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Eleições 2026

Insatisfação da classe média impulsionou avanço da direita nas urnas, avalia Christopher Garman

Publicado 05/10/2026 • 21:19 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • Christopher Garman atribui resultado eleitoral a uma percepção de estagnação, agravada pelo custo de vida e pelo endividamento das famílias.
  • Diretor da Eurasia avalia que avanço conservador no Congresso e nos estados também refletiu um desejo de mudança entre os eleitores.
  • Novo Congresso tende a impor desafios ao próximo presidente, enquanto ajuste fiscal deve ocupar espaço relevante na agenda econômica.

A sensação de estagnação entre os brasileiros de classe média, alimentada pelo custo de vida e pelo endividamento das famílias, ajuda a explicar o avanço da direita nas eleições de 2026, avaliou Christopher Garman, diretor-executivo da Eurasia para as Américas. Em entrevista nesta segunda-feira (5) ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ele afirmou que esse sentimento já aparecia em pesquisas qualitativas, mas ainda não havia sido totalmente captado pelas intenções de voto.

Para Garman, parte dos eleitores chegou às urnas com a percepção de que, apesar do aumento dos salários, não estava conseguindo melhorar de vida. Esse ambiente, segundo ele, contribuiu para transformar insatisfação econômica em desejo de mudança política.

“O que você escutava de grupos focais é o eleitor dizendo que está trabalhando muito, o salário subiu, mas ele ou ela não está subindo na vida. Reclamação com custo de vida. É claro que o endividamento das famílias também falou e explica parte desse senso de estagnação”, avaliou.

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Segundo Garman, preocupações com corrupção e segurança pública também ganharam peso nesse cenário. Na reta final da campanha, acrescentou, parte do eleitorado acabou migrando para candidaturas associadas à mudança.

“Esse sentimento de estagnação e mudança acabou sendo pano de fundo para que, na reta final da campanha, parte do eleitorado migrasse para um voto de mudança”, explicou.

O diretor da Eurasia considera que houve também alguma subestimação do voto conservador pelas pesquisas eleitorais, mas não atribui o resultado exclusivamente a problemas de mensuração. “Acho que é uma combinação desse pano de fundo junto com erro parcial de mensuração das pesquisas”, disse.

Governadores refletem força da direita e de gestões bem avaliadas

O avanço da direita não ficou restrito à eleição presidencial. Vinte estados definiram seus governadores já no primeiro turno, número que pode chegar a 21 dependendo da definição da disputa no Rio de Janeiro.

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Para Garman, o resultado combina duas forças diferentes: o crescimento das candidaturas conservadoras e a boa avaliação de governos estaduais, que favoreceu tanto reeleições quanto a eleição de sucessores.

“Candidatos mais conservadores acabaram prevalecendo, que isso é uma tendência nacional, mas também tivemos uma eleição em que incumbentes e governos estaduais estavam muito bem avaliados”, destacou.

Segundo ele, governadores com índices elevados de aprovação conseguiram, em grande parte, preservar seu espaço político, ao mesmo tempo em que candidatos conservadores com credibilidade na área de segurança pública ganharam força.

O resultado também atingiu políticos tradicionais que ficaram sem mandato. Na avaliação de Garman, essas derrotas fazem parte de um movimento mais amplo de insatisfação com o status quo, mas não significam necessariamente que todo esse eleitorado tenha aderido ideologicamente às pautas conservadoras.

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“Eu não sei o quanto isso revela que o eleitor em si é mais conservador, alinhado com as pautas de costume da direita. É claro que tem um elemento assim, mas acho que é mais uma classe média realmente insatisfeita. E essa insatisfação foi revelada nas urnas”, ponderou.

Novo Congresso amplia desafio para próximo governo

A nova composição do Congresso também deve interferir diretamente na capacidade de articulação do próximo presidente. O PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, enquanto o campo conservador ganhou peso nas duas Casas.

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Garman avalia que uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixaria o presidente diante de uma relação mais difícil com o Legislativo, especialmente no Senado. Ainda assim, considera possível que haja inicialmente espaço para negociação.

“No início de governo, se o presidente Lula conseguir fazer essa reviravolta, provavelmente teremos um presidente do Senado mais conservador, mas que pelo menos comece com uma disposição de trabalhar com o novo governo”, projetou.

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Na economia, o diretor da Eurasia considera que uma reforma fiscal seria necessária em um eventual novo mandato de Lula, diante do crescimento dos gastos obrigatórios e da dívida pública.

Garman relacionou a forte reação dos ativos nesta segunda-feira às expectativas de mudança na condução fiscal. “A perspectiva de uma reforma fiscal levou o câmbio a apreciar 5%, a Bolsa a valorizar 7%, a curva de juros caiu”, observou.

Caso Lula vença e não apresente medidas nessa direção, Garman avalia que parte desse movimento dos mercados poderia ser revertida, aumentando as dificuldades econômicas e, posteriormente, políticas do governo.

Flávio teria cenário mais favorável no Congresso

Em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL), Garman vê uma configuração parlamentar inicialmente mais confortável. O crescimento da bancada do PL aumentaria a influência do partido e poderia facilitar a aproximação com legendas de centro.

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“Os grandes blocos não mudaram, mas o bloco conservador do PL aumentou. O PL foi o partido que, de longe, tem a maior bancada na Câmara dos Deputados”, ressaltou.

Segundo Garman, partidos de centro teriam incentivos para negociar com um eventual governo Flávio, e o perfil político do senador também poderia favorecer esse movimento. “A postura do senador Flávio Bolsonaro é bem diferente do pai. Ele é um ator político que tem, pelo menos, fama de composição e negociação”, afirmou.

Segundo turno pode exigir mudança na campanha de Lula

Para o segundo turno, Garman avalia que Lula tem maior necessidade de promover mudanças na estratégia eleitoral, enquanto Flávio tende a adotar uma postura destinada a evitar riscos.

Nesse cenário, o vice-presidente Geraldo Alckmin poderia ganhar espaço na campanha petista como instrumento de aproximação com o eleitorado de centro. Para Garman, porém, uma eventual indicação antecipada de Alckmin para o Ministério da Fazenda teria mais impacto sobre o setor empresarial do que diretamente sobre o voto.

“Elevar o Alckmin na campanha é um movimento de tentar projetar o presidente Lula como um governo de transição, que é o último mandato dele, e tentar, no papel de liderança, promover mudanças”, avaliou.

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Na visão de Garman, a campanha petista precisará responder diretamente à insatisfação econômica identificada entre os eleitores, apresentando o que o governo entregou e quais mudanças pretende realizar.

Já do lado de Flávio, o diretor da Eurasia não vê incentivo para antecipar nomes ou propostas econômicas que possam gerar desgaste. “O nome do jogo na campanha do Flávio é não dar nenhuma proposta controversa que possa prejudicar nas pesquisas”, concluiu.

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