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Lições do Master e Pleno: CDB a 160% do CDI é oportunidade rara ou sinal de alerta?
Publicado 18/02/2026 • 21:18 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 18/02/2026 • 21:18 | Atualizado há 3 horas
KEY POINTS
Produção/Times Brasil
Daniel Vorcaro e Banco Master
A liquidação de instituições como Banco Master, Will Bank e Banco Pleno reacendeu um alerta importante: até que ponto um Certificado de Depósito Bancário (CDB) pagando 130%, 140% ou até 160% do CDI (principal indexador da renda fixa) é oportunidade, e quando passa a ser um sinal de risco?
Para especialistas consultados pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, taxa muito acima da média raramente é “presente”, e geralmente reflete dificuldade de captação do emissor.
Marília Fontes, sócia-fundadora da Nord Investimentos, explica que retornos muito atrativos são motivos de desconfiança. “Um banco que paga 140% do CDI, 160% do CDI, claramente é um sinal de alerta. É um banco que não consegue se financiar no mercado institucional e vai para o mercado pessoa física com taxas muito atrativas e, geralmente, pagando comissões bem altas pela distribuição”, explica.
Ou seja, quando grandes investidores e outras instituições financeiras deixam de emprestar para um banco, o varejo pode virar a principal fonte de funding, a um custo mais elevado.
Filipe Ferreira, professor do Insper e sócio da CTW Consultoria, concorda, e exemplifica com uma analogia simples. “Quando a gente [pessoa física] está disposto a pagar muito mais caro em um empréstimo? Quando a gente está enforcado, quando não tem ninguém para dar dinheiro para a gente. Com o banco é a mesma coisa.”
Segundo ele, ofertas muito acima do padrão do mercado não surgem por acaso. “Um CDB acima de 100% do CDI, 110%, 120%, você até vai encontrar. Mas 140%, 150% do CDI é porque o banco não está conseguindo captar dinheiro de outros modos. Então, isso é um excelente sinal de alerta.”
Leia também: FGC já pagou R$ 37 bilhões a credores do Banco Master e avança para quitar 92% das garantias
O principal equívoco, segundo os especialistas, é confundir renda fixa com ausência de risco.
“As pessoas acham que não tem risco porque normalmente não tem oscilação. Mas no caso do crédito, o risco é simplesmente você não receber nada. Você acha que o seu investimento está crescendo e, de repente, quando vai resgatar, não tem nada lá porque a empresa não pagou”, explica Marília.
Filipe reforça o conceito. “Não é porque é renda fixa que significa que não tem risco. Significa que o contrato é pré-acordado. Só isso. Essa é a diferença de renda fixa e variável.”
Ele detalha os três principais riscos envolvidos. “Os principais componentes de risco são risco de liquidez, risco de mercado e risco de crédito.”
No caso dos bancos médios que enfrentaram liquidação, o risco que se materializou foi o de crédito, ou seja, o pagador simplesmente não honrar o compromisso.
Outro ponto frequentemente usado como argumento de venda é a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Mas os analistas alertam: ele reduz o impacto, não elimina o risco.
“O FGC é uma instituição que não foi criada para ficar pagando taxa de banco quebrado. Ele é como se fosse um seguro para que não dê corrida bancária no sistema financeiro.”
Filipe acrescenta que existe também o risco de tempo. “O FGC é suficiente para te proteger de perder muito dinheiro nesses casos, mas não é feito para que você invista sem se preocupar.”
“Se você aplica em mês e o banco quebra no outro, depois você passa três ou quatro meses até receber. Ou seja, você recebeu juros de um mês para carregar o dinheiro por quatro”, completa.
Enrico Cozzolino, CEO e estrategista da Zermatt Partners, faz uma comparação. “O FGC não elimina risco. Ele garante o principal até certo valor. Gosto de dizer que o FGC é um seguro, um airbag: ele protege do dano, mas não evita a colisão.”
Ramiro Gomes Ferreira, cofundador do Clube do Valor, completa: “O FGC não elimina o risco — ele limita o impacto do risco.”
Leia também: Banco Pleno: Semp Toshiba, Indusval e décadas de problemas de liquidez
A seguir, veja o passo a passo que os especialistas sugerem para não tomar decisão só pela vitrine da plataforma.
1) Compare a taxa com o “padrão” do segmento
O primeiro filtro é relativo: essa taxa está muito acima de bancos parecidos?
Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, chama atenção para o momento em que o prêmio deixa de ser “extra” e vira alerta: quando a taxa “passa a ser taxa de desespero”, especialmente se aparece “em escala” e em emissor pouco conhecido.
Aqui o investidor precisa separar dois cenários:
2) Entenda de onde vem o dinheiro do banco (funding)
Quando Marília fala em “mercado institucional”, ela está dizendo que dinheiro profissional costuma ser mais barato e mais exigente. Se esse canal encarece ou fecha, o banco pode migrar para o varejo com taxas agressivas.
Otávio detalha isso de forma bem prática: quando “grandes instituições fecham a torneira”, o varejo vira fonte residual de funding. Com isso, a taxa alta pode ser menos “oportunidade” e mais “necessidade”.
3) Porte do emissor
Ramiro recomenda olhar o porte do banco, inclusive pela segmentação do Banco Central (S1–S5). A ideia não é “banco pequeno é ruim”, e sim reconhecer que:
4) Índice de Basileia: o colchão de capital
Basileia entra como um dos indicadores mais citados por todos. Enrico Cozzolino, CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners, explica que o índice mede, de forma simplificada, quanto capital próprio o banco tem para sustentar suas operações de crédito.
O alerta não é “Basileia baixa = quebra certa”, mas:
Otávio sugere observar Basileia junto com outros sintomas, como inadimplência, lucro recorrente e liquidez.
5) Lucro recorrente e consistência do resultado
Bancos que geram resultado consistente conseguem formar capital e absorver perdas com mais facilidade. Ramiro coloca “lucratividade recorrente” como pilar porque prejuízos seguidos tendem a virar bola de neve, uma vez que deterioram capital, pioram o rating e encarecem funding.
Marília cita a “capacidade de gerar resultado” como parte do diagnóstico para entender por que um banco paga uma taxa tão alta.
6) Inadimplência e PDD
Otávio e Enrico apontam um ponto que o investidor pessoa física costuma ignorar: a evolução de inadimplência e das provisões para devedores duvidosos (PDD).
7) Rating de crédito
Rating não é sentença, mas serve como bússola. Ramiro sugere usá-lo como uma segunda visão técnica sobre risco. Enrico vai além, e pontua que se a instituição tem uma nota pior do que outras que pagam taxas parecidas, isso pede cautela.
Além disso, a ausência de rating em emissões relevantes não prova problema, mas exige mais diligência, afirma Otávio.
8) Liquidez da carteira e “ativos difíceis de vender”
Enrico e Otávio destacam que um banco pode oferecer taxa alta porque está alocando em ativos mais arriscados ou com menos liquidez. Se o banco depende de vender ativos para fazer caixa e esses ativos não são líquidos, a conta fica perigosa em momentos de estresse.
9) Mercado secundário: o termômetro antes da manchete
Otávio sugere acompanhar como esses papéis se comportam no secundário. Se, antes de qualquer comunicado oficial, começam a aparecer descontos grandes e investidores tentando sair, pode ser sinal de que o mercado especializado está reprecificando o risco.
Não é regra, mas é um “cheiro de fumaça” que costuma aparecer cedo.
10) Função do CDB na sua carteira
Aqui é onde o “CDB turbinado” costuma virar armadilha. Otávio diz que CDB de banco pequeno com taxa muito alta não é reserva de emergência, e sim aposta de crédito, ainda que com proteção parcial do FGC. Por isso, recomenda limitar o ticket e diversificar.
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Jornalista formada pela Universidade Mackenzie e pós-graduada em economia no Insper. Tem passagem pela Climatempo, CNN Brasil, PicPay e Revista Oeste. É redatora de finanças no Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC. Eleita uma das 50 jornalistas +Admiradas da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças de 2024.
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