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De Nixon a Trump: como os pandas viraram arma de soft power da China

Publicado 28/09/2026 • 12:45 | Atualizado há 40 minutos

KEY POINTS

  • Ping Ping e Fu Shuang chegaram a Atlanta e inauguram uma nova fase da cooperação entre China e Estados Unidos.
  • A chamada “diplomacia dos pandas” é usada por Pequim há décadas como instrumento de aproximação e soft power.
  • O modelo evoluiu de presentes diplomáticos para acordos de longo prazo voltados à pesquisa, reprodução e conservação da espécie.
Ping Ping e Fu Shuang, pandas enviados ao Zoo Atlanta

Cortesia da Base de Pesquisa de Reprodução de Pandas-Gigantes de Chengdu

Ping Ping e Fu Shuang, pandas-gigantes que chegaram ao Zoo Atlanta como parte de uma nova fase da cooperação entre a instituição americana e a China.

Três dias depois de o presidente da China, Xi Jinping, chamar os pandas de “mensageiros da amizade” entre chineses e americanos durante sua visita à Casa Branca, dois novos representantes da espécie desembarcaram nos Estados Unidos.

Ping Ping, um macho, e Fu Shuang, uma fêmea, chegaram neste domingo (27) ao Aeroporto Internacional Hartsfield-Jackson, em Atlanta. Os animais viajaram durante a noite em um avião cargueiro da FedEx após deixarem uma base de reprodução em Chengdu, no sudoeste da China. Agora, passarão cerca de um mês em quarentena e adaptação no Zoo Atlanta antes de serem apresentados ao público.

A chegada recupera uma das ferramentas mais conhecidas do soft power chinês: a chamada “diplomacia dos pandas”.

🔎 O que é soft power?
É a capacidade de um país de ampliar sua influência por meio de cultura, valores, imagem e atração, em vez de recorrer à força militar ou à pressão econômica. No caso da China, os pandas funcionam como um dos símbolos mais conhecidos dessa estratégia.

Durante décadas, Pequim transformou os animais em símbolos de amizade e cooperação com outros países. O modelo mudou ao longo do tempo, de presentes diplomáticos a acordos de empréstimo, pesquisa e conservação, mas os pandas continuaram acompanhando momentos importantes da política externa chinesa.

Mensageiros da amizade

Hsing Hsing and Ling Ling no zoológico de Smithsonian’s. Foto: Smithsonian’s National Zoo

O envio de pandas começou antes da aproximação promovida pelo então presidente americano Richard Nixon. Em 1941, em meio à guerra entre a China e o Japão, dois pandas foram enviados aos Estados Unidos como agradecimento pelo apoio americano à China.

A iniciativa partiu do governo nacionalista de Chiang Kai-shek e de sua mulher, Soong May-ling, e os animais foram destinados ao Bronx Zoo, em Nova York. A China também recorreu aos pandas como instrumento diplomático nas relações com outros países ao longo das décadas seguintes. Durante a Guerra Fria, por exemplo, animais foram enviados a aliados como a União Soviética.

Nos Estados Unidos, porém, a diplomacia dos pandas ganharia seu episódio mais conhecido três décadas depois. Em 1972, Nixon fez uma visita histórica à China, viagem que abriu caminho para uma reaproximação entre Washington e Pequim após mais de duas décadas de distanciamento.

Durante um jantar em Pequim, a primeira-dama Pat Nixon comentou com o primeiro-ministro Zhou Enlai que gostava de pandas. Pouco depois, a China ofereceu Ling-Ling e Hsing-Hsing ao povo americano como gesto de boa vontade.

Os dois chegaram ao Smithsonian’s National Zoo, em Washington, em abril daquele ano. A partir dali, os pandas se tornaram um dos símbolos mais reconhecíveis da cooperação entre a China e os Estados Unidos.

O que é a diplomacia dos pandas

Tian Tian and Mei Xiang arrived at the Smithsonian’s National Zoo in 2000. Foto: Smithsonian’s National Zoo

A escolha do panda confere à China uma vantagem difícil de replicar por meio de instrumentos diplomáticos convencionais.

O animal é internacionalmente associado ao país, desperta forte simpatia do público e permite que Pequim vincule sua imagem a temas como a preservação ambiental, a ciência e a cooperação internacional.

Essa combinação ajudou a transformar os pandas em uma espécie de embaixadores informais da China.

Dos presentes aos empréstimos

Nas primeiras décadas, os pandas eram oferecidos como presentes diplomáticos entre governos. A partir dos anos 1980, porém, a China passou a substituir esse modelo por contratos de empréstimo com zoológicos estrangeiros, geralmente vinculados a programas de pesquisa e conservação.

Em 1984, Pequim passou a cobrar pelos empréstimos de animais. Com o tempo, os acordos passaram a ser estruturados como parcerias de longo prazo voltadas à reprodução, ao estudo da espécie e à proteção de seu habitat.

Nos Estados Unidos, essa mudança ficou clara em 2000, quando Mei Xiang e Tian Tian chegaram a Washington. Diferentemente de Ling-Ling e Hsing-Hsing, enviados em 1972 como presente, a nova dupla passou a viver no National Zoo, em um acordo de cooperação com a China Wildlife Conservation Association. Em troca, o zoológico americano passou a contribuir com recursos e conhecimento para programas de conservação na China.

O modelo atual prevê pesquisa conjunta, apoio à preservação do habitat natural e regras específicas para a reprodução e os filhotes. No acordo firmado em 2024 para a volta dos pandas a Washington, por exemplo, o Smithsonian informou que paga uma taxa anual de US$ 1 milhão à associação chinesa para financiar pesquisa e conservação.

Os pandas e eventuais filhotes continuam pertencendo à China. Os animais nascidos nos Estados Unidos também devem retornar ao país asiático após alguns anos.

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Com isso, a diplomacia dos pandas ganhou uma dimensão científica. Instituições chinesas e americanas passaram a compartilhar pesquisas sobre reprodução, comportamento, medicina veterinária e preservação de habitats, transformando um antigo gesto simbólico em uma parceria voltada também à conservação da espécie.

O vai e vem dos pandas nos EUA

A presença dos animais nos Estados Unidos acompanhou diferentes momentos da relação entre Washington e Pequim. Mei Xiang e Tian Tian permaneceram por mais de duas décadas no National Zoo e tiveram quatro filhotes sobreviventes.

Em novembro de 2023, o casal e o filhote Xiao Qi Ji retornaram à China, encerrando um capítulo de mais de 20 anos da parceria. Poucos meses depois, porém, Washington e Pequim assinaram um novo acordo de pesquisa e reprodução válido até 2034.

Em outubro de 2024, Bao Li e Qing Bao chegaram à capital dos Estados Unidos. Os dois fizeram sua estreia pública em janeiro de 2025.

San Diego viveu movimento semelhante. O zoológico começou a trabalhar com pandas chineses em 1996, mas o programa anterior foi encerrado em 2019, quando os animais retornaram à China. Em 2024, uma nova parceria levou Yun Chuan e Xin Bao à Califórnia.

Atlanta também mantém uma longa relação com os animais. O primeiro acordo do Zoo Atlanta com a China começou em 1999 e terminou em 2024. Durante os 25 anos da parceria, sete filhotes nasceram do casal Lun Lun e Yang Yang.

Quando o programa terminou, Lun Lun, Yang Yang e suas duas filhas mais novas, Ya Lun e Xi Lun, retornaram à China.

Agora, Ping Ping e Fu Shuang reabrem esse capítulo.

Dez anos em Atlanta

O novo acordo de cooperação foi firmado entre o Zoo Atlanta e a China Wildlife Conservation Association.

Ping Ping e Fu Shuang nasceram na Base de Pesquisa de Reprodução de Pandas-Gigantes de Chengdu. Segundo a imprensa estatal chinesa, eles permanecerão nos Estados Unidos por dez anos.

Com a chegada da dupla, os Estados Unidos passam a abrigar seis pandas-gigantes: dois em Atlanta, dois em Washington e dois em San Diego.

O panda-gigante é atualmente classificado como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Estimativas do San Diego Zoo apontam que cerca de 1,8 mil animais vivem em seu habitat natural.

Pandas voltam em meio à disputa entre potências

O retorno dos animais ocorre em um cenário muito diferente daquele de 1972. Estados Unidos e China disputam hoje a liderança tecnológica, o comércio, os semicondutores, a inteligência artificial e as cadeias de minerais estratégicos, além de manterem profundas divergências sobre Taiwan e a segurança no Indo-Pacífico.

Na visita a Washington na semana passada, Xi defendeu que as duas potências evitem “conflito e confronto” e afirmou que seus interesses estão “profundamente interligados”.

Foi nesse contexto que Xi Jinping retomou o símbolo dos pandas ao anunciar o envio de Ping Ping e Fu Shuang aos Estados Unidos.

O gesto transmite uma imagem de cooperação mesmo quando a relação política e econômica permanece tensa. É uma forma de aproximar sociedades, gerar boa vontade e suavizar a percepção pública sobre a China, exatamente o tipo de efeito buscado por uma estratégia de soft power.

Mais de meio século depois da chegada de Ling-Ling e Hsing-Hsing a Washington, os pandas seguem carregando o mesmo recado. A política entre potências pode ser dura, mas a diplomacia também sabe usar ternura.

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