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O Fim do New START e a Nova Corrida por Defesa na Europa: Implicações Econômicas
Publicado 06/02/2026 • 14:25 | Atualizado há 5 horas
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Publicado 06/02/2026 • 14:25 | Atualizado há 5 horas
Wikimmedia
Em 5 de fevereiro de 2026, o mundo assistiu ao fim do Tratado New START (Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas), o último acordo bilateral de controle de armamento nuclear entre Estados Unidos e Rússia. Pela primeira vez desde 1972, as duas maiores potências nucleares do planeta passaram a operar sem limites legais para seus arsenais estratégicos — um cenário que o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, descreveu como a “situação mais perigosa” desde o fim da Guerra Fria.
O encerramento do acordo reacende temores de uma nova corrida armamentista nuclear e, ao mesmo tempo, acelera investimentos em defesa convencional na Europa, com impactos relevantes sobre orçamentos públicos, políticas industriais e prioridades sociais.
Assinado em 2010 pelos então presidentes Barack Obama e Dmitri Medvedev, o New START limitava a 1.550 o número de ogivas nucleares estratégicas operacionais de cada país e a 700 os sistemas de lançamento. O tratado também previa inspeções mútuas e troca regular de dados - instrumentos centrais para a transparência e a redução de riscos de erro de cálculo.
Esses mecanismos começaram a se deteriorar após a invasão russa da Ucrânia. As inspeções foram suspensas em 2023 e as tentativas de prorrogação fracassaram. Em setembro de 2025, Moscou propôs uma extensão temporária de um ano, mas, diante da ausência de resposta formal dos Estados Unidos, anunciou que deixaria de cumprir todas as obrigações do acordo.
Com o fim formal do tratado, Washington e Moscou passam a ter liberdade para expandir seus arsenais sem restrições jurídicas. Analistas estimam que ambos poderiam aumentar rapidamente o número de ogivas operacionais — em alguns cenários, quase dobrando seus estoques estratégicos.
O Papa Francisco fez um apelo por moderação, defendendo a substituição da “lógica do medo” por uma ética de cooperação. Governos europeus, por sua vez, reagiram em outra direção: reforçar dissuasão, armamentos e sistemas de contenção.
O fim do New START soma-se a uma tendência já em curso. Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, o presidente americano Donald Trump vinha pressionando aliados da Otan a ampliar seus orçamentos militares. O resultado foi uma aceleração dos gastos globais em plena paz formal.
Em 2024, o dispêndio militar mundial alcançou US$ 2,718 trilhões — alta de 9,4% em relação ao ano anterior e o maior crescimento desde o fim da Guerra Fria. Foi o décimo ano consecutivo de expansão, com aumentos registrados em todas as regiões.
A Europa tornou-se um dos principais motores dessa dinâmica. Os gastos no continente, incluindo a Rússia, cresceram 17%, chegando a US$ 693 bilhões. Dentro da Otan, o número de países que atingem a meta de 2% do PIB destinado à defesa saltou de três, em 2014, para 23 dos 32 membros em 2025.
Na Europa, emerge um padrão claro: quanto mais próximo de Moscou, maior tende a ser o investimento em defesa. Estudos indicam que, a cada mil quilômetros de distância da capital russa, os gastos militares aumentam, em média, 0,6 ponto percentual do PIB.
A Polônia lidera esse movimento. Em 2024, destinou 4,12% do PIB à defesa — cerca de US$ 38 bilhões — com projeção de atingir 5% até 2026. Uma década antes, o índice era de apenas 1,88%.
Os países bálticos seguiram a mesma trajetória: Estônia (3,43%), Letônia (3,15%) e Lituânia (2,85%), esta última com planos de elevar o percentual para algo entre 5% e 6% até 2030. O presidente lituano, Gitanas Nauseda, resumiu a lógica da estratégia: “a possibilidade de uma agressão militar russa é real”.
A Alemanha também rompeu tabus históricos. Em 2024, seus gastos militares cresceram 28%, alcançando US$ 88,5 bilhões e superando pela primeira vez, desde 1992, a marca de 2% do PIB. Um fundo extraordinário de € 100 bilhões, criado em 2022, acelerou a modernização das Forças Armadas.
O movimento contrasta com a postura contida adotada por Berlim após a Segunda Guerra Mundial. Agora, sob a liderança do chanceler Friedrich Merz, a Alemanha volta a assumir protagonismo militar em um continente novamente marcado por tensões com Moscou — desta vez com os papéis invertidos na narrativa estratégica europeia.
A nova “corrida por defesa” traz consequências orçamentárias complexas. Priorizar gastos militares implica, frequentemente, reduzir espaço para investimentos em saúde, educação e infraestrutura civil.
Como observou Xiao Liang, pesquisador do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), “à medida que os governos priorizam cada vez mais a segurança militar, as compensações económicas e sociais poderão ter efeitos significativos nas sociedades nos próximos anos”.
Além da defesa convencional, países próximos à Rússia investem pesadamente em sistemas antimísseis para compensar a assimetria nuclear. Nos Estados Unidos, por exemplo, a modernização do arsenal atômico está projetada para custar quase US$ 1 trilhão entre 2025 e 2034.
Mesmo que a Rússia enfrente restrições orçamentárias próprias, a simples percepção de um estoque nuclear sem limites legais tende a pressionar governos europeus a manter — ou ampliar — seus programas de rearmamento.
O fim do New START inaugura uma fase de maior incerteza estratégica. Para a Europa, especialmente no flanco oriental, isso se traduz em uma redefinição duradoura das prioridades fiscais e industriais.
Os efeitos econômicos são amplos: redirecionamento de recursos públicos, fortalecimento da indústria bélica e estímulos tecnológicos colaterais. Ao mesmo tempo, os custos sociais e o aumento do risco geopolítico tornam-se parte permanente do cálculo político.
Sem os freios institucionais dos grandes tratados nucleares, o mundo entra em um terreno mais volátil — onde segurança, crescimento econômico e estabilidade diplomática passam a disputar espaço em orçamentos cada vez mais pressionados.
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