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Fugir ou ficar? O dilema dos groenlandeses diante das ambições americanas

Publicado 17/01/2026 • 10:23 | Atualizado há 1 hora

AFP

KEY POINTS

  • Alguns enchem os freezers, os galões de água e de combustível, compram um gerador... Outros preparam um plano de saída do território.
  • Ignorando a vontade dos groenlandeses que aspiram à independência e as objeções da Dinamarca, o poder tutelar da ilha, o presidente americano disse querer se apoderar do território ártico "de um jeito ou de outro".
  • Pela falta de estradas neste território coberto por 81% de gelo, as únicas rotas de fuga para os 20 mil habitantes de Nuuk, capital da ilha, são o avião e o mar.

Wikimedia Commons

Casas em Nuuk, capital da Groenlândia

“Seria difícil demais para eles”: Ulrikke já concordou em deixar seus pais idosos para trás se precisar – como vem se preparando para fazer – fugir da casa que compartilham, na hipótese de uma invasão americana na Groenlândia.

Em Nuuk, capital da grande ilha autônoma dinamarquesa cobiçada com insistência pelo presidente americano Donald Trump, os habitantes não cedem à histeria, mas cada um reflete sobre o que faria se o pior acontecesse.

Alguns enchem os freezers, os galões de água e de combustível, compram um gerador… Outros preparam um plano de saída do território.

Profissional do setor de aluguel por temporada, Ulrikke Andersen acredita na possibilidade de uma guerra. “Tenho a sensação de que isso pode acontecer, e começamos a imaginar o que faríamos. Quando caminho, quando saio com meu cachorro, imagino como essas ruas ficariam. Vivo aqui em paz há 40 anos”, confessa ela.

Em sua sala, entre decorações com temas inuítes (povos indígenas que habitam as regiões árticas da Groenlândia), a televisão mostra imagens de Donald Trump em looping.

Ignorando a vontade dos groenlandeses que aspiram à independência e as objeções da Dinamarca, o poder tutelar da ilha, o presidente americano disse querer se apoderar do território ártico “de um jeito ou de outro”.

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Dois “planos de saída”

“Antes, eu estava pronta para morrer pelo meu país, mas quando tive uma filha, tudo mudou”, diz Ulrikke, referindo-se à sua enteada de 12 anos, Anike.

Pela falta de estradas neste território coberto por 81% de gelo, as únicas rotas de fuga para os 20 mil habitantes de Nuuk são o avião e o mar.

Ulrikke vislumbra dois “planos de saída”.

No caso de uma tomada de controle gradual pelos Estados Unidos, a mulher de 40 anos e sua família voarão para a Dinamarca, país de sua nacionalidade. No caso de uma invasão militar repentina, fugirão de barco para uma cabana ao longo do fiorde.

“Podemos caçar, pescar, viver da natureza. De qualquer forma, estamos acostumados a viver em condições extremas, mas já temos também todo o necessário, como papel higiênico, café, chá…”, detalha ela.

Esse tipo de condição “está no nosso DNA”, o de um povo que depende do arpão, do fuzil e do anzol para garantir seu sustento.

Uma vez esgotados os suprimentos, Ulrikke e sua família planejam chegar a uma fazenda no sul da ilha, uma região verde o suficiente para permitir a agricultura e a criação de ovelhas.

Mas, nesse cenário, seu pai de 79 anos e sua mãe de 71, que vivem no andar de cima, não fariam parte da jornada, mesmo que o barco e a cabana tenham espaço para dez pessoas.

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“Onde me esconder”

Ela já os informou sobre a decisão.

“Eles entendem, porque eu lhes disse que precisamos de pessoas capazes de sobreviver e se adaptar a uma vida com o estritamente mínimo. Seria difícil demais para eles e enfraqueceria o grupo”, ressalta ela.

“Na cultura inuíte, sobreviver é a prioridade absoluta. Se alguns no grupo exigem recursos demais e enfraquecem a comunidade, eles se sacrificam”, explica ela, sem demonstrar mais do que um rápido instante de emoção contida.

Nenhum guia de preparação para crises foi distribuído pelas autoridades. Talvez porque a população já esteja acostumada a situações extremas, talvez para não soar alarmista demais…

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Os supermercados continuam bem abastecidos; as pessoas não parecem ter corrido para comprar itens de primeira necessidade.

“Penso em onde me esconder e quais remédios devemos estocar”, conta a estudante Nuunu Binzer. “Mas ainda não fiz isso.”

A empresária Inger Olsvig Brandt, de 62 anos, garante que ficará: “Não irei embora, tentarei ajudar meu país enquanto tiver forças. Pode ser tentador partir, mas somos tão poucos que precisamos uns dos outros”.

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