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Agro brasileiro será desafiado pelo câmbio, tarifaço e maior El Niño desde 1950; veja projeções

Publicado 28/06/2026 • 20:30 | Atualizado há 2 semanas

KEY POINTS

  • Dólar a R$ 5,35 e Selic em 13,25% compõem cenário do Rabobank para o agro em 2026.
  • Tarifaço dos EUA mira açúcar, etanol e café solúvel, com decisão prevista para 15 de julho.
  • El Niño superforte ameaça cana, milho e pecuária no segundo semestre.
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Três frentes se cruzam para definir o segundo semestre do agro brasileiro. Relatório do Rabobank divulgado nesta quarta (24) reúne projeções de câmbio, juros, tarifaço dos Estados Unidos e El Niño que, juntas, devem pesar sobre margens, exportações e planejamento de safra até o fim de 2026.

Pelo lado cambial, o RaboResearch projeta o dólar a R$ 5,35 no encerramento do ano. Riscos geopolíticos, incertezas fiscais e eleitorais no Brasil, somados a juros mais altos nos Estados Unidos, sustentam a pressão sobre o real. Em contrapartida, o diferencial de juros entre os dois países e termos de troca favoráveis funcionam como amortecedores da depreciação.

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Selic cai, mas inflação sobe

Ainda assim, o cenário monetário gera leitura contraditória. O Copom reduziu a Selic em 25 pontos-base em junho, levando a taxa a 14,25%. Outro corte de mesma magnitude é esperado pelo Rabobank na próxima reunião, mas a instituição já adota viés de alta e projeta a Selic em 13,25% no fim do ano.

Paralelamente, o IPCA acelerou de 3,8% ao ano em fevereiro para 4,7% em maio, pressionado por preços administrados e por alimentos in natura. A projeção para o índice no encerramento de 2026 subiu para 5,1%. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve, sob nova presidência, deve manter as taxas entre 3,50% e 3,75% até o fim do ano.

Tarifaço dos Estados Unidos ameaça exportações do agro

No início de junho, o governo norte-americano anunciou duas propostas tarifárias via Seção 301 do Trade Act.

🔍 Seção 301: mecanismo da lei comercial dos Estados Unidos que permite ao governo aplicar tarifas contra países acusados de práticas comerciais consideradas desleais.

Uma das medidas prevê tarifa de 25% direcionada ao Brasil, com base em práticas ligadas a comércio digital, pagamentos eletrônicos, barreiras ao etanol americano e desmatamento ilegal. A outra é uma tarifa abrangente de 12,5% sobre 54 países e blocos, incluindo o Brasil, sob a justificativa de falhas no combate ao trabalho forçado.

Carne bovina, café verde, suco de laranja e celulose entraram nos anexos de isenção. Já açúcar, etanol e café solúvel ficam fora da lista e seriam fortemente penalizados. As audiências públicas sobre o tema ocorrem em 6 e 7 de julho, com decisão prevista até 15 de julho.

Na Europa, o acordo provisório entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor em 1º de maio, mas o rateio da cota de 99 mil toneladas de carne bovina segue indefinido. A União Europeia também sinalizou a exclusão do Brasil da lista de exportadores de diversas carnes a partir de 3 de setembro, alegando falta de comprovação técnica no controle de antimicrobianos.

El Niño superforte preocupa lavouras

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Atualizações da NOAA confirmam o desenvolvimento do El Niño a partir de julho, com força crescente até o verão do hemisfério sul. A chance de o fenômeno se tornar superforte a partir de novembro chega a 63%, o que o tornaria o maior desde 1950.

Para o trimestre de julho a setembro, o Inmet projeta volume de chuvas levemente abaixo da média histórica na maior parte do país, com exceção do Sul e de faixas do Norte, e temperaturas acima do normal em quase todo o território.

O clima ainda favorece o milho safrinha em Mato Grosso, mas decepciona em Goiás, Minas Gerais e Tocantins. No café, chuvas e baixas temperaturas no início de junho atrasaram a colheita, com normalização esperada nas semanas seguintes. Na cana, o El Niño pode provocar paradas de moagem e dificultar a colheita no segundo semestre.

Etanol e café sentem o impacto

Entre o final de março e o início de junho, o preço do etanol hidratado nas usinas recuou 24%, saindo de R$ 2,90 para a faixa de R$ 2,20 por litro. Na bomba, em São Paulo, a queda foi de 14%, para R$ 3,88 por litro.

A paridade entre hidratado e gasolina ficou em 60,1% no começo de junho. O número favorece o consumidor, mas pressiona a rentabilidade das usinas, já que o Rabobank estima ser necessária paridade média de 63% para equilibrar as margens da indústria, especialmente com a oferta projetada em alta de 4,3 bilhões de litros na safra 2026/27. Em compensação, o CNPE deve aprovar o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, com efeitos a partir de julho, o que deve estimular a demanda interna.

No café, a colheita da safra brasileira avança em ritmo firme, com boas condições de secagem. O Rabobank estima produção total de 73,3 milhões de sacas de 60 quilos, divididas em 46,7 milhões de arábica e 26,6 milhões de robusta. A perspectiva de oferta puxou os preços para baixo, com o arábica recuando 16,5% na ICE de Nova York, de cerca de US$ 2,40 para US$ 2,00 por libra-peso. O robusta, em Londres, caiu apenas 2,4%, para a faixa de US$ 3.700 por tonelada, refletindo maior procura por esse grão nos blends internacionais.

Crédito rural aperta o cenário do agro

Os reflexos do conflito no Oriente Médio também chegam aos insumos. A volatilidade no preço da ureia repete o padrão observado durante o choque da guerra na Ucrânia, em 2022, com cerca de 16 semanas necessárias para o retorno aos patamares anteriores.

Como resultado, as importações de ureia em maio somaram 116 mil toneladas, queda de 64% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O acumulado entre janeiro e maio, de 1,5 milhão de toneladas, é o menor volume em dez anos.

A combinação de insumos caros com a inadimplência recorde de 13,3% nos créditos livres do agro, registrada em abril, levou o Rabobank a projetar queda nas entregas totais de fertilizantes para 45,1 milhões de toneladas em 2026, retração de 8,2% em relação ao ano anterior.

Entre as demais commodities, o Brasil deve colher safra recorde de soja, de 182 milhões de toneladas, e elevar a produção de milho para 138 milhões de toneladas. O algodão caminha para a segunda maior safra de pluma da história do país, em torno de 4 milhões de toneladas, enquanto a pecuária deve sentir desaceleração nas exportações para a China no segundo semestre, com a cota de embarques perto do limite.

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