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Guerras com o Irã: Israel quer segurança, EUA querem hegemonia — e o mundo está sendo arrastado
Publicado 05/03/2026 • 17:53 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 05/03/2026 • 17:53 | Atualizado há 2 horas
Produção/Times Brasil
Os EUA podem enviar tropas terrestres ao Irã?
Para Israel, a equação é existencial. Décadas de ataques por procuração patrocinados por Teerã deixaram cicatrizes profundas: o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen, as milícias xiitas na Síria e no Iraque. Todos financiados, armados e treinados pelo regime dos aiatolás. Para o estado judaico, o Irã nunca precisou disparar um único míssil diretamente para fazer Israel sangrar. A guerra indireta funcionou bem por décadas — até os grupos terroristas serem mais duramente reprimidos.
Mas há uma linha vermelha que Israel nunca toleraria cruzar: o Irã com armas nucleares. Uma ogiva apontada para Tel Aviv não é uma ameaça abstrata. É uma questão de sobrevivência nacional. Por isso, os bombardeios israelenses miraram instalações ligadas ao programa nuclear iraniano, além de lideranças militares e políticas do regime. Israel quer garantias de segurança, não discursos diplomáticos.
Os Estados Unidos chegaram à mesma guerra com outra bússola. Washington não ignora as ameaças iranianas ao Oriente Médio, mas seu cálculo é mais frio e abrangente. Em 28 de fevereiro, os EUA e Israel lançaram uma grande ofensiva contra o Irã, com Trump declarando que o objetivo era impedir que o Irã obtivesse uma arma nuclear e "defender o povo americano eliminando ameaças iminentes do regime iraniano”. O Irã detém a terceira maior reserva de petróleo do mundo. E boa parte desse combustível abastece a China — principal rival estratégico dos EUA neste século. Enfraquecer o Irã é, em grande medida, apertar o torniquete econômico sobre Pequim.
Há, ainda, a dimensão monetária. O dólar ainda é a moeda de reserva global, e o petróleo ainda é precificado em dólares. Qualquer ameaça a esse arranjo — seja via acordos bilaterais Irã-China em yuans, seja via alianças com a Rússia — é encarada em Washington como uma ameaça à própria arquitetura do poder americano.
Os ataques fizeram vítimas. A operação começou com ataques conjuntos nas cidades de Teerã, Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah, incluindo o assassinato de Ali Khamenei. Mas o regime sobrevive. O cargo do Líder Supremo foi reposto. O secretário de Defesa americano Pete Hegseth classificou os ataques como "não uma guerra de mudança de regime". No mesmo discurso, o Pentágono acrescentou que "o regime certamente mudou". Não há, de fato, troca de regime no horizonte — apenas uma transição de poder dentro do mesmo sistema. Resumidamente: a ditadura iraniana segue. E a pressão contra opositores, também.
O que começou como uma operação cirúrgica rapidamente se transformou em conflagração regional. Em retaliação, o Irã lançou mísseis e drones contra bases dos EUA no Bahrein, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos. O resultado foi devastador para países que nada tinham declarado contra Teerã: os ataques iranianos atingiram territórios soberanos, colocaram populações civis em risco e danificaram infraestrutura civil no Bahrein, Iraque, Jordânia, Kuwait, Omã, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Vários desses países são signatários dos Acordos de Abraão — os históricos tratados de normalização com Israel firmados em 2020. Os Emirados Árabes, que aderiram ao plano na mesma época, viram suas relações com o Irã se deteriorarem progressivamente desde então. Ao bombardeá-los indiscriminadamente, o Irã acelerou o próprio isolamento no mundo árabe. Países que tentavam manter equilíbrio entre Teerã e Tel Aviv foram empurrados para o campo ocidental com mais força ainda.
A Europa respondeu de forma fragmentada. França, Alemanha e Reino Unido emitiram uma declaração conjunta enfatizando que pressionavam há muito tempo o Irã a encerrar seu programa nuclear, cessar ações desestabilizadoras na região e parar com a repressão à própria população — mas deixaram claro que nenhum dos três participou dos ataques.
À medida que o Irã reagiu bombardeando aliados ocidentais, o tom mudou. A França declarou "pleno apoio e solidariedade completa" com os países aliados atingidos pelos mísseis iranianos — Arábia Saudita, Emirados Árabes, Qatar, Iraque, Bahrein, Kuwait, Omã e Jordânia — e sinalizou disposição para participar de sua defesa. O Reino Unido, que inicialmente também havia se recusado a permitir o uso de suas bases para o ataque ao Irã, autorizou seu uso para "defesa coletiva" após os contra-ataques iranianos atingirem aliados ocidentais no Oriente Médio.
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A grande exceção foi a Espanha. Madri recusou-se a permitir que os EUA utilizassem suas bases militares para missões ligadas aos ataques ao Irã, levando Trump a anunciar o corte de todas as relações comerciais com o país. O primeiro-ministro Pedro Sánchez resumiu a posição do seu governo em três palavras: "Não à guerra." Sánchez evocou o trauma da Guerra do Iraque — quando a participação espanhola foi associada aos atentados de Madri de 2004, que mataram quase 200 pessoas — e advertiu: "Não podemos responder a uma ilegalidade com outra."
E é aqui que as agendas de Israel e dos EUA continuam a se separar. Israel busca uma solução de segurança: neutralizar ameaças militares concretas às suas fronteiras e garantir que ogivas nucleares nunca apontem para sua população. Os EUA buscam uma solução geopolítica de longo prazo: redesenhar o equilíbrio de poder no Oriente Médio de forma que favoreça a contenção da China e preserve a hegemonia do dólar.
O Irã, por sua vez, ao ampliar seus ataques a países neutros e aliados dos Acordos de Abraão, pode ter cometido o maior erro estratégico do conflito — empurrando para o lado oposto exatamente os atores que tentava dissuadir de entrar na guerra.
Dois aliados. Uma guerra. Dois objetivos. E um mundo cada vez menos capaz de ficar de fora. A história dirá qual dos dois conseguiu o que queria — ou se nenhum dos dois conseguiu coisa alguma.
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