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Dólar perde força nas carteiras enquanto países ampliam reservas de ouro em meio à guerra no Oriente Médio
Publicado 02/04/2026 • 22:13 | Atualizado há 3 meses
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Publicado 02/04/2026 • 22:13 | Atualizado há 3 meses
KEY POINTS
A volatilidade do petróleo, decorrente da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, fez o apetite de risco mundial mudar. Opções clássicas de refúgio em momentos de instabilidade, como o dólar, tem perdido o selo de segurança, ao passo que ativos financeiros como o ouro tem figurado no centro das atenções.
Segundo um levantamento do Trademap, no trimestre encerrado na última terça-feira (31), o ouro registrou queda de 4,45%. Já o dólar aprofundou as perdas, marcando recuo de 5,81%. Ultimamente, os ativos têm tido uma relação inversamente proporcional: quando o dólar se enfraquece, o ouro ganha. Se a moeda americana ganha, o metal perde valor.
A razão para isso é a crise de credibilidade pela qual a Casa Branca passa. Diante da inconsistência no discurso e nas contradições de projeções feitas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, o dólar – a moeda referência de todo o mundo – deixou de ser considerado uma divisa universal e reserva de valor do mundo.
Segundo Carla Beni, professora de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o movimento não é novo, mas vem se aprofundando durante a gestão do Republicano. Desde a pandemia de Covid-19, os bancos centrais do mundo têm aumentado suas reservas de ouro para estocar ativos considerados conservadores.
“No caso do Brasil, por exemplo, nota-se um aumento gradual das reservas de ouro desde 2020. A instabilidade gerada no cenário internacional, em parte associada às políticas da administração Trump, intensificou essa tendência”, afirma.
A lógica é a seguinte: se o dólar perde a confiança do mercado, os agentes procuram por outros investimentos tradicionais. Porém, há uma diferença importante entre os dois ativos. Enquanto o dólar é aceito em trocas comerciais em, praticamente, todas as partes do mundo, o ouro perdeu seu caráter transacional ao longo dos séculos, sendo relegado ao posto de ativo financeiro somente.
“Não se vislumbra a substituição de moedas por ouro, dada sua menor liquidez comparada a outras formas de pagamento. O ouro funciona como uma reserva de valor”, diz Beni.
Diante do real, o dólar seguiu o padrão sazonal histórico de queda no início do ano, impulsionado pelos pagamentos das exportações agrícolas. Esse movimento foi reforçado pelo diferencial de juros favorável ao real e pelo enfraquecimento global do dólar contra moedas emergentes, explica Breno Falseti, sócio na Rubik Capital.
Em relação às divisas de países desenvolvidos, o dólar já vinha demonstrando a mesma fragilidade observada no ano passado, com recursos de investidores saindo dos Estados Unidos em direção ao restante do mundo. “Com o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, surgiu a perspectiva de maior pressão inflacionária, o que levou o Federal Reserve a alterar sua postura”, afirmou o especialista.
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Siga o Times | CNBCJá o ouro apresentou forte valorização no início do ano, dando sequência ao movimento iniciado em 2024, até se tornar um posicionamento consensual. “A partir daí, uma desalocação técnica levou a uma correção abrupta após a alta nas primeiras semanas de janeiro. Com a eclosão da guerra, o senso comum diria que o ouro deveria subir”, continua.
Falseti explica que dois fatores pressionaram o metal na direção oposta: em primeiro lugar, o Banco Central da Turquia vendeu e utilizou operações de swap volumes relevantes de suas reservas de ouro para gerar liquidez em moeda estrangeira e sustentar a lira diante dos efeitos do conflito. “Segundo, o próprio posicionamento consensual fez com que, ao serem acionados os sistemas de risco de fundos e investidores globais, houvesse chamadas de margem que forçaram a liquidação de posições em ouro”.
O ciclo de desvalorização do dólar deve persistir, sustentado por fatores como o aumento gradual do comércio internacional em outras moedas, o elevado endividamento do governo americano, a inflação nos Estados Unidos e os sucessivos déficits em conta corrente do país, segundo Falseti.
O ouro, por sua vez, possui um perfil singular: é um ativo livre de risco de crédito em um mundo onde esse risco é crescente de forma generalizada — inclusive nos títulos do Tesouro americano, antes considerados totalmente seguros.
“Nesse contexto, o metal ganha protagonismo ainda maior na composição de portfólio, especialmente quando consideramos a expansão monetária realizada pelos países desenvolvidos nas últimas décadas. O ouro é, por natureza, um ativo de preservação de poder de compra: em um ambiente de expansão monetária, ele tende a se apreciar”, conta.
O ouro e o dólar podem cumprir papéis semelhantes em relação ao real, mas são influenciados por fatores distintos. Em cenários de inflação alta, o ouro tende a subir por não estar sujeito às mudanças da política monetária. O dólar também pode se valorizar se houver aumento de juros nos EUA, mas a moeda responde a fatores como fluxos globais e juros, enquanto o ouro tem foco na preservação de valor.
“Ou seja, o posicionamento de longo prazo nos dois é complementar como diversificação do real, mas não se limita a esse propósito. Ao investir nos Estados Unidos, o investidor local acessa uma série de ativos indisponíveis no mercado brasileiro, enquanto o ouro carrega um viés mais forte de preservação de capital”, conclui.
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