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Eleições 2026

DECISÃO 2026: Isonomia da eleição é testada por ‘farra’ de Lula com a máquina pública; Gastômetro chega a R$ 354 bilhões

Publicado 21/10/2026 • 07:52 | Atualizado há 3 horas

KEY POINTS

  • Isonomia da eleição é destruída por pacotes de bondades, e Gastômetro soma R$ 354 bilhões em gastos de Lula
  • Damares propõe até quatro anos de prisão por pacote de bondades, e Novo pede cassação da chapa de Lula e Alckmin no TSE
  • Governo projeta falta de R$ 15,8 bilhões em 2028 para manter políticas, e Flávio promete PEC pelo fim da reeleição
Lula

Foto; AFP

DECISÃO 2026 veja onde Lula perdeu votos no 1º turno

O uso da máquina pública pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026 põe em teste a isonomia entre os candidatos à Presidência. A “farra” com recursos do Estado expôe a falência das regras atuais da legislação eleitoral.

Com a desaprovação do governo acima de 50% e a derrota para Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, o presidente “acionou o orçamento para tentar reverter o quadro político a todo custo”. avaliou a jornalista Roseann Kennedy em análise publicada nesta quarta-feira (21) pelo Estadão.

Segundo a análise, os cofres públicos serviram a “uma espécie de compra de votos institucionalizada e permitida pela falta de travas legais efetivas”.

Por isso, afirma, passou da hora de o Congresso e a população debaterem a atualização da lei eleitoral e o fim da reeleição.

Leia também: DECISÃO 2026: Justiça Eleitoral pode ampliar prazo para pedir transporte especial

Isonomia da disputa cai com anúncios em cada etapa da campanha

Em julho, durante discurso no Rio Grande do Norte, Lula chamou a lei eleitoral de “papagaiada desgraçada”, ao reclamar da proibição de inaugurar obras a partir daquele mês. A legislação também veda doações e o pagamento de emendas parlamentares na véspera da votação.

Ainda assim, é comum que presidentes abram os cofres em ano eleitoral. A diferença em 2026, segundo a análise, está no volume e nas datas.

Duas semanas antes do primeiro turno, Lula concedeu aumento de 15% no Bolsa Família, depois de três anos e meio sem reajuste do principal programa do governo. Pouco mais de uma semana antes da votação, o presidente assinou medida que proíbe as bets, lançou o Desenrola 3.0 e anunciou canetas emagrecedoras no Sistema Único de Saúde (SUS). Já o calendário de pagamento do Bolsa Família foi alterado a menos de uma semana do segundo turno.

Depois que Flávio terminou o primeiro turno na frente, os anúncios se voltaram aos microempreendedores individuais (MEIs), com perdão de dívidas tributárias e promessa de Pix de até R$ 5 mil. A análise lembra ainda o fim da “taxa das blusinhas”, criada pelo próprio presidente. O Planalto nega que as medidas tenham caráter eleitoral.

Gastômetro soma R$ 354 bilhões em créditos, renúncias e programas

Os gastos de Lula para tentar a reeleição atingiram R$ 354 bilhões no terceiro mandato, segundo o Gastômetro, ferramenta lançada pelo jornal para monitorar os desembolsos do governo federal em ano eleitoral.

A maior parte do valor corresponde a programas de crédito e subsídios para setores da economia e categorias específicas, como motoristas de aplicativo e caminhoneiros, além de isenções e financiamentos para a casa própria.

Também entram na conta renúncias de receitas, como a isenção e o desconto do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 7 mil por mês, e programas ampliados, entre eles Bolsa Família, Pé-de-Meia e Gás do Povo. Há ainda despesas com publicidade institucional e iniciativas fora do Orçamento, como modalidades do Desenrola Brasil e o Luz do Povo, gratuidade de energia paga pelos demais consumidores.

No caso dos MEIs, o Executivo deve perdoar R$ 12,86 bilhões em dívidas, valor considerado no Gastômetro. O governo estimou renúncia de R$ 3 bilhões em três anos, considerando o que seria recuperado no período. O Pix depende de outra proposta e só poderá ser implementado a partir de 2027.

Vale notar que o valor muda ao longo do ano, porque algumas despesas são ampliadas aos poucos, como a subvenção da gasolina e do diesel, e novas medidas surgem durante a campanha.

Governo nega uso eleitoral e cita ações contra crime e evasão escolar

Após a divulgação do Gastômetro, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) enviou nota em que considera “descabida e metodologicamente insustentável” a classificação das medidas como gastos para a reeleição.

De acordo com a Secom, as ações servem para manter jovens na escola, combater o crime organizado, proteger empregos e empresas, conter pressões sobre preços e enfrentar calamidades em ano de El Niño forte.

A nota cita o Pé-de-Meia, criado em 2024 contra a evasão escolar, e o Programa Brasil Contra o Crime Organizado, que aparece como benefício social no levantamento. Dos cerca de R$ 11 bilhões associados ao programa, R$ 10 bilhões são linha de crédito para investimentos em segurança, segundo o governo.

Por sua vez, a Secom argumenta que as medidas diante do tarifaço dos Estados Unidos e das pressões sobre combustíveis e energia, provocadas pela guerra no Oriente Médio e pelas tensões no Estreito de Ormuz, buscam preservar empresas, empregos e cadeias produtivas. O governo afirma que governos não deixam de governar em ano de eleição.

Orçamento projeta falta de recursos a partir de 2028

Em documento enviado ao Congresso junto com o Orçamento de 2027, o governo calculou o custo de manter as políticas atuais do Executivo nos próximos quatro anos e comparou o valor com o espaço do teto de gastos do arcabouço fiscal, mantida a trajetória das despesas obrigatórias.

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A conta considera as despesas discricionárias, que cobrem a máquina pública e investimentos, sem benefícios da Previdência Social, Bolsa Família e outros gastos previstos em lei.

Pelos números, faltariam R$ 15,8 bilhões em 2028, R$ 14,9 bilhões em 2029 e R$ 23 bilhões em 2030. Em 2027 não haveria falta de recursos, pois as despesas discricionárias e o espaço do arcabouço somam R$ 222,1 bilhões.

O cálculo foi feito em agosto e não inclui o reajuste do Bolsa Família, o Pix de R$ 5 mil para MEIs e o passe livre no transporte público aos domingos e fins de semana. Segundo levantamento prévio, esses anúncios exigem ajustes de ao menos R$ 39,8 bilhões no Orçamento de 2027.

Na mensagem que acompanha os cálculos, o governo defende “esforço contido e estável”, conduzido no próprio ciclo orçamentário por meio da reavaliação de programas e da repriorização alocativa. O Ministério do Planejamento e Orçamento disse que os números devem ser lidos com cautela, por se tratar de um exercício que parte de informações dos órgãos. Segundo a pasta, a diferença não indica descumprimento do arcabouço fiscal nem desequilíbrio nas contas.

Por outro lado, as consultorias de Orçamento da Câmara e do Senado apontaram diferença sensível entre as projeções do mercado e as do projeto de lei orçamentária para PIB, IPCA e Selic de 2027 a 2029. O governo estima crescimento de 2,5% em 2027, ante mediana de mercado de 1,43% em setembro de 2026. O Orçamento prevê superávit de R$ 18,6 bilhões, enquanto o Prisma Fiscal de setembro indica déficit de R$ 45,4 bilhões.

Os números do próprio governo mostram avanço de 22,8% nas despesas obrigatórias entre 2027 e 2030, ante 8,0% nas discricionárias. Para as consultorias, o comportamento evidencia “aumento da rigidez das despesas primárias”.

Damares e Novo reagem a pacote de bondades que abalou isonomia

Na terça-feira (20), a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) apresentou projeto de lei para impedir a concessão de pacotes de bondades às vésperas das eleições.

A proposta restringe a criação de programas de transferência de renda, a ampliação extraordinária de auxílios, a concessão de subsídios e benefícios fiscais e o perdão ou a renegociação favorecida de dívidas. O texto prevê até quatro anos de prisão para agentes públicos que descumprirem as regras.

As restrições valeriam para presidentes, governadores, prefeitos e demais responsáveis pela execução das medidas, independentemente de estarem concorrendo à eleição. O projeto também busca impedir que as regras sejam contornadas por medidas provisórias, decretos ou abertura de créditos extraordinários.

Paralelamente, o Novo protocolou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) que pede a cassação da chapa de Lula e Geraldo Alckmin e a inelegibilidade de ambos por oito anos, por abuso de poder político.

O levantamento do partido aponta 35 medidas de impacto financeiro aprovadas pelo governo em 2026, das quais 12 ocorreram durante o período oficial de campanha. O Novo também recorreu ao Tribunal de Contas da União (TCU) para apurar os efeitos fiscais das medidas.

Fim da reeleição entra no debate sobre isonomia eleitoral

O candidato do PL prometeu apresentar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) pelo fim da reeleição, medida que consta do plano de governo e é reforçada em discursos e sabatinas. Na semana passada, Flávio disse que a regra deve valer já “no meu mandato”, caso seja eleito.

A análise lembra que outros candidatos já fizeram a mesma promessa, mas “cederam à tentação de continuar no poder”, principalmente com o “empurrãozinho da máquina pública”.

Na campanha, Lula critica a proposta de “tesouraço” na administração atribuída ao adversário, e o PT acusa Flávio de querer cortar recursos da Previdência Social, do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC), da saúde e da educação. Flávio nega os cortes, e integrantes da campanha do PL falam em economizar com a redução de regalias da máquina pública, como viagens, supersalários, ministérios e cargos comissionados.

Aliados de Lula dizem que é impossível um ajuste de R$ 200 bilhões, como cogitou a campanha de Flávio, sem mexer em programas sociais e benefícios.

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