 | Atualizado há 3 horas

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Brazil Health

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Você já terminou o dia se sentindo exausto, como se o cérebro tivesse trabalhado mais do que seria natural para entender as pessoas? Ou percebeu que todos ouviram as mesmas palavras em uma reunião, mas saíram com interpretações diferentes? Saiba que nem sempre isso é falta de atenção ou desinteresse.

Ouvir não é o mesmo que escutar

Ouvir começa quando o som chega à orelha. Escutar acontece quando esse som chega ao cérebro, e ele seleciona o que importa, separa a voz dos ruídos, reconhece as palavras, interpreta seu significado e mantém tudo isso na memória. Apesar de complexo, é um processo muito rápido, que acontece em uma fração de segundo. E só depois disso conseguimos formular uma resposta ou decidir que não vamos responder.

Quando a fala chega até nós com uma qualidade audível, em um ambiente favorável, esse processamento costuma ser mais eficiente. Mas a realidade tende a ser diferente: são conversas paralelas, conexões virtuais instáveis, áudios comprimidos, pessoas falando longe do microfone... quase uma maratona auditiva. E, para preencher o que não foi bem percebido, o cérebro vai gastar mais energia, demandando mais atenção e memória de trabalho. Esse custo é invisível, mas existe e cobra um preço neurocognitivo.

O que é o esforço auditivo e por que ele cansa tanto

A moeda em questão é chamada, pela ciência, de esforço auditivo. Significa quanta energia e recursos mentais você precisa gastar para compreender uma mensagem que ouviu em condições desafiadoras.

Isso ajuda a explicar por que horas de videoconferências, reuniões em ambientes ruidosos, telefonemas ou conversas cheias de interrupções podem produzir tanto cansaço. A pessoa até pode ter entendido tudo o que foi dito, mas teve um desgaste energético maior do que se estivesse em uma condição silenciosa. E o impacto na produtividade é inevitável: se o cérebro emprega quase toda a bateria para decodificar o áudio, sobra menos energia mental para analisar dados, ter ideias criativas ou captar as nuances da conversa.

Esse ponto é especialmente relevante no ambiente de trabalho. O barulho ao fundo não é apenas poluição sonora, é ruído com significado disputando espaço na sua mente. Essa briga atencional impacta o raciocínio, gera erros muitas vezes evitáveis, retrabalhos desnecessários e desconfortos nas equipes. Quem capta só uma parte da orientação acaba preenchendo o resto com o que "acha" que ouviu.

O problema não se resolve pedindo às pessoas que "prestem mais atenção". A escuta depende da interação entre audição e cognição e varia de acordo com diversos fatores, que vão desde as condições acústicas e a qualidade do sinal até elementos como o sono, o estresse, o envelhecimento e a saúde

auditiva. E vale lembrar que uma pessoa pode ter um exame de audição impecável e, mesmo assim, sofrer para acompanhar uma conversa em lugares barulhentos.

Como reduzir o custo da escuta no dia a dia

Essa discussão ganha um peso ainda maior quando olhamos para a saúde do cérebro. Estudos da Comissão The Lancet colocam a perda auditiva não tratada como um dos principais fatores de risco modificáveis para o declínio cognitivo e demências. Isso não significa que toda dificuldade para escutar leve a problemas neurodegenerativos, nem que cuidar da audição seja uma garantia contra eles. Significa que cuidar da audição hoje é também proteger o cérebro e as relações sociais ao longo da vida.

Para reduzir esse custo da escuta no dia a dia, existem ajustes simples e práticos. Nas empresas, isso inclui melhorar a acústica dos escritórios, usar fones com atenuação de ruído e microfones adequados, facilitar a organização de turnos de fala em reuniões por meio de pautas, além de prever intervalos. No plano individual, vale reduzir distrações, posicionar-se perto de quem fala e procurar um fonoaudiólogo quando entender as conversas começar a parecer uma tarefa exaustiva.

Passamos muito tempo investindo em ensinar executivos, líderes e seus colaboradores a falarem melhor – o que continua importante. Que tal, agora, desenvolver também a outra ponta? Afinal, comunicação não é o que você diz, mas sim o que o outro entende. E escutar é uma competência cerebral, comunicativa e estratégica que pode ser treinada, inclusive com recursos validados cientificamente.

Quando criamos melhores condições para a escuta, poupamos esforço, favorecemos decisões mais conscientes e abrimos espaço para relações mais claras e humanas. Em um mundo cada vez mais ruidoso, escutar bem pode ser uma forma de pensar melhor.

Ingrid Gielow - CRFa 2-5270

Fonoaudióloga

Presidente da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia e Sócia Fundadora da ProBrain

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