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Frango da China chega ao mercado 10% a 20% mais barato que o brasileiro e avança sobre clientes na África, Europa e Japão

Publicado 15/10/2026 • 14:45 | Atualizado há 45 minutos

KEY POINTS

  • Exportações chinesas de frango somaram US$ 2,6 bilhões em 2025, quase o dobro do nível registrado em 2020
  • Peito e coxa da China custam de 10% a 20% menos que o produto brasileiro, afirma trader com sede em Lisboa
  • Segurança alimentar e rastreabilidade seguem como ponto de resistência de importadores ao frango chinês
frango

Arquivo / Agência Brasil

A China, que por décadas importou carne para abastecer as cidades, passou a vender o excedente ao exterior, e o frango é a proteína em que a mudança aparece com mais nitidez. O país virou exportador líquido do produto em 2025 e oferece peito e coxa de 10% a 20% mais baratos que os brasileiros, segundo a trading Branexx, ouvida pela agência Reuters em reportagem publicada nesta quinta-feira (15).

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Frango chinês sobe de patamar nas exportações

Os embarques de produtos de frango somaram US$ 2,6 bilhões no ano passado, quase o dobro do volume de 2020, de acordo com dados alfandegários chineses. Em laticínios, a projeção é de US$ 600 milhões em vendas externas em 2026, valor que dobra em três anos.

Agricultura e alimentos ainda são categorias em que a China acumula déficit comercial. O saldo negativo passou de US$ 100 bilhões em 2025, mas está em queda.

A Wintop Food Group, de Shandong, mostra como o movimento funciona na prática. A empresa abate 60 milhões de aves por ano e vende peito, nuggets, almôndegas e bolinhos para mais de 20 países. As exportações responderam por metade do lucro em 2025 e financiam uma expansão de 33 acres.

O gerente-geral, Dang Yangyang, disse à Reuters que o preço é o argumento de venda. Segundo ele, a carne chinesa custa US$ 1.000 a menos por tonelada que a de concorrentes do Brasil e da Tailândia, e o comprador precisa escolher entre adquirir da China ou perder espaço.

Excedente interno empurra produção para o exterior

Por trás da oferta está um consumo que não acompanhou a produção. O consumo per capita de carne suína caiu 13% desde o pico de 2023, enquanto o de frango subiu mais de 50% na década até 2024, conforme dados oficiais e da imprensa estatal.

Mesmo assim, a produção avançou. Pequim ofereceu subsídios a grandes empresas para reforçar a segurança alimentar e recompor rebanhos após a peste suína africana de 2018 e a pandemia. Segundo a OCDE, os subsídios responderam por cerca de 13% da receita bruta dos produtores agrícolas entre 2022 e 2024, quase o triplo do nível do início dos anos 2000.

Como resultado, a China produziu 59 milhões de toneladas de carne suína em 2025, recorde, e a produção de aves cresceu 7%. O setor de laticínios superou, dois anos antes, a meta oficial para 2025.

Os preços recuaram, sobretudo no porco. A criadora Huang Weiying, de 57 anos, tem dívida de cerca de US$ 75 mil e planeja abater os últimos dez animais. Segundo ela, os preços estão baixos porque as pessoas nas cidades deixaram de comer carne suína.

Para as grandes empresas, a saída é vender fora. Zhang Yuan, responsável por marketing de fórmulas infantis da Yili, afirmou que toda pecuarista chinesa planeja se expandir no exterior e que quem quer crescer precisa sair do país.

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Na avicultura, a Wintop elevou de 20 mil para 120 mil o número de aves por galpão em dez anos. Os animais pesam em média 2,5 kg, ante 2,2 kg dos frangos brasileiros, segundo a S&P Global, e são abatidos em menos de 42 dias, contra 45 dias antes. A concorrente Sunner aposta em frango marinado e pratos prontos, e as vendas externas dela subiram 42%, para US$ 135 milhões, em 2025

Europa, Reino Unido e Japão registram avanço chinês

Em seguida, os números de mercado mostram onde a pressão já chegou. A China dobrou para 10% a fatia no mercado de aves processadas da União Europeia desde 2022 e triplicou a participação no Reino Unido, para mais de 14%, segundo a consultoria Gira. No Japão, a parcela chinesa também sobe, enquanto a Tailândia, líder, perde terreno.

Na área de lácteos, o leite em pó chinês disputa espaço com o da Nova Zelândia e da Europa em países como Nigéria e Bangladesh, e desloca produtores da Índia e do Irã no Oriente Médio, de acordo com a StoneX.

A reação já aparece em Bruxelas. Em julho, a Comissão Europeia abriu investigação antidumping sobre a importação de pato pequinês. No mês passado, aplicou tarifas de 41% a 67% à proteína de ervilha da China. O frango ainda não foi alvo de medida semelhante, mas um porta-voz da Comissão disse à Reuters que o mercado é monitorado.

Kukrit Arepagorn, da associação tailandesa de processadores exportadores de frango, afirmou que o cenário é preocupante. Segundo ele, clientes usam cada vez mais o preço chinês como referência nas negociações.

Importadores africanos comparam Brasil e China no preço

O Brasil aparece de forma direta na reportagem. Ezequiel Pires, presidente da Branexx, contou que a empresa passou a comprar frango chinês em março, depois que clientes africanos pediram alternativas mais baratas às importações brasileiras. Pelas contas dele, peito e coxa da China custam de 10% a 20% menos.

Segurança alimentar limita avanço do frango chinês

Do outro lado, o histórico sanitário chinês ainda pesa na decisão de compra. Gordon Butland, da G&S Agriconsultants, em Bangcoc, disse que os exportadores precisam construir confiança duradoura em segurança, rastreabilidade e consistência dos produtos.

A Yili, maior empresa de laticínios da Ásia, ilustra o peso desse passado. Em 2008, produtos da companhia foram retirados do mercado após a contaminação por melamina que afetou milhares de bebês, e o episódio afastou consumidores do leite nacional por mais de uma década. Hoje, a marca lidera as vendas de fórmula infantil na China e planeja entrar no Sudeste Asiático já em 2027.

Na Europa, a Comissão Europeia afirmou que o alimento importado precisa cumprir as mesmas normas sanitárias do produto local. O bloco também prevê reforçar a rotulagem de origem, a começar pelas aves, em 2027.

Há ainda quem prefira outro fornecedor. Rupert Claxton, da Gira, disse que parte dos clientes escolhe o frango tailandês pelo sabor e pela qualidade constantes. Para Dang, da Wintop, o preço continua sendo o que atrai compradores. Ele afirmou que a empresa vende para todos os países possíveis e que, com vantagem relevante de preço, os clientes procuram o fornecedor.

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