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Eleições de 2026 reorganizam forças políticas e expõem desgaste da polarização, diz Fabiano Rosa
Publicado 05/10/2026 • 15:33 | Atualizado há 52 minutos
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Publicado 05/10/2026 • 15:33 | Atualizado há 52 minutos
KEY POINTS
O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, realizado no domingo (04), abriu uma nova etapa na disputa pelo Palácio do Planalto e, ao mesmo tempo, expôs mudanças mais amplas na composição das forças políticas brasileiras. Para o analista Fabiano Rosa, o desempenho das urnas indica não apenas uma alternância possível no comando do país, mas uma transformação na maneira como partidos e lideranças se conectam com o eleitorado.
Flávio Bolsonaro (PL) encerrou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, o equivalente a 56.104.268 votos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu 45,16%, ou 53.876.617 votos. A diferença entre os dois ficou em pouco mais de 2,2 milhões de votos. Eles voltam às urnas no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
O desempenho de Flávio Bolsonaro superou as projeções registradas na reta final da campanha e ocorreu em um cenário de avanço de forças conservadoras também nas eleições para o Congresso e para os governos estaduais.
Leia também: DECISÃO 2026: Onda recorde da direita atropela adversários, conquista poder no Congresso e acende alerta no Supremo
Na avaliação de Rosa, o movimento observado nas urnas deve ser compreendido como parte de uma mudança de ciclo. “Os ciclos políticos acabam tendo transições que são naturais da democracia. Não só no Brasil, como em qualquer país democrático”, afirmou.
Para Rosa, o resultado não representa apenas uma possível substituição de grupos no poder. Ele identifica uma mudança na capacidade dos diferentes campos políticos de compreender e captar as demandas da população.
“Nós estamos na presença de uma mudança de ciclo de poder político, mas nós também estamos numa mudança de conectividade, de conexão com os anseios da população”, disse.
Segundo ele, resultados eleitorais precisam ser analisados como uma manifestação concreta das prioridades dos eleitores, mesmo quando essas escolhas contrariam expectativas construídas durante a campanha. “Quando a urna fala, são os interesses, é a visão, é a ideologia, é a filosofia, são os sonhos. As pessoas votam com seus sonhos”, afirmou.
Rosa compara a adesão a um projeto político à relação estabelecida entre consumidores e produtos ou serviços. Na interpretação dele, identificação, confiança, experiências anteriores e percepção de esgotamento de determinadas alternativas influenciam a decisão do eleitor.
Esse processo ajuda, segundo sua análise, a explicar tanto o crescimento de novas forças quanto a perda de espaço de lideranças tradicionais.
A eleição de 2026 também ampliou a presença da direita conservadora em diferentes níveis de poder. Além da liderança de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, PL, Republicanos e aliados tiveram desempenho expressivo em disputas estaduais e legislativas.
No Senado, o campo bolsonarista conquistou parcela relevante das cadeiras em disputa, incluindo vitórias de nomes diretamente ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, como Michelle Bolsonaro, no Distrito Federal, e Carlos Bolsonaro, em Santa Catarina.
Nos estados, um dos resultados de maior peso político ocorreu em São Paulo, onde Tarcísio de Freitas (Republicanos) garantiu a reeleição ainda no primeiro turno, com 62,85% dos votos.
Rosa considera que a articulação entre Republicanos e PL ganhou uma dimensão que ultrapassa uma soma circunstancial de vitórias eleitorais. “Essa é uma aliança conservadora de direita que plasma a nova força política do Brasil”, declarou.
Na avaliação dele, o crescimento dessa coalizão representa uma das alterações mais relevantes no equilíbrio partidário desde a redemocratização, especialmente pela combinação entre desempenho nas eleições estaduais e ampliação de presença no Legislativo.
Outro aspecto destacado por Rosa é a dificuldade enfrentada por lideranças tradicionais para conservar espaço no novo desenho eleitoral. Para ele, a retirada de figuras historicamente influentes do centro das decisões não é um fenômeno isolado. Mudanças desse tipo ocorreram em outros momentos da história política brasileira e fazem parte de processos de renovação do eleitorado.
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Siga o Times | CNBCRosa relaciona o movimento ao esgotamento de determinados grupos e à capacidade de outras forças de ocupar espaços antes controlados por estruturas partidárias mais tradicionais.
Em sua análise, portanto, o resultado de 2026 precisa ser observado não apenas pelo desempenho individual de candidatos, mas pela redistribuição de poder que ocorre simultaneamente na Presidência, nos estados e no Congresso.
Apesar da intensidade da disputa, a eleição também foi marcada por uma elevada ausência de eleitores. Rosa considera a abstenção um dos elementos que exigem atenção na interpretação do resultado.
Para ele, parte desse comportamento pode estar ligada ao prolongamento da polarização política, fenômeno que antecede as eleições recentes e ganhou força ao longo da última década.
Rosa situa um ponto importante desse processo nas manifestações de 2013. A partir dali, segundo sua leitura, a tensão política avançou durante a crise do governo Dilma Rousseff, passou pelo impeachment da então presidente em 2016 e permaneceu presente nos ciclos eleitorais posteriores.
A divisão também encontrou nas redes sociais um ambiente favorável à formação de grupos que consomem informações alinhadas às próprias convicções e têm pouco contato com visões divergentes.
Para Rosa, a combinação desses fatores ajuda a compreender a distância de uma parcela dos cidadãos em relação ao processo eleitoral. “Esses dois pontos me parecem que mostram muito um certo desânimo do eleitorado”, afirmou.
Rosa também relaciona o desengajamento ao conteúdo da campanha presidencial. Em sua avaliação, a disputa foi dominada por confrontos políticos, controvérsias institucionais e acusações, enquanto propostas sobre questões estruturais receberam menos espaço.
“Foi uma campanha sem propostas. Foi uma campanha em que nós não discutimos os reais problemas do Brasil”, disse.
Entre os assuntos que, na visão dele, deveriam ter aparecido com maior profundidade estão desenvolvimento sustentável, exploração de petróleo, transição energética, educação, saúde e segurança pública.
Rosa não desconsidera a relevância de temas relacionados a denúncias de corrupção, investigações e embates envolvendo o Supremo Tribunal Federal. O ponto central de sua análise é que essas discussões ocuparam uma parcela desproporcional do debate eleitoral.
O resultado, segundo ele, foi uma campanha com dificuldades para apresentar ao eleitor diferenças mais claras entre projetos de governo para questões diretamente ligadas à vida cotidiana e ao desenvolvimento do país.
A votação de 04 de outubro deixou Flávio Bolsonaro em vantagem numérica, mas não definiu a eleição presidencial. Lula e o candidato do PL terão três semanas para disputar os eleitores que escolheram outros candidatos, os que votaram em branco ou nulo e aqueles que não compareceram às urnas.
Mais do que a diferença entre os dois presidenciáveis, Rosa considera que o primeiro turno revelou uma reorganização estrutural do sistema político. O crescimento da direita conservadora, o enfraquecimento de lideranças tradicionais e o nível de abstenção formam, em sua leitura, partes de um mesmo processo.
A questão que permanece aberta até 25 de outubro é se essa mudança de correlação de forças também produzirá uma troca de comando no Palácio do Planalto ou se Lula conseguirá reverter a vantagem registrada por Flávio Bolsonaro no primeiro turno.
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