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Quem é Eugene Kaspersky, o polêmico russo por trás do antivírus que opera no Brasil sob suspeita de espionagem
Publicado 17/06/2026 • 22:38 | Atualizado há 55 minutos
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Publicado 17/06/2026 • 22:38 | Atualizado há 55 minutos
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Arte/Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC
Em junho de 2024, o governo americano baniu a Kaspersky Lab do mercado dos Estados Unidos. No dia seguinte, doze executivos seniores da companhia foram sancionados pelo Departamento do Tesouro. O fundador, Eugene Kaspersky, não constava na lista, mas a empresa que leva o nome dele passou a ser tratada pelo governo americano como risco inaceitável à segurança nacional.
As suspeitas se acumulam desde pelo menos 2017 nos Estados Unidos e ganharam nova dimensão na Europa após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022. A questão que persegue Eugene Kaspersky desde então é sempre a mesma: um homem formado numa escola ligada à KGB, que serviu ao Exército Soviético e construiu um software usado por mais de 400 milhões de usuários no mundo, pode, de fato, ser independente do Kremlin?
Eugene Kaspersky nasceu em 4 de outubro de 1965 em Novorossiysk, cidade portuária no sul da Rússia, às margens do Mar Negro. Aos 14 anos, foi selecionado para estudar numa escola de elite em Moscou ligada à Universidade Estatal. Aos 16, foi admitido na Faculdade Técnica de Criptologia da KGB Higher School, instituição que formava matemáticos, criptógrafos e especialistas em tecnologia para o aparato de segurança soviético. Hoje rebatizada de Instituto de Criptografia, Telecomunicações e Ciência Informática da Academia do FSB, a instituição segue ligada à formação técnica em criptografia e segurança da informação.
Kaspersky se formou em 1987 e serviu como oficial e criptógrafo do Exército Soviético até 1991, quando a União Soviética entrou em colapso.
Dois anos antes, o computador de trabalho de Eugene havia sido infectado pelo vírus Cascade. Fascinado pelo desafio de neutralizá-lo, ele escreveu seu próprio programa de remoção. Estava plantada a semente do que viria a ser um dos maiores negócios de cibersegurança do mundo.
Em 1997, Kaspersky fundou a Kaspersky Lab em Moscou junto com a então esposa, Natalya Kaspersky, e um grupo de colegas. A empresa cresceu rapidamente e ganhou espaço na Europa, Japão, China e, anos depois, nas Américas. Em 2007, Kaspersky assumiu formalmente o cargo de CEO, posição que ocupa até hoje, aos 60 anos.
Na essência, o produto que a empresa vende é confiança. Um antivírus opera nas camadas mais profundas de um sistema: lê arquivos, monitora tráfego de rede, recebe atualizações automáticas e tem acesso a praticamente tudo que acontece numa máquina. Para centenas de milhões de usuários ao redor do mundo, Kaspersky se tornou o nome que protege seus dados mais sensíveis.
É exatamente esse ponto que torna as acusações contra ele tão graves.
As primeiras suspeitas públicas surgiram em 2015, quando a Bloomberg publicou uma investigação apontando que funcionários da alta cúpula da Kaspersky tinham ligações com o FSB, o serviço de segurança russo que sucedeu a KGB. O relatório afirmava que a empresa havia colaborado com investigações conduzidas pelo FSB usando dados de clientes, e que o próprio Eugene Kaspersky frequentava regularmente sessões de sauna (banya) em Moscou com oficiais de inteligência russa. A empresa negou o envolvimento com espionagem, mas admitiu que outras pessoas frequentavam o local junto com ele.
À época, Kaspersky reagiu com ironia às acusações. “Eu nunca trabalhei para o KGB”, disse ele, acrescentando que apenas estudara numa instituição que contava com apoio do Ministério da Defesa. “Como se diz: ‘nunca deixemos que os fatos se coloquem no caminho de uma boa história’.”
O que a Bloomberg não relatou — e que veio à tona anos depois — foi uma guerra interna que dividiu a própria empresa em dois grupos. De um lado, os chamados “tech-savvies”, profissionais de tecnologia liderados pelo diretor de TI Nikolay Grebennikov. Do outro, os “siloviki”, termo russo para pessoas com passado nos serviços de segurança do Estado, que ocupavam cargos de gestão na Kaspersky, incluindo o diretor jurídico Igor Chekunov.
O ponto de discórdia era o acesso ao Kaspersky Security Network (KSN), o sistema em nuvem da empresa que, quando instalado nos computadores dos usuários, permite examinar arquivos e enviá-los para análise remota. Em outras palavras, uma porta de entrada para dados de milhões de pessoas ao redor do mundo.
Grebennikov se recusava a ceder esse acesso aos siloviki. Quando levou o impasse ao fundador, Kaspersky o convocou ao escritório e disse que ele havia “traído a empresa”. “Revolucionários têm dois caminhos: ou ao trono ou à Sibéria. Você vai para a Sibéria”, disse Kaspersky a Grebennikov, segundo relato do próprio demitido à Forbes. Os siloviki venceram e ganharam acesso ao KSN.
Além disso, documentos revisados pelo jornal McClatchy apontaram que as certificações emitidas pelo FSB à Kaspersky continham um número de unidade de inteligência militar, algo incomum nas aprovações de rotina que o FSB emite para empresas civis russas. Um ex-funcionário do Departamento de Segurança Interna dos EUA disse que o documento tornava “muito mais persuasiva” a evidência pública de ligação entre a empresa e o aparato de espionagem russo.
Em 2017, o Departamento de Segurança Interna dos EUA determinou que todas as agências federais identificassem e removessem produtos Kaspersky de seus sistemas em 90 dias. No mesmo ano, veio a público o caso de um contratado da Agência de Segurança Nacional (NSA) que havia levado ferramentas sigilosas para um computador pessoal com Kaspersky instalado. A empresa reconheceu que o antivírus copiou os arquivos para seus servidores durante uma análise automática, mas negou ter buscado deliberadamente material sigiloso e afirmou que os arquivos foram apagados.
Também em 2017 veio a público — embora a prisão tenha ocorrido em dezembro de 2016 — o caso de Ruslan Stoyanov, funcionário da Kaspersky, detido em Moscou junto com dois oficiais do FSB sob acusação de traição, suspeitos de terem passado informações classificadas à inteligência americana. A empresa confirmou a prisão, mas afirmou que as acusações se referiam a período anterior à entrada de Stoyanov na Kaspersky e não envolviam a companhia.
Kaspersky tentou virar o jogo. Ofereceu ao Congresso americano abrir o código-fonte de seus produtos para auditoria independente e declarou publicamente que estaria disposto a testemunhar perante o Senado. “Farei qualquer coisa que puder para provar que não temos más intenções”, disse. Os senadores, porém, já haviam declarado publicamente que não se sentiriam confortáveis usando produtos Kaspersky. A proposta não foi aceita.
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A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 reabriu todas as feridas. Em março daquele ano, dois movimentos ocorreram quase simultaneamente: o BSI, Escritório Federal de Segurança da Informação da Alemanha, emitiu alerta recomendando que empresas e cidadãos alemães substituíssem os produtos Kaspersky, e a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) incluiu a Kaspersky na mesma lista de risco à segurança nacional onde estão Huawei e ZTE.
“Um produtor russo de TI pode ser forçado a atacar sistemas contra a sua vontade, ser espiado sem conhecimento ou ser mal-usado como ferramenta para ataques contra seus próprios clientes”, dizia o documento alemão. O clube de futebol Eintracht Frankfurt rescindiu seu contrato de patrocínio com a empresa. No Reino Unido, autoridades já haviam orientado áreas de segurança nacional a evitar produtos russos como Kaspersky; na Itália, o governo preparou regras para restringir o uso de antivírus russos no setor público.
Kaspersky reagiu com uma carta aberta acusando o BSI de agir por motivações políticas. “Nenhuma evidência de uso ou abuso do Kaspersky para fins maliciosos jamais foi descoberta e comprovada nos 25 anos de história da empresa”, escreveu.
Em junho de 2024, o Departamento de Comércio dos EUA proibiu a Kaspersky de fornecer software antivírus e produtos ou serviços de cibersegurança nos EUA ou a pessoas americanas, em decisão inédita. No dia seguinte, o Departamento do Tesouro sancionou 12 executivos seniores da empresa.
Enquanto encerrava operações nos EUA, a Kaspersky acelerou a expansão no Brasil, que responde por cerca de 40% do faturamento da empresa na América Latina e passou a ser a sede das operações para as Américas. Entre os clientes brasileiros da empresa estão as Forças Armadas, com mais de 300 mil licenças ativas.
Eugene Kaspersky recebeu o Prêmio do Estado da Federação Russa, distinção concedida pelo Kremlin, e segue negando qualquer ligação com os serviços de inteligência do país.
Procurada pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, a Kaspersky afirmou que Eugene Kaspersky nunca trabalhou para a KGB e que não existe qualquer restrição internacional que impeça a colaboração comercial com ele ou com a empresa. A companhia disse que, mesmo sob investigações, nenhuma prova de conduta indevida foi encontrada, e que não responderá a alegações infundadas.
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