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Briga entre herdeiros da Mitre tem novas acusações de extorsão, invasão de casa e desvio de patrimônio

Publicado 15/10/2026 • 20:06 | Atualizado há 44 minutos

KEY POINTS

  • Juliana Mitre é indiciada por extorsão e desvio de patrimônio e deve manter 200 metros de distância do irmão Fabrício.
  • Boletim cita entrada de Juliana no apartamento da mãe e retirada de bolsas, e a defesa de Fabrício fala em arrombamento.
  • Juliana acusa Maria Elisa de usar recursos do Grupo Hosp em despesas pessoais, e administradora judicial registra relato do CFO.

Foto: Faculdade de Clínica Médica da Santa Casa de São Paulo

A disputa pela herança do empresário Jorge Mitre ganhou novos capítulos na polícia e na Justiça de São Paulo. De um lado, Fabrício Mitre e a mãe, Maria Elisa, apontam indiciamentos e um boletim de ocorrência contra a irmã mais nova, Juliana Mitre. Do outro, Juliana e a defesa de Júlio Mitre, seu irmão, contestam as provas e levantam suspeitas sobre a gestão do patrimônio.

Como mostrou o Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC na terça-feira (13), o conflito opõe a viúva e o filho mais velho a Júlio e Juliana desde a morte do empresário, em junho de 2022. Desde então, os herdeiros trocam processos nas varas de família, cível e criminal.

Juliana classifica como falsas as informações divulgadas por Fabrício e Maria Elisa e diz ver nelas uma tentativa de intimidá-la. Em nota, ela afirma que continuará adotando medidas legais para que os fatos sejam esclarecidos.

Leia também: Disputa por herança do empresário Jorge Mitre envolve acusações de ‘terrorismo psicológico’, suspeitas de fraude e crise de R$ 680 milhões

Boletim de ocorrência aponta invasão de apartamento de Maria Elisa

O fato mais recente consta em boletim registrado no dia 7 de outubro, na Delegacia de Proteção ao Idoso. Segundo o documento, uma funcionária da casa relatou que Juliana entrou no apartamento de Maria Elisa, que estava em viagem ao exterior, acompanhada de um homem não identificado e com uma chave do tipo “micha”, sem autorização.

Ainda de acordo com o boletim, os dois percorreram o imóvel e levaram bens. O documento lista seis bolsas, entre as quais três da Chanel e uma da Ferragamo, além de dinheiro em valor ainda não apurado. A relação é preliminar, e o texto informa que será pedida perícia no local para verificar eventual arrombamento. O caso foi encaminhado ao distrito policial da área.

A defesa de Fabrício e Maria Elisa afirma que Juliana arrombou várias portas e levou joias e bolsas de marca, e que a Polícia Civil investiga o episódio. O boletim não menciona joias e trata o arrombamento como ponto a ser periciado. Na nota, Juliana Mitre não comenta o caso.

Leia também: Mitre tem queda de 9,3% nas vendas e fica sem lançamentos no terceiro trimestre, segundo prévia operacional

Juliana Mitre é indiciada por extorsão e desvio de patrimônio

Em 25 de agosto, a Polícia Civil indiciou Juliana por extorsão contra Fabrício. O relatório, do 78º Distrito Policial, descreve que, em 2 de julho de 2024, às 23h55, ela teria dado prazo de 24 horas, por meio de um tio, para que Fabrício e a mãe assinassem um acordo financeiro favorável a ela. Segundo a polícia, em caso de recusa, Juliana ameaçou levá-los ao Ministério Público por acusações infundadas e prejudicar a recuperação judicial da Elisa Agro. A delegada afirma que ela faltou às duas intimações para depor.

Na quarta-feira (2) de setembro, outro relatório da Polícia Civil, aberto após notícia apresentada por Júlio, indiciou Juliana pelo artigo 102 do Estatuto da Pessoa Idosa. O alvo são R$ 700 mil transferidos para ela em 13, 14 e 16 de junho de 2022, quando Jorge Mitre, então com 68 anos, ainda estava vivo. Ele morreu em 17 de junho.

O delegado afirma não ter encontrado documento que justifique as transferências. O relatório cita um atestado de 15 de junho de 2022 que indicava bom estado mental de Jorge e a informação da médica oncologista de que ele ficou inconsciente, sedado, nos dois últimos dias de vida. Ao todo, o banco confirmou movimentações de cerca de R$ 2 milhões em benefício de Juliana, mas o indiciamento se limita aos R$ 700 mil. O delegado diz que a ausência dela nos depoimentos não fundamenta a decisão.

O mesmo relatório não indiciou Maria Elisa, Fabrício e um advogado. Segundo o documento, R$ 532 mil foram para contas de Maria Elisa, mas havia conta conjunta com o marido, regime de comunhão parcial de bens e prestação de contas ao Judiciário. O banco informou que os R$ 1,25 milhão ligados a Fabrício foram para a conta da Elisa Agro. O delegado ressalva que a documentação apresentada por Maria Elisa não permite afirmar que toda a movimentação esteja justificada.

Indiciamento é a conclusão da polícia e não equivale a condenação. Agora, cabe ao Ministério Público decidir se apresenta denúncia. A defesa de Fabrício e Maria Elisa afirma que a polícia não viu elementos para indiciá-los. Juliana diz, na nota, que os inquéritos de extorsão e de desvio “já foram arquivados pelo Ministério Público”. A reportagem teve acesso aos relatórios de indiciamento, mas não a decisões de arquivamento.

Medida cautelar impõe distância de 200 metros entre Juliana Mitre e Fabrício

Em agosto, o Juizado Especial Criminal de São Paulo determinou que Juliana mantenha distância mínima de 200 metros de Fabrício. A decisão aponta indícios de perseguição por meio do envio reiterado de mensagens e áudios a familiares, e o Ministério Público opinou pela concessão.

A juíza negou, porém, os pedidos de proibir contato com familiares e com funcionários da Mitre Realty, porque Juliana é acionista da companhia. O texto alerta que o descumprimento pode levar à prisão preventiva. Na nota, Juliana afirma ser falsa a existência de decisão que a impeça de se aproximar do irmão. A reportagem teve acesso à decisão e ao mandado de intimação, de 25 de agosto.

Fraude processual terminou em transação penal

Juliana também foi alvo de procedimento por fraude processual. O Ministério Público concluiu que as provas demonstram a apresentação, em ação cível, de conversa de WhatsApp adulterada com o diretor financeiro do Grupo Hosp, Rômulo Araújo, com mensagens inseridas e trechos apagados.

Em audiência de 27 de novembro de 2025, Juliana aceitou transação penal, com multa de R$ 1.518 em seis parcelas. Esse tipo de acordo evita o processo e não implica condenação.

Juliana acusa Maria Elisa de gastos pessoais pagos pelo Grupo Hosp

Do lado de Juliana, a acusação mais recente envolve despesas pessoais de Maria Elisa. Em peça ligada à ação de prestação de contas, a defesa afirma que as sociedades do Grupo Hosp pagaram mais de R$ 650 mil nos oito primeiros meses de 2026 em gastos como faturas de cartão, compras de frutas, pet shop e financiamento de imóvel. Na nota, Juliana fala em cerca de R$ 1 milhão no ano.

Segundo Juliana, Maria Elisa já está afastada por decisão judicial da administração de duas unidades do grupo, com proibição de usar os recursos para despesas pessoais, e o diretor financeiro teria sido coagido a autorizar os pagamentos. Em manifestação de quarta-feira (14), a Regent Administração Judicial registra que Rômulo relatou, em reunião de 6 de outubro, que pagamentos ligados a Maria Elisa foram feitos a mando dela e que ele se sentiu compelido a atender para preservar o emprego.

A administradora diz registrar o depoimento “nos exatos limites” em que foi prestado, sem concluir sobre responsabilidade individual ou regularidade dos pagamentos. Ela afirma não se opor ao afastamento de Maria Elisa dos poderes de administração nas demais sociedades.

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Decisão do inventário e inquérito sobre o Grupo Hosp entram na disputa

Juliana cita ainda decisão da 9ª Vara da Família e Sucessões que, segundo ela, destituiu Maria Elisa da função de inventariante. No texto, o juiz escreve que a “mera notícia do perdão das dívidas” não pode ser acolhida e que há “conflito de interesses, no mínimo, entre a devedora e o espólio, sem prejuízo da caracterização de fraude”. As dívidas citadas somam R$ 1,58 milhão de Maria Elisa e R$ 52 milhões de Fabrício, declaradas no Imposto de Renda de 2022.

Segundo Juliana, Fabrício e Maria Elisa também são investigados por desvios no Grupo Hosp. Ela apresenta despacho de 27 de março em que o delegado cita “indícios de atuação coordenada” entre Maria Elisa, o diretor financeiro, Júlio e Fabrício e manda aprofundar a apuração de consultorias sem prestação de serviços comprovada. O próprio despacho trata a análise como preliminar.

Arquivamento sobre Memorando de Entendimentos segue em debate

Em 23 de setembro de 2025, o procurador-geral de Justiça manteve o arquivamento do inquérito que apurava falsificação de documentos atribuída a Fabrício e Maria Elisa. O laudo do Instituto de Criminalística concluiu que a assinatura de Jorge no Memorando de Entendimentos é falsa, produzida por imitação, mas não indicou quem a fez. O documento tinha cinco signatários, e dois laudos particulares sustentam que a assinatura é autêntica.

O parecer afirma ainda que os atos societários da Mitre Agropecuária, assinados por Maria Elisa com procuração do marido de 28 de abril de 2022, independem do Memorando e que não ficaram demonstrados prejuízo nem vantagem indevida. A discussão foi remetida ao inventário, com ressalva para reabrir a investigação diante de provas novas. Fabrício e Maria Elisa pediram perícia judicial, ainda não realizada.

A defesa de Júlio sustenta que devem ser partilhados os bens condizentes com a estrutura de negócios construída pelo pai ao longo da vida e cita o laudo do Instituto de Criminalística. “Busca-se, assim, preservar o legado de vida deixado pelo falecido e evitar que qualquer um dos herdeiros seja favorecido em prejuízo dos demais”, diz a nota.

Defesa de Fabrício diz que disputa não atinge Mitre Realty

Em nota, a defesa de Fabrício e Maria Elisa afirma que a disputa envolve apenas bens de Jorge e não tem impacto na Mitre Realty, companhia da qual Fabrício é controlador e CEO. Os advogados dizem que Júlio e Juliana “jamais participaram da gestão de qualquer empresa do Grupo Mitre” e que as sentenças confirmaram “a lisura e validade dos atos praticados por Jorge Mitre em vida”, incluindo o testamento, assinado em cartório, com duas testemunhas e registro em vídeo.

Juliana contesta essa avaliação e diz ter acesso a vídeos, áudios, e-mails e atas notariais sobre o assunto, que não foram apresentados à reportagem. Ela afirma ser herdeira e ter “o dever de proteger o patrimônio familiar”.

Juliana Mitre responde a perguntas do Times Brasil | CNBC

Após a publicação da nota, a defesa de Juliana enviou respostas por escrito a perguntas feitas pela reportagem. Os advogados confirmam que Maria Elisa é mãe de Juliana e admitem que ela esteve no apartamento citado no boletim, mas negam entrada clandestina e arrombamento de portas.

Segundo a defesa, o imóvel pertence ao espólio e não é residência exclusiva de Maria Elisa. Os advogados afirmam que Maria Elisa e Fabrício se apossaram dos imóveis do espólio e impedem que Juliana os utilize. Dizem ainda que ela não retirou bens de Maria Elisa nem de terceiros, apenas itens pessoais, e que tem um quarto no local, onde morou por mais de 20 anos.

A defesa não informou quem acompanhava Juliana nem onde estão os itens retirados. Afirma que não dará mais detalhes por causa da estratégia jurídica adotada e promete apresentar em breve vídeos, depoimentos de testemunhas e outros elementos de prova.

Em outra frente, os advogados dizem que Juliana, ao entrar no apartamento, se deparou com mais um crime de Maria Elisa. Na versão da defesa, Maria Elisa e Fabrício causaram a perda, pelo espólio, de um imóvel avaliado em R$ 32 milhões, em razão de dívida do Grupo Elisa Agro. O inventariante dativo teria ajustado a entrega do bem aos credores sem comunicar Júlio e Juliana.

Ao tomar conhecimento, Juliana peticionou no inventário (processo 1081590-07.2022.8.26.0100, folhas 7.945 a 7.953). Disse não se opor à entrega, mas pediu um ajuste entre os herdeiros para retirada de bens pessoais e inventário de itens como obras de arte e mobília.

Antes de o juízo apreciar o pedido, afirma a defesa, Maria Elisa foi “sorrateiramente” ao imóvel e o esvaziou, o que representaria novo desvio de milhões de reais em bens. No apartamento que Maria Elisa diz ser só dela, Juliana afirma ter encontrado vários bens, mas não as obras de arte. As provas dessa versão não foram apresentadas à reportagem.

Sobre as transferências de R$ 300 mil (13 de junho de 2022), R$ 300 mil (14 de junho) e R$ 100 mil (16 de junho), a defesa diz que Juliana é sócia e coadministradora do Grupo Hosp. Segundo os advogados, enquanto Jorge estava vivo, os dois faziam diversas transações bancárias desse tipo por causa da atividade empresarial.

De acordo com a defesa, os valores foram enviados com conhecimento da meeira e dos herdeiros, principalmente para pagar custos das empresas, e a maior parte foi repassada a Maria Elisa e a Júlio Mitre. Os advogados dizem que os comprovantes estão no processo de prestação de contas. Questionada sobre os R$ 1,146 milhão depositados em conta exclusiva de Juliana, segundo o banco, a defesa remeteu à mesma explicação.

Quanto aos arquivamentos, a defesa informa que o inquérito de extorsão (IP 1527935-48.2024.8.26.0050) foi arquivado na quinta-feira (3) de setembro. O de desvio (IP 1534422-15.2026.8.26.0454) foi arquivado de ofício pelo Ministério Público na quinta-feira (17) de setembro, segundo os advogados, que dizem ter anexado as duas decisões.

Já sobre a medida cautelar, a defesa diz que Juliana e seus advogados desconhecem o teor do processo 1007155-76.2026.8.26.0050, que tramita em sigilo, e que ela jamais foi intimada. Os advogados afirmam não ter dúvida de que se trata de mais uma falsa acusação, que deve ser arquivada em breve.

Por fim, a defesa detalha o valor dos gastos atribuídos a Maria Elisa. Os cerca de R$ 650 mil correspondem a transferências diretas a ela ou ao pagamento de despesas pessoais, como financiamento de imóvel, cartão de crédito pessoal, compra de frutas (R$ 23 mil em três meses) e pet shop. Os cerca de R$ 350 mil restantes, que completam o R$ 1 milhão citado na nota, referem-se a gastos feitos com o cartão corporativo da Unidade Oftalmológica de Santana Ltda., hoje sob administração judicial da Regent.

A defesa diz que a informação sobre a ameaça de demissão do diretor financeiro, o que configuraria extorsão, foi prestada pela Regent e cita os parágrafos 20 e 21 do documento anexado. Para os advogados, os dados constam nos anexos e na íntegra do processo público 4149341-18.2026.8.26.0100.

Enquanto família briga, incorporadora Mitre tem queda nas vendas

A incorporadora Mitre Realty divulgou na terça-feira (13) a prévia operacional do terceiro trimestre. Segundo o documento, as vendas líquidas recuaram 9,3% sobre o mesmo período de 2025, e não houve lançamentos no período, ante R$ 520,8 milhões em Valor Geral de Vendas (VGV) lançados um ano antes. A companhia diz ter priorizado a venda de unidades em estoque, em um ambiente macroeconômico que classificou como desafiador.

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