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Ri Happy, Raízen, Braskem e GPA: juros altos pesam, mas não explicam sozinhos onda de recuperações extrajudiciais
Publicado 19/10/2026 • 22:00 | Atualizado há 51 minutos
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Publicado 19/10/2026 • 22:00 | Atualizado há 51 minutos
KEY POINTS
Os juros altos explicam a onda recente de recuperações extrajudiciais entre grandes empresas brasileiras? Só em parte. O crédito mais caro aumentou a pressão sobre companhias endividadas e tornou mais difícil refinanciar obrigações, mas os episódios mais recentes mostram que o movimento também envolve restrição de crédito, problemas de geração de caixa, dificuldades operacionais e estratégias de expansão financiadas por dívida. Ao mesmo tempo, mudanças na Lei de Falências facilitaram o uso desse tipo de reestruturação nos últimos anos.
A Ri Happy é o caso mais recente. A maior rede de brinquedos do país anunciou nesta segunda-feira (19) que busca renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. A companhia se junta a uma lista que inclui Raízen, Braskem, GPA, Oncoclínicas, Casas Bahia e Tok&Stok.
Levantamento do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC reuniu alguns dos principais casos registrados desde 2024.
A Ri Happy entrou com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 827,4 milhões em dívidas. A operação também inclui a PBKids.
Quando o pedido foi apresentado, credores responsáveis por R$ 308,8 milhões haviam aderido ao plano, o equivalente a 42,38% dos R$ 728,6 milhões em créditos com direito a voto.
A companhia ainda precisa alcançar o percentual exigido pela legislação dentro do prazo previsto para que o plano possa ser homologado e alcance os demais credores abrangidos.
No caso da Ri Happy, os juros elevados aparecem ao lado de outros problemas. A empresa aponta os efeitos da pandemia, pressão sobre o consumo, mudanças no comportamento dos clientes e maior concorrência de plataformas internacionais de comércio eletrônico entre os fatores que afetaram sua operação. O custo financeiro aumentou a pressão sobre uma companhia que já carregava dívida elevada.
As lojas físicas e os canais digitais continuam funcionando normalmente durante o processo.
Leia também: Ri Happy pede recuperação extrajudicial 48 dias após trocar de dono
A Raízen apresentou seu pedido de recuperação extrajudicial em março de 2026, quando carregava dívida bruta consolidada de aproximadamente R$ 65,1 bilhões.
O plano posteriormente homologado pela Justiça de São Paulo alcançou cerca de R$ 61,4 bilhões em dívidas financeiras sem garantia e teve adesão superior a 80% dos créditos envolvidos.
A companhia chegou à renegociação depois de um período de investimentos elevados e aumento do endividamento. Pressões sobre a geração de caixa, incluindo efeitos climáticos sobre as operações agrícolas, se somaram ao custo de manter uma dívida bilionária em um cenário de juros elevados.
Com a homologação, a empresa passou à implementação das novas condições negociadas com os credores.
Leia também: Com dívida de R$ 65 bilhões, Raízen se torna maior caso de recuperação extrajudicial do Brasil
A Braskem pediu recuperação extrajudicial em agosto de 2026 para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em dívidas.
Na apresentação inicial do plano, a companhia contava com adesão de cerca de 39,6% dos créditos envolvidos e continuava negociando com os demais credores.
As alternativas discutidas incluem alongamento dos vencimentos, capitalização de juros, entrada de novos recursos e conversão de parte da dívida em participação na companhia.
No caso da Braskem, a situação financeira também está ligada ao momento da indústria petroquímica. O setor atravessa um ciclo de margens pressionadas e excesso de oferta global, enquanto a companhia já carregava uma dívida elevada. A combinação reduziu a capacidade de absorver os custos financeiros.
Leia também: Braskem entra com pedido de recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 54 bilhões
O GPA também recorreu à recuperação extrajudicial em 2026 para reorganizar aproximadamente R$ 4,5 bilhões em dívidas.
Em outubro, a Justiça homologou o plano definitivo envolvendo cerca de R$ 4,568 bilhões em créditos sem garantia. A adesão superou o percentual mínimo exigido para aprovação.
Dívidas operacionais, incluindo determinadas obrigações com fornecedores, prestadores de serviços e locadores, ficaram fora da renegociação.
O grupo vinha enfrentando resultados pressionados e tinha vencimentos relevantes de dívida concentrados no curto prazo. A recuperação extrajudicial permitiu alongar esses compromissos e reduzir a necessidade imediata de caixa em um ambiente de crédito ainda caro.
Leia também: GPA obtém aval da Justiça para reorganizar R$ 4,57 bilhões em dívidas
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Siga o Times | CNBCA Oncoclínicas apresentou em julho um pedido envolvendo aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras sem garantia, além de créditos entre empresas do próprio grupo.
A adesão inicial ficou em torno de 37%, percentual suficiente para iniciar o processo, mas abaixo do necessário para a aprovação definitiva do plano.
A companhia chegou à reestruturação depois de uma fase de forte expansão acompanhada por aumento do endividamento. A piora dos resultados e da geração de caixa dificultou a sustentação dessa estrutura financeira, especialmente diante do custo elevado do crédito.
A empresa seguiu negociando com credores para ampliar a adesão ao acordo.
Leia também: Ação da Oncoclínicas dispara após pedido de recuperação judicial de R$ 5,1 bi
A Casas Bahia entrou com recuperação extrajudicial em abril de 2024 para reestruturar cerca de R$ 4,1 bilhões em dívida financeira. O plano foi homologado dois meses depois.
A renegociação mostra de forma direta o peso do custo financeiro. A empresa trocou uma dívida com custo médio de CDI mais 2,7% e prazo de aproximadamente 22 meses por condições de CDI mais 1,2% e vencimentos de até 72 meses.
O caso também mostra que a recuperação extrajudicial nem sempre encerra os problemas financeiros de uma companhia. Em agosto de 2026, a Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial, envolvendo um passivo mais amplo, de aproximadamente R$ 17,3 bilhões.
Leia também: Casas Bahia obtém linha de crédito de até R$ 250 milhões junto ao Banco do Brasil para negociar com credores
A Tok&Stok apresentou em 2024 um plano de recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 641,6 milhões em créditos.
O processo alcançou principalmente obrigações financeiras e com partes relacionadas, enquanto fornecedores, empregados, clientes e outros parceiros comerciais ficaram fora da renegociação.
A varejista enfrentou uma reversão do cenário observado durante a pandemia, quando a procura por artigos para casa havia aumentado. A desaceleração das vendas, somada ao endividamento e aos juros mais altos, pressionou a operação e levou a empresa a fechar lojas e renegociar obrigações.
O plano foi homologado ainda em 2024 e previu alongamento de prazos, períodos de carência e mecanismos de conversão de dívida. A companhia também passou por mudanças em sua estrutura de controle.
Leia também: Tok&Stok: 5 pontos explicam a crise da varejista
Além dos juros altos, endividamento elevado, vencimentos concentrados no curto prazo, queda nas vendas, margens menores e dificuldades para renovar dívidas ajudam a explicar por que empresas recorrem à recuperação extrajudicial.
Um dos principais pontos está relacionado à geração de caixa. Quando a companhia passa a produzir menos recursos do que precisa para manter a operação e cumprir seus compromissos financeiros, a necessidade de renegociar dívidas aumenta.
A restrição de crédito também pesa. Se bancos e investidores reduzem a disposição para emprestar, ou passam a exigir condições mais duras, empresas que dependem de refinanciamento frequente podem enfrentar rapidamente uma crise de liquidez.
Problemas operacionais também entram nessa conta, como perda de mercado, aumento de custos, investimentos que demoram a dar retorno ou estratégias de expansão financiadas por dívida.
Além do ambiente econômico, uma mudança na legislação ajuda a explicar por que mais empresas passaram a recorrer especificamente à recuperação extrajudicial.
A reforma da Lei de Recuperação e Falências foi aprovada no fim de 2020 e entrou em vigor em 2021. Entre as mudanças, facilitou o início das negociações e reduziu o percentual necessário para que um acordo possa alcançar os demais credores da mesma espécie abrangida pelo plano.
A empresa também passou a poder apresentar o pedido com adesão inicial equivalente a um terço dos créditos envolvidos e ter prazo para alcançar o quórum definitivo.
Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre), foram catalogados 345 casos desde 2006. Desse total, 288, ou 83,48%, ocorreram a partir de 2021.
Foram 20 casos em 2022, 43 em 2023, 66 em 2024 e 86 em 2025, o maior número da série. Até outubro de 2026, o levantamento contabiliza 55 casos.
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