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Redesenho silencioso: como a IA está reconfigurando a autoridade nas organizações para um novo ciclo de liderança
Publicado 10/07/2025 • 22:25 | Atualizado há 10 meses
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Publicado 10/07/2025 • 22:25 | Atualizado há 10 meses
Pixabay.
Como a IA está reconfigurando a autoridade nas organizações para um novo ciclo de liderança.
Pouco mais de dois anos se passaram desde que o ChatGPT foi lançado ao público. De lá para cá, vimos tarefas repetitivas sumirem dos to-do lists, relatórios se escreverem quase sozinhos e assistentes digitais operarem com precisão estonteante. Mas a pergunta que agora desafia as lideranças não é mais se a IA vai mudar o trabalho — mas quem será mais transformado por ela.
Um estudo recém-publicado por Manuel Hoffmann, professor da Harvard Business School, lança luz sobre uma das figuras mais emblemáticas do organograma corporativo: o gestor intermediário. Segundo a pesquisa, que acompanhou mais de 50 mil desenvolvedores de software em uma análise longitudinal entre 2022 e 2024, a IA generativa não está apenas acelerando tarefas — ela está esvaziando funções tipicamente gerenciais, deslocando poder e autonomia para as pontas da organização.
O estudo observou o uso da IA generativa no GitHub Copilot. Desenvolvedores que utilizaram a ferramenta reduziram em 10% suas atividades relacionadas à gestão de projetos e aumentaram em 5% o tempo dedicado ao "core work" — no caso, codificação.
Esse deslocamento tem duas explicações-chave:
Como observa Hoffmann, essa mudança silenciosa pode levar a uma "horizontalização funcional" das empresas. Ou seja, estruturas antes hierárquicas começam a se comportar como redes colaborativas. E isso nos obriga a rever não apenas o desenho dos cargos, mas o próprio sentido da autoridade.
Zygmunt Bauman já alertava: em tempos líquidos, estruturas rígidas se tornam frágeis. A IA generativa acelera esse processo. Funções e fronteiras antes estáveis — como a do gestor que coordena e do analista que executa — estão se dissolvendo em uma nova ecologia do trabalho, onde a inteligência se distribui por máquinas, sistemas e pessoas.
Para Edgar Morin, compreender sistemas complexos exige pensamento complexo. Não basta otimizar processos — é preciso reconfigurar o sentido. A função gerencial, que antes servia como eixo de controle, agora precisa se transformar em núcleo de vinculação simbólica, algo que René Kaës descreve como o papel de manter coeso o espaço psíquico comum de um grupo.
Eugène Enriquez nos adverte que toda autoridade organizacional se apoia não apenas em competências objetivas, mas nas investiduras inconscientes que os coletivos projetam sobre aqueles que ocupam posições de liderança. O líder não é apenas um executor de tarefas ou um detentor de expertise — ele encarna expectativas, medos e esperanças do grupo. Quando a IA começa a ocupar o lugar da autoridade técnica, aquilo que permanece para o gestor humano não é um resíduo, mas sim o coração simbólico da liderança: sustentar a confiança em tempos incertos, manter coeso o vínculo grupal e representar, no imaginário coletivo, uma promessa de futuro compartilhado.
O estudo de Hoffmann mostra que os ganhos mais expressivos vieram de profissionais menos experientes, que passaram a entregar mais com o apoio da IA. Isso libera os gestores da tarefa de tutoria constante e os reposiciona como articuladores de transformação.
Mas o impacto não para aí. Segundo Edwige Sacco, diretora de Inovação da Força de Trabalho da KPMG, a IA também está empoderando associados a ocuparem espaços antes restritos a gestores. A nova geração chega às reuniões já munida de análises, simulações e estratégias, ampliando a exigência de repertório e maturidade — não apenas técnica, mas também simbólica.
Muitos líderes no Brasil ainda veem a IA como uma promessa distante ou como mera ferramenta de produtividade. Mas os dados revelam que a verdadeira revolução não está no fim das tarefas — está na redistribuição das funções, dos vínculos e dos sentidos de pertencimento.
A pergunta que cada CEO e diretor deveria se fazer hoje não é:
“Como posso usar IA para ganhar eficiência?”,
mas sim:
“Quais papéis estão sendo silenciosamente esvaziados? Quais sentidos organizacionais estão sendo deslocados?”
O futuro da gestão intermediária talvez não seja o desaparecimento, mas a mutação. E os líderes que compreenderem esse fenômeno com a complexidade que ele exige — emocional, técnica e simbólica — estarão mais bem posicionados para inaugurar um novo ciclo de protagonismo humano em meio ao poder crescente dos algoritmos.
Fonte de referência: “How AI Is Redefining Managerial Roles”, artigo publicado na edição de julho-agosto de 2025 da Harvard Business Review, por Manuel Hoffmann et al.
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