Siga o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC no
Liderar no caos: como pensar quando o mundo não dá trégua
Publicado 16/07/2025 • 18:44 | Atualizado há 2 meses
CEO da Nvidia, Jensen Huang, diz que levar chip de IA Blackwell para a China ‘é uma possibilidade real’
Por dentro da luxuosa cobertura de US$ 17 milhões de Luta de Classes, filme de Spike Lee
Movimento global para proteger crianças de crimes na internet impulsiona onda de tecnologias de segurança em IA
Saiba quais são as tarifas de Trump que podem ser anuladas — e as que permanecem — após a decisão da justiça dos EUA
China e Índia buscam estabilidade: líderes discutem fronteira e parcerias após confrontos
Publicado 16/07/2025 • 18:44 | Atualizado há 2 meses
KEY POINTS
A maioria das pessoas pensa que líderes dormem bem. Afinal, estão no topo, com poder, bônus e bons imóveis. Mas essa é uma fantasia conveniente — uma projeção confortável para quem não vive o peso das decisões. Muitos dos líderes mais bem-sucedidos que conheço — e talvez você também — compartilham um traço comum: não conseguem dormir. Acordam às 3h da manhã, olhos abertos, mente em rotação acelerada. Um silêncio cheio de vozes.
O que os mantém acordados? Não é apenas o volume de trabalho. Nem a próxima entrega do quarter. É a incerteza — e o modo como a incerteza os atravessa.
Liderar no caos não significa apenas gerir imprevistos ou tomar decisões sob pressão. Significa ocupar um espaço onde o solo parece desaparecer a cada passo. É atuar num cenário de colapsos parciais, de promessas instáveis, de informações contraditórias.
O caos de que falamos aqui não é ruído momentâneo, mas a nova gramática do mundo: acelerada, imprevisível, ambígua. Um ambiente onde não há trilhas testadas — só a ousadia de criar caminhos enquanto se anda.
Nesse contexto, liderar exige mais do que competência técnica. Exige uma potência psíquica rara: a de permanecer presente mesmo quando tudo em volta convida à fuga, ao automatismo ou ao negacionismo. É uma forma de vigilância afetiva, de lucidez expandida. Liderar no caos é, paradoxalmente, aprender a agir sem a ilusão de controle, pensar sem a compulsão por certeza e decidir sem garantias de acerto.
Como escreveu Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos — e o que é líquido escapa, escorre, desmancha nas mãos. A liderança, nesse contexto, deixa de ser o exercício da previsibilidade e passa a ser uma travessia no incerto. Não se trata mais de controlar o caos, mas de aprender a habitá-lo sem se dissolver.
Leia mais
Ver além: Platão, a caverna e o despertar da liderança
“A coragem de ter medo”: por que os melhores líderes assumem sua vulnerabilidade
Liderar, então, é encarar decisões para as quais não há respostas corretas, apenas consequências possíveis. É sustentar a tensão de escolhas cujos efeitos são, por definição, desconhecidos. E é nesse intervalo — entre o que sabemos e o que precisamos decidir — que nasce a ansiedade silenciosa que CEOs raramente compartilham.
Edgar Morin nos lembra que a complexidade não é um obstáculo à razão, mas sua extensão legítima. O problema surge quando os líderes tentam reduzir o complexo ao simples, o contraditório ao binário, o incerto ao planejado. A sabedoria, nesse caso, não está em ter certezas — mas em tolerar a ambivalência e, ainda assim, seguir em frente com discernimento.
A preocupação, diferentemente do estresse físico, não se dissipa com descanso. Ela retorna. É uma produção mental incessante, onde o sujeito gira em torno de representações que não se organizam — apenas se repetem. É como se o pensamento se tornasse prisioneiro de um circuito fechado. O corpo até tenta dormir, mas a psique insiste em vigiar.
É nesse ponto que entra a capacidade de metabolizar a experiência — uma habilidade fundamental de pensar sobre os próprios afetos e pensamentos, de simbolizar o que nos atravessa. Essa elaboração psíquica ativa permite que o sujeito produza sentido, em vez de permanecer prisioneiro de um mal-estar difuso. Quando essa capacidade falha, o que temos é descarga, impulsividade ou bloqueio. Quando ela opera, é possível nomear, elaborar e transformar.
Uma das formas mais eficazes de ativar essa elaboração psíquica ativa é pela escrita — não a escrita burocrática ou técnica, mas a que funciona como espelho interno. Quando o líder transforma suas angústias em palavras, ele deixa de apenas sentir e passa a simbolizar. A escrita, nesse caso, não serve para registrar fatos, mas para organizar sentidos. Não se trata de fazer uma lista de problemas, e sim de revelar o que se move por trás das decisões. “Estou preocupado com o desempenho da equipe” pode conter, na verdade: “Tenho medo de fracassar diante do board” ou ainda: “Sinto que estou sozinho nessa travessia.”
Ao tentar decifrar o que antes era apenas ruído emocional, o líder cria espaço interno para pensar com mais clareza. A incerteza continua ali — mas agora pode ser minimamente enxergada de frente, não apenas sentida nas entrelinhas da ansiedade.
Escreva o que ainda não tem forma. Dê nome ao que te atravessa. E observe: a lucidez começa onde a linguagem alcança o afeto.
Você escreve:
“O clima da equipe piorou.”
Mas à medida que as palavras se desdobram, você percebe que a frase real é outra:
“Tenho evitado conversas difíceis porque não sei mais se confiam em mim.”
E, indo ainda mais fundo:
“Talvez eu mesmo tenha deixado de confiar em mim como líder.”
É nesse ponto — quando a escrita se torna travessia e não protocolo — que algo se transforma. O que antes era um ruído interno se torna um contorno psíquico. O mal-estar que parecia vago se traduz em um conjunto de significantes — e, com isso, pode tornar-se compreensível e manejável.
Escrever não resolve. Mas revela. E, ao revelar, reposiciona o sujeito diante de si mesmo e do caos que precisa liderar.
A capacidade de permanecer em pensamento mesmo enquanto se é atravessado pelo sentir nos permite um segundo gesto: enfrentar, com consistência emocional, os cenários possíveis. O líder pode imaginar o pior desfecho, sem se fundir com ele. Pode considerar o melhor, sem se iludir. E, sobretudo, pode trabalhar com o provável, tomando decisões conscientes do risco, mas sem paralisia.
Ao pensar: “o que é o pior que pode acontecer?”, o líder abre espaço para enfrentar o medo real, e não sua versão fantasmática. Ao se perguntar: “o que farei se isso acontecer?”, começa a elaborar respostas, e não apenas reagir ao que ainda nem aconteceu. Esse processo não elimina o medo — mas permite que ele seja metabolizado. A ansiedade cede espaço à estratégia.
É isso que diferencia a liderança simbólica da liderança defensiva. A primeira encara o desconhecido e o nomeia. A segunda transforma o medo de decidir em estratégia de defesa: racionaliza em excesso, controla obsessivamente e se refugia nas tarefas que não ameaçam.
Como lembra Morin, o pensamento linear é tentador — mas ineficaz diante de sistemas instáveis. A gestão do imprevisível exige líderes que pensam em espiral: voltam, aprofundam, ressignificam, antes de agir. Isso é muito diferente de paralisia. É pensamento estratégico com dimensão existencial.
A má notícia é que a incerteza não vai desaparecer. A boa notícia é que ela pode se tornar menos paralisante. CEOs não são pagos para eliminar riscos, mas para decidir diante deles. E isso exige uma maturidade psíquica que não aparece nos dashboards: a capacidade de pensar-se a si mesmo em meio à tensão.
A elaboração psíquica ativa é, portanto, um recurso invisível, mas decisivo. Ela permite que o líder se escute — e, ao se escutar, escute melhor o contexto, a equipe, os sinais fracos do mercado. Um líder que se torna íntimo de sua dúvida não se torna mais frágil. Torna-se mais verdadeiro. E, por isso mesmo, mais confiável.
Liderar é tolerar o vazio sem preenchê-lo de respostas fáceis. E é exatamente nesse vazio — quando suportado com pensamento e coragem — que a transformação começa a ganhar forma.
Liderar é viver à beira do desconhecido. Mas é justamente aí, onde os outros hesitam, que os verdadeiros líderes se constroem.
--
📌 ONDE ASSISTIR AO MAIOR CANAL DE NEGÓCIOS DO MUNDO NO BRASIL:
🔷 Canal 562 ClaroTV+ | Canal 562 Sky | Canal 592 Vivo | Canal 187 Oi | Operadoras regionais
🔷 TV SINAL ABERTO: parabólicas canal 562
🔷 ONLINE: www.timesbrasil.com.br | YouTube
🔷 FAST Channels: Samsung TV Plus, LG Channels, TCL Channels, Pluto TV, Roku, Soul TV, Zapping | Novos Streamings
Mais lidas
Entenda como vai funcionar a nova linha de crédito de R$ 12 bi para modernização da indústria
Banco Genial renuncia a fundo citado em operação na Faria Lima
Meta remove 10 milhões de perfis no Facebook para combater spam
Ibovespa B3 sobe mais de 1% e volta aos 139 mil pontos, com bancos em destaque; dólar permanece estável
Mercado de reposição hormonal cresce com alta demanda entre executivos, mas enfrenta desafios regulatórios, diz nutróloga